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Elton John: meu maior momento nos palcos foi ao lado de John Lennon

Rodrigo Casarin

11/12/2019 08h19

"Minha vida é e foi extraordinária e honestamente não a mudaria em nada, nem as partes das quais me arrependo, pois gosto muito do que acabou por resultar de tudo. Obviamente preferiria ter seguido em frente quando passei por John Reid preparando carreiras de cocaína no estúdio em vez de meter o nariz, em todos os sentidos possíveis. Mas talvez tenha precisado passar por aquilo para chegar aonde estou. Não é de forma alguma onde esperava estar – casado com um homem, pai de dois filhos, duas coisas que me pareciam impossíveis nem faz tanto tempo assim. Mas eis a outra lição que minha ridícula vida me ensinou. Desde o momento em que me levaram até a porta após um teste malsucedido e me deram um envelope com as letras de Bernie, nada jamais ocorreu como eu imaginaria. Minha história é um festival de 'e se…?', de momentos estranhos nos quais tudo mudou. E se o mau resultado do teste tivesse me abalado a tal ponto que, no caminho para a estação, tivesse jogado o envelope de Bernie na primeira lata de lixo? E se tivesse batido o pé e me recusado a ir para os Estados Unidos quando Dick James me sugeriu? E se naquela tarde de sábado, no início da década de 1990, o Watford tivesse ganhado do West Bromwich Albion e eu, com a moral mais elevada, não tivesse sentido a necessidade de ligar para um amigo e pedir que trouxesse alguns rapazes gays para jantar? E se eu não tivesse reparado em Lev no orfanato na Ucrânia? Onde estaria agora? Quem seria agora?"

É dessa forma que Reginald Dwight, 72 anos, conduz o leitor ao final de sua autobiografia. Não sabe quem é Reginald? Sabe sim. É bem mais conhecido como Elton John – exato, o músico famoso por canções como "Rocket Man" e "Tiny Dancer". Na esteira da cinebiografia que chegou aos nossos cinemas há alguns meses, agora a Planeta publica no Brasil "Eu, Elton John", a história de vida do artista contada pelo próprio astro – com auxílio do crítico musical Alexis Petridis – e traduzida para o português por Jaime Biaggio.

Após o lançamento mundial, rapidamente o livro alcançou o topo de listas de best-sellers como a do New York Times. Na obra, John lembra de sua conturbada infância no subúrbio de Londres, passa pelo início da vida artística, recorda da amizade com outros grandes astros da música e se aprofunda na parceria com Bernie Taupin, com quem divide muitas de suas composições. Há também espaço para os momentos conturbados de sua vida, claro, como as tentativas de suicídio e o vício em drogas. Apesar disso, a ideia foi entregar ao leitor um texto humorado, inspirado em livros de nomes como Arthur Rubinstein e David Niven.

Seguindo os acordos firmados, John não deverá falar com a imprensa dos países onde seu livro está sendo lançado, mas liberou uma entrevista exclusiva para cada editora que publica a obra pelo mundo. São partes desse papo fornecido à Planeta e cedido com exclusividade ao Página Cinco que você acompanha no vídeo acima. Alguns dos melhores momentos estão nos fragmentos abaixo.

Livro x Filme

"O filme foi uma fantasia com elementos de verdade. [No livro] eu queria mostrar a trajetória difícil de ser um artista de sucesso, como atravessei momentos difíceis e como os superei. É a história da minha vida até o dia de hoje, com as sujeiras e tudo. E eu tentei fazê-la divertida e interessante para que as pessoas não se chateassem com muita coisa de música. Eu poderia ter escrito um livro que seria, provavelmente, quatro vezes mais longo, porque tem tanta coisa que ficou de fora…. mas eu só queria encapsular tudo pelo que passei".

Salto no escuro

"Eu sempre digo aos artistas jovens: 'Nunca tenha medo de dar um salto no escuro', porque se você não der o salto no escuro, anos depois você estará dizendo: 'Por que eu não fiz aquilo?' Se eu não tivesse dado um salto no escuro, nada teria acontecido comigo. Não sei se ainda estaria fazendo música, eu nunca teria me tornado Elton John. O salto no escuro é muito importante. Se você sente nas suas entranhas, salte. Vá em frente".

