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Capa frustrada: a história da filha de Fidel Castro com a Playboy

Rodrigo Casarin

24/03/2020 09h36

Na semana passada, a revista Playboy anunciou o encerramento de sua versão impressa nos Estados Unidos. É o fim de uma era, para ficarmos no clichê. Aliás, já perdi a conta de quantas vezes essa frase foi associada ao final da Playboy, cuja versão brasileira já finou, ressuscitou e voltou a falecer.

Mas escrevo para lembrar de uma passagem. Há quatro anos, a Panda Books lançou "Histórias Secretas – Os Bastidores dos 40 Anos da Playboy no Brasil", que reúne relatos de 15 profissionais que trabalharam na revista. Gente como Ruy Castro, Juca Kfouri, Humberto Werneck e Sérgio Xavier. Distante do erotismo, a obra é uma espécie de museu do jornalismo, uma amostra de como as grandes marcas do setor foram perdendo sua força financeira.

Lembro aqui de uma das histórias mais interessantes do volume: o relato de Ricardo Setti, diretor de redação da revista entre 1994 e 1999, sobre a tentativa frustrada de colocar Alina Fernández Revuelta, filha do ditador cubano Fidel Castro, na capa da publicação. Em 1998, Ricardo viajou para Madri, onde a moça vivia após fugir de Cuba no final de 1993 e de onde levantava bandeira contra seu pai, para tentar convencê-la a posar nua para a edição brasileira da revista.

Ricardo sabia que ter a filha de Fidel na capa causaria repercussão global, por isso não poupou no cachê. Numa negociação que se arrastou por um bom tempo, fechou um acordo cujo valor não revela por questões éticas, mas que, garante, era o suficiente para comprar um bom apartamento num bairro nobre de São Paulo. Provavelmente estamos falando de uma grana de seis dígitos na época e que, corrigida, ultrapassaria o milhão em nossos dias.

O cenário escolhido para o ensaio foi um luxuoso hotel em Roma, na Itália. O fotógrafo escalado para a tarefa foi J. R. Duran, um dos homens por trás das máquinas mais famosos da história da revista por essas bandas. Tudo indicava que as fotos aconteceriam numa boa. O clima entre a equipe da Playboy e Alina era amistoso. Porém, quando o trabalho de fato começou, tudo mudou.

Outrora alegre e expressiva, na frente das câmeras a filha de Fidel se recusava a sorrir. Duran fazia o que podia para tentar aliviar o clima e criar alguma intimidade entre a modelo e suas lentes. Sabia que produção impecável e uma bela mulher não bastavam para segurar um ensaio digno de ocupar a capa da principal revista erótica do país. Empatia era fundamental para que o leitor sentisse alguma conexão com a beldade da vez.

Não rolou. As mais de mil fotos não passaram pelo crivo de Ricardo Setti. O material era um primor técnico, mas carecia de algo a mais. Carecia de alguma alegria, alguma felicidade. A equipe da revista se debruçou durante horas sobre aquele material até que decidissem que não iriam publicá-lo. Explicaram os motivos para Alina e lhe pagaram o distrato, que ainda garantiu uma boa grana à mulher. Na sequência, todo o material com as imagens foi destruído. A filha de Fidel posou para J. R. Duran, mas nunca chegou à capa da Playboy.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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