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O clima anda pesado demais? Leia Millôr Fernandes e outros mestres do humor

Rodrigo Casarin

25/03/2020 09h57

Ajuda a gente, Millôr!

A quarentena começou há pouco, mas já bateu forte por aqui. O humor tem oscilado um tanto. Quando piora, não fica mau, fica péssimo. Trabalho de casa há mais de dez anos, só que ter que ficar trancado compulsoriamente é diferente de ir do quarto pro escritório, do escritório pra cozinha, da cozinha pra sala e da sala pro quarto por opção. Tem feito muita falta sair para correr, jogar bola e tomar uma cerveja num boteco qualquer. Importante se manter bem informado, só que as notícias deixam tudo ainda mais pesado.

Milhões de pessoas estão na mesma situação, estou certo disso. É uma boa hora para procurarmos por filmes mais leves, músicas que nos coloquem para cima, jogos que nos levem para outro universo e livros que nos tragam bons sentimentos ou nos arranquem algumas risadas. Planejava fazer hoje uma lista com alguns títulos certeiros para quem procura por esse tipo de leitura. Vasculhando minhas estantes, porém, esbarrei num específico precioso para esse momento: "O Melhor do Humor Brasileiro", antologia organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Companhia das Letras em 2016.

O volume reúne frases, versos, contos e fragmentos humorados de diferentes épocas da história brasileira, da oralidade tupinambá às crônicas de Luis Fernando Verissimo e Antonio Prata. Da cultura indígena que vem o verso "Quando me vires sem vida,/ atira-me à selva escura,/ que o tatu há de se apressar/ em me dar a sepultura". Me agrada tratar a morte dessa maneira. Da tradição popular há o famoso Pedro Malasartes, malandro que sempre soube tirar proveito de todas as situações. O que tramaria por esses dias tão estranhos? Talvez algo contra quem desdenha do "resfriadinho", da "gripezinha".

Gregório de Matos, José de Alencar, Gonçalves Dias, Luís Gama, Artur Azevedo, Lima Barreto, Noel Rosa, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Mário Quintana, muito Machado de Assis… todos esses nomões têm seu lugar na antologia de Flávio. Só estranho a ausência de mais autoras. Apenas uma aparece no volume: Júlia Lopes de Almeida, carioca que viveu entre 1862 e 1934 e que o organizador define como "primeira escritora brasileira com qualidade literária acima da média". Dela há o conto "Cena de Comédia" e a crônica "Livro das Donas e Donzelas", que traz esse ótimo início: "Para saber comer, é preciso não ter fome. Quem tem fome não saboreia, engole".

"O humor, já dizia Sílvio Romero há mais de um século, não é feito por pessoas bem-humoradas. Ao contrário: 'Quando alguém faz humor é sinal de que está mal-humorado'. A afirmação recriada por Millôr: 'O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada"', resgata Flávio na introdução do livro. E talvez Millôr Fernandes seja a maior preciosidade do humor em nossa literatura. Com o calhamaço em mãos, passei um bom tempo me deliciando com suas sacadas. Eis algumas:

"Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler".

"O apaziguador é o cara que pensa que tratando com cuidado um rinoceronte, ele um dia dá leite de vaca".

"Todos os homens nascem iguais; e alguns até piores".

"É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra"

"Não reclama, não: quando um cara quer te fazer de idiota, é porque encontrou material".

"Às vezes você está discutindo com um imbecil…. e ele também".

Não mudam o mundo lá fora, claro, mas ajudam a ver as coisas com outras perspectivas. E arrancam alguns sorrisos, um grande feito nesses dias difíceis.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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