Composição

"Eu recebo uma letra, vou para outro cômodo, sento no piano e olho para o título. Leio a letra inteira. Enquanto estou lendo, um pequeno filme aparece, como quando eu era criança e lia um livro. Cresci nos anos 1950, então não havia televisão, eu só imaginava. Havia o rádio e a gente costumava ouvir peças no rádio. Era tão bom ser criança e só usar a imaginação. E é exatamente assim que funciona com as letras. Quando chego ao final, se realmente gostei dela, sei qual será o andamento da canção, tenho um palpite sobre o gênero. Aí ponho minhas mãos no teclado. Não tenho ideias pré-formadas, não escrevo uma sequência de acordes antes. Ponho as mãos nas teclas e então uma sequência de acordes aparece. Tudo se encaixa. 45 minutos depois eu tenho uma canção, ou talvez até antes".

Formação

"Cumpri meus deveres. Tocava de ouvido quando era garoto. Me mandaram fazer aulas e eu fiz – talvez reclamando, mas eu as aturei. Aprendi a tocar Mozart, Chopin, Beethoven, Bach, todos os grandes compositores. Frequentei a Academia Real de Música, fiz amigos que depois tocaram, fizeram arranjos e produziram meus discos. Então fui em frente com minha banda, viajei para cima e para baixo, por toda a Grã-Bretanha, tocando em lugares terríveis para 35 pessoas. Fui da banda da Patti LaBelle, do Lee Dorsey, Major Lance, Billy Stewart… Assisti a grandes artistas se apresentando, prestei atenção em como eles se apresentavam. Então, no momento em que eu me tornei o artista Elton John, já tinha tido um bocado de experiência. Quando consegui fazer shows, não estava aprendendo do zero, tinha todos aqueles anos de experiência atrás de mim para ser eu mesmo, não um cantor ou instrumentista de apoio.

Elton John e John Lennon.

Ápice nos palcos

"Com o John Lennon, sem dúvida. Foram tantas coisas maravilhosas que aconteceram comigo no palco… Mas ele subindo no palco no Dia de Ação de Graças de 1975 [1974, na verdade], no Madison Square Garden, quando não era visto em Nova York desde o show no Shea Stadium, com os Beatles… Ele estava tão nervoso que ele vomitou. A gente ia fazer três músicas juntos. Ele entrou em cena para o que foi provavelmente a salva de palmas mais comovente que eu já ouvi para qualquer pessoa. Todos nós derramamos uma lágrima naquele dia porque a gente ia tocar com John Lennon, mas também por causa do amor da plateia. Eu nunca vou esquecer aquilo".

Piores momentos no palco

"Você não entra no palco para fazer um show ruim, mas às vezes… Geralmente é um problema técnico. Teve um problema uma vez no Greek Theatre em que o piano pifou completamente. As pessoas ficaram sentadas lá por 25 minutos. O show começou e as pessoas foram à loucura. Eu surtei nos bastidores, porque eu não podia fazer nada a respeito, era tão frustrante… Geralmente é uma questão técnica e isso é tão frustrante. Odeio isso, sou um perfeccionista. Acontece muito raramente, mas acontece. É a vida como ela é, basicamente".

Problemas de saúde

"Eu passei por maus bocados. Antes da retirada do meu câncer de próstata, tive um problema quase fatal com meu apêndice que eu não sabia que tinha. Fiz dez ou onze shows, peguei 24 voos, com o apêndice inflamado. Só Deus sabe como eu sobrevivi a isso. Tive a minha próstata removida em 2017 e tudo correu muito bem. Então, tive acúmulo de fluidos no abdômen e foram dois meses de inferno. Me livrei disso e ainda toquei em Las Vegas com a dor, não sei como consegui. Fui para a América do Sul com o James Taylor e peguei um vírus terrível, que eu não sabia que tinha pegado até chegar de volta a Lisboa e depois a Londres. Fui direto para a clínica, fiquei na UTI por dois dias e no hospital por mais nove, com uma infecção que era tão forte que tiveram que me tratar duas vezes. Eu estava tomando antibióticos para a infecção original e eles fizeram um novo exame e descobriram que, na verdade, era pior do que eles pensavam. Eu sabia que estava bastante doente, mas não que estava tão perto da morte. E eu estava. Tudo que eu conseguia pensar era: 'Por favor, quero ver meus filhos, quero levantar para ver meus meninos….' Foi uma lição para mim. Levei sete semanas para me recuperar. Com isso e mais o câncer, meio que tive um ano milagroso".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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