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Mussolini e Bolsonaro: A Marcha Sobre Roma e as manifestações do dia 15

Rodrigo Casarin

13/03/2020 10h29

Em outubro de 1922, milhares de fascistas vestiram suas camisas negras e marcharam sobre Roma pedindo o fim da democracia, num capítulo decisivo para a ascensão definitiva de Benito Mussolini. Não é por acaso que muitos comparam as manifestações que estão sendo programadas para o próximo dia 15 pelos nossos camisas amarelas com o evento italiano. Mesmo na presidência, Jair Bolsonaro coloca lenha na fogueira que tenta cremar legislativo e judiciário, visando minar as forças democráticas e se transfigurar no único poder da nação. Talvez os atos não aconteçam ou minguem por conta do coronavírus, mas segue o alerta.

Tinha o livro "Fascismo: Textos Fundamentais e Históricos do Século XX" aqui ao meu lado há algum tempo. É uma publicação da Nova Fronteira que reúne o manifesto "A Doutrina do Fascismo", escrito por Mussolini, e "O Fascismo – O que É e Como Combatê-lo", ensaio do revolucionário russo Leon Trótski. Peguei pra ler. Passei pelo de Trótski, que me pareceu datado demais, o texto de Mussolini, por outro lado, guarda semelhanças com o que estamos vendo. Não que surpreenda.

Primeiro, ressaltemos uma diferença fundamental entre o modo como Bolsonaro encara hoje o mundo e o que Mussolini pregava em seu manifesto pra lá de chato. Os olhos do italiano eram voltados para o Estado, que deveria crescer cada vez mais, enquanto atacava o liberalismo econômico. Já o Bolsonaro eleito, sabemos, não se vende como fã do aparelho estatal. Quer sim dominar tudo o que é relacionado ao Estado brasileiro, mas, ao mesmo tempo, entrega boa parte do controle da nação ao empresariado e ao mercado financeiro, simpático que se tornou do neoliberalismo.

Porém, há proximidades entre o que vimos e o que vemos. No seu manifesto, Mussolini reitera diversas vezes a importância de se manter as tradições, ainda que não especifique exatamente a quais tradições se refere. O tom de modelo de homem virtuoso que elevaria moralmente a nação também ecoa nos dias de hoje. "O fascismo, em síntese, não é apenas um promulgador de leis e fundador de instituições, mas um educador e promotor da vida espiritual. Seu objetivo é remodelar não só as formas de vida, mas seu conteúdo – o homem, seu caráter e sua fé. Para concretizar tal propósito, impõe a disciplina e usa a autoridade, entrando na alma e governando com inquestionável influência".

No discurso do italiano que acabou vendo a morte de ponta-cabeça, fala-se da necessidade de resgatar o Estado das mãos inescrupulosas de facções e partidos que teriam capturado a máquina pública para satisfazer seus os próprios interesses. Sim, é familiar. Como é familiar o tom bélico que impera nas ideias de Mussolini, que encarava o pacifismo como um "manto para a renúncia covarde e complacente, em contraste com o autossacrifício" e acreditava que apenas a guerra leva à nobreza, numa convicção que talvez possamos transmutar para a necessidade de conflitos constantes não apenas de Bolsonaro, mas de muitos representantes da extrema-direita contemporânea.

Há mais. "A vida, conforme a concebe o fascista, é séria, austera e religiosa: todas as suas manifestações se assentam sobre um mundo sustentado pelas forças morais e sujeito a responsabilidades espirituais. O fascista despreza uma vida 'fácil"'. E o que seria o oposto da vida fácil? Segundo Mussolini, uma vida de luta constante, contínua e incessante, aceita sem choramingar, com grande coragem e uma necessária bravura. Uma vida de comprar bovinamente brigas por supostos interesses elevados, eu resumiria.

O grande problema é que lá Mussolini encontrou um amplo apoio da população e do empresariado para chegar ao poder. Aqui, Bolsonaro também, só não sabemos exatamente como anda esse apoio em época de caos financeiro. Em todo caso, os alertas seguem sendo dados. Há palavras escritas pelo italiano que (ainda?) parecem fazer pleno sentido em nossos dias. Um exemplo: "Nunca dantes os povos estiveram tão sedentos de autoridade, direção e ordem quanto agora. Se é verdade que cada época tem sua doutrina, inúmeros sintomas indicam que a doutrina da nossa era é a fascista. Pode ser comprovado que ela é vital pelo fato de que despertou uma fé". Outro: "Somos livres para crer que este é o século da autoridade, um século que tende para a 'direita', um século fascista".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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