PUBLICIDADE
Topo

Tem fetiche por belos pés? Que tal conhecer a obra de Jun'ichiro Tanizaki?

Rodrigo Casarin

07/01/2020 07h00

Em 1968, quando o Nobel de Literatura foi anunciado para Yasunari Kawabata, autor de "A Casa das Belas Adormecidas" e "Beleza e Tristeza", uma questão chegou ao fim: quem seria o primeiro escritor japonês a receber a honraria? Muitos apostavam no próprio Kawabata, mas outros tantos colocavam as fichas em Yukio Mishima, responsável por títulos como "Confissões de uma Máscara" e "Cores Proibidas".

Outro nome cotado para ser o primeiro escritor japonês a levar o Nobel para casa era Jun'ichiro Tanizaki, este um nome bem menos conhecido dos leitores brasileiros. Os arquivos da Academia Sueca indicam que Tanizaki chegou a ser cogitado ao prêmio ao longo da década de 1960.

Para quem deseja conhecer essa espécie de precursor de Haruki Murakami – o sempre cotado que nunca leva o Nobel –, a Estação Liberdade há pouco publicou um novo livro reunindo duas novelas até então inéditas por aqui de Tanizaki: "A Ponte Flutuante dos Sonhos seguido de Retrato de Shunkin", traduzidas por Andrei Cunha, Ariel de Oliveira e Lidia Ivassa.

"A Ponte Flutuante dos Sonhos" é de 1959 e dialoga com "Genji Monogatari", livro escrito no século 11 pela cortesã Murasaki Shikibu e considerado o primeiro romance da literatura japonesa. Já "Retrato de Shunkin" é de 1933 e apresenta a relação entre Shunkin, uma bela e cruel artista cega cujo talento para a música atiça paixões, e Sasuke, seu ajudante e amante.

Jun'ichiro Tanizaki nasceu em 1886, morreu em 1965 e deixou uma obra apontada como transgressora. No universo que criou, a sensualidade e o erotismo são temas fundamentais, passando por assuntos como infidelidade, fetichismo, sadismo, voyeurismo e outros anseios carnais alimentados longe do julgo da moral cristã.

"O estilo dele foi mudando conforme amadureceu, mas alguns traços são constantes em toda a obra. As relações humanas, sua complexidade, o fato de toda situação ter tantas perspectivas quanto pessoas envolvidas… Outro ponto é a sexualidade, um fator que não pode ser ignorado nas relações humanas. Essa sexualidade presente nos livros do Tanizaki tem algumas características especiais: ele tinha um ideal de mulher sensual bastante específico e tinha uma fixação na figura do pé feminino. Diversos textos dele têm situações de pés femininos em situações eróticas", aponta Andrei Cunha, um dos tradutores do volume.

Outro ponto que Andrei destaca é o talento do autor para criar bons narradores. "Em geral eles apresentam algum problema que torna a narrativa pouco confiável. São narradores que não querem contar toda a verdade, que não aceitam toda a verdade ou não tem acesso à verdade completa. O Tanizaki passa para o leitor a tarefa de interpretar o que está acontecendo. Esse jogo cria uma complexidade muito grande na maneira como a própria prosa vai se desenvolvendo nos livros dele. Mesmo quando não há esse jogo, ele sempre dá um jeito de fazer com que fiquemos sabendo o que várias personagens diferentes estão pensando ao mesmo tempo sobre a mesma situação".

Dentre os principais livros de Jun'ichiro Tanizaki estão "Em Louvor da Sombra", de 1933, que saiu por aqui pela Penguin Companhia, "As Irmãs Makioka", de 1943, e "Diário de um Velho Louco", de 1961, esses dois publicados no Brasil também pela Estação Liberdade, editora que prepara a tradução de "As Criadas", ainda sem previsão de lançamento.

Voltando ao prêmio sueco, Tanizaki, Kawabata e Mishima formam a chamada "tríade do Nobel". "Os três tiveram uma importância muito grande na história da recepção da literatura japonesa no mundo por conta das muitas traduções que receberam", aponta Andrei. Ainda nessa praia, há pouco a Estação Liberdade lançou "Kawabata-Mishima – Correspondência 1945 – 1970", livro que reúne trocas de cartas de Mishima e Kawabata. A tradução é de Fernanda Garcia.

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, Youtube e Spotify.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

Blog Pagina cinco