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Edward: o hamster mais insatisfeito e curioso do que muita gente por aí

Rodrigo Casarin

03/12/2019 08h54

Edward leva uma vida sem grandes emoções, a não ser por suas angustias. "Por que existir?", gostaria de saber. Durante tempos, além de pensar, seu cotidiano se limitou a três possibilidades: andar numa roda, beber água e comer sementes. "Sexta-feira, 16 de maio. Usei a roda. Comi sementes. Bebi água", registrou certa vez em seu diário, após um dia cheio. O brinquedo foi o primeiro alvo de sua insatisfação. Quando a revolta aumentou, ficou radical. "Nada mais haverá na vida?", refletiu ao encarar o trio de sempre.

Roda. Sementes. Água. Resolveu se rebelar contra a tirania, contra os soberanos que lhe infligiam aquela condição. Estava decidido: não aceitaria alimentos e água até que conquistasse a liberdade. Entendia que o final poderia ser outro, mas topava arriscar a própria vida para lutar pelo que almejava. Foi bravo o Edward. Cortou mesmo a água. Privou-se mesmo da comida. A roda permaneceu sem ranger. Estava focado. A revolução era inevitável. Isso durante algum tempo. Pouco tempo. Sua greve durou exatos 14 minutos. "De que vale um hamster morto para a resistência?", indagou-se ao encher a boca de sementes e tomar sua água. É preciso se fortalecer para a luta pela independência, afinal.

Essa é sua uma das passagens da vida de Edward, um hamster que vive dentro de uma gaiola e divide tanto seu cotidiano quanto seus pensamentos com um diário. Tais registros que deram origem ao livro "O Diário de Edward, O Hamster (1990 – 1990)" (Todavia). As datas de nascimento e morte do filósofo roedor já dão o tom de ironia da obra escrita e ilustrada pelos irmãos ingleses Miriam Elia e Ezra Elia e traduzida para o português por Érico Assis.

Daqueles livretos para puxar da estante e ler numa sentada rápida, entre uma atividade e outra, o diário vale pelas inquietações de Edward, intelectual depressivo que passa a breve vida em permanente conflito com o seu interior e com o limitado mundo ao se redor. Companhias de outros hamsters acabam servindo apenas para tumultuar ainda mais as coisas, colocando no seu leque de preocupações elementos como a ignorância, o amor e a esperança. Triste é encontrar em Edward, um rato, a curiosidade e a insatisfação que parecem faltar em muitos seres humanos por aí.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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