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Ele trabalha para "romper a manutenção do racismo na literatura brasileira"

Rodrigo Casarin

20/11/2019 06h22

Vagner Amaro. Foto de Francisco Jorge.

Conceição Evaristo, Geni Guimarães, Miriam Alves, Salgado Maranhão, Muniz Sodré, Éle Semog, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Carlos Eduardo Pereira, Eliana Alves Cruz, Tom Farias, Mel Duarte… Esses são apenas alguns dos muitos nomes que se destacam na produção literária de autores negros no Brasil de hoje. Eles dão sequência a uma tradição que norteia os rumos da própria história literária brasileira, como aponta o editor Vagner Amaro:

"Gosto de pensar na trajetória dos escritores negros. Esta trajetória não acontece na literatura brasileira, esta trajetória é a literatura brasileira, se iniciando com o negro Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro, com a negra Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, passando pelo negro Paula Brito, importantíssimo editor brasileiro do século 19, passando pelo negro Machado de Assis, maior escritor brasileiro, e tantos outros dos séculos 19, 20 e 21". Mais alguns nomes retumbantes para a lista? Que tal Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus?

Trabalhando como bibliotecário, no entanto, Amaro notou que muitos autores negros, apesar da qualidade de suas produções, não conseguiam encontrar brechas no tal mercado editorial. Apesar de bancarem autopublicações e darem um jeito de encontrar o próprio público em diversos tipos de eventos, seus livros não estavam facilmente disponível a quem quisesse adquiri-los para colocar numa biblioteca, por exemplo, como era o caso de Vagner. Ele, então, reuniu suas economias, juntou-se a um amigo professor e em 2016 criou a Malê, editora focada em livros de temática afro-brasileira.

De lá pra cá, cerca de 60 volumes foram publicados. Neste mês chegam às livrarias títulos como "Firmina", de Bárbara Simões, "Em Silêncios Prescritos: Estudos de Romance de Autoras Negras Brasileiras (1859-2006)", de Fernanda R. Miranda, "Gosto de Amora", de Mário Medeiros, e "República do Vírus", de António Quino. Na entrevista a seguir, Vagner avalia o momento da literatura negra no país, fala sobre o racismo estrutural no qual o mercado editorial está metido e comenta a importância de termos cada vez mais negros produzindo e protagonizando nossa literatura.

"Ter mais escritores negros (bons e ruins), ter mais personagens negros, pode contribuir para a reelaboração deste imaginário social sobre o negro, que afeta todas as atitudes negativas pelas quais os negros são impactados e bloqueia as oportunidades que a população negra poderia ter, e não tem", crê. "Ampliar o conhecimento sobre as tradições literárias africanas é importantíssimo para descolonizar o pensamento, o imaginário, para desvencilhar do pensamento de que tudo que é europeu é bom e tudo que africano é ruim", complementa.

Qual é a importância de termos mais autores negros produzindo literatura brasileira e mais personagens negros protagonizando nossas histórias?

É importante para romper a manutenção do racismo na literatura brasileira. O racismo na literatura se atualiza quando as oportunidades de publicar são menores para escritores negros do que para escritores brancos, se atualiza nas representações estereotipadas que os autores brancos fazem dos personagens negros. Então, aliado a todos os textos e imagens que já desqualificam os negros de diversas formas, também está o texto literário; aliado a todos os apagamentos que são feitos sobre as personalidades negras, está o apagamento dos escritores negros, e nisso também se enquadra o branqueamento pelo qual alguns dos nossos escritores foram vítimas, como Machado de Assis e Maria Firmina dos Reis.

Os textos racistas formam as pessoas. Veja, por exemplo, a paixão que leva sempre a defesas calorosas de Monteiro Lobato, um escritor assumidamente racista e que, mesmo assim, segue recebendo homenagens em eventos literários. Não existe pudor em defendê-lo, e quem o defende não se lê, também, como racista, embora seja. Há uma diferença entre se colocar contra a censura dos livros do Monteiro Lobado e defendê-lo, e negar seu racismo. Muitas pessoas passaram a gostar de ler a partir da obra dele. Existe uma paixão, a paixão que sentimos quando um texto nos toca. Transferimos essa paixão para o autor do texto. É nítido que banir o texto de Lobato, ou qualquer outro texto, seria uma idiotice, mas negar o racismo declarado do autor é uma atitude que revela um descompromisso ético de quem nega. Negar o racismo é uma das mais perversas estratégias para que ele se perpetue.

A formação que o texto literário promove contribui para a elaboração de uma visão de mundo, de um imaginário social, em que características como o padrão, o normal, o bonito, o inteligente, o universal são atribuídas às pessoas brancas e as características negativas às pessoas negras. Ora, como não imaginar que as ideias que vamos formulando durante a vida, a partir destes textos racistas (não apenas os literários), não afetariam a recepção do texto literário? Não afetaria a curadoria dos editores das grandes editoras? Não afetaria os jurados dos prêmios literários? Não aferia a curadoria dos grandes eventos literários? As distribuidoras? Não afetaria até mesmo a vendedora da livraria que podendo indicar ou destacar um livro de um autor negro opta por indicar o de um autor branco? Não afetaria nossa compreensão sobre as relações humanas, sobre o outro, quando este outro é um sujeito negro?

Então, acredito que os impedimentos colocados para os escritores negros, para a publicação e divulgação dos seus textos, faz parte de um mesmo sistema que necessita atualizar constantemente o racismo, muitas vezes a partir da desqualificação dos negros ou dos bloqueios de acesso aos espaços mais disputados, para a manutenção dos privilégios dos brancos. Mas, focando em um dos muitos aspectos possíveis para responder essa pergunta, ter mais escritores negros (bons e ruins), ter mais personagens negros, pode contribuir para a reelaboração deste imaginário social sobre o negro, que afeta todas as atitudes negativas pelas quais os negros são impactados e bloqueia as oportunidades que a população negra poderia ter, e não tem.

Como você avalia esse momento da literatura feita por autores negros no país? Quais conquistas já foram feitas? O que ainda precisa ser conquistado?

Estamos em um momento em que há um aumento de interesse na literatura feita por autores negros. Há também um nítido interesse, também crescente, mais específico, na literatura escrita por autoras negras. Eu acredito que uma das primeiras conquistas foi pautar o debate sobre as desigualdades no mercado editorial brasileiro, e isso ocorreu de forma mais intensa a partir da Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] de 2016, quando estávamos lançando o primeiro livro da Malê: "Histórias de Leves Enganos e Parecenças", da Conceição Evaristo. Alguns escritores que vinham trabalhando de forma muito independente passaram a ter seus livros publicados pela Malê e por algumas outras editoras e isso contribuiu muito para que os leitores encontrassem os seus livros.

Então, os livros estarem mais acessíveis é uma grande conquista, e os autores negros estarem mais presentes nos eventos literários e nos cadernos culturais também é uma grande conquista. Serem citados nas provas do Enem e nos livros didáticos também. Hoje, se há uma característica marcante na literatura feita por autores negros, é a diversidade. Os textos que têm sido publicados trazem uma marca autoral muito definida.

Precisa ainda ser conquistada a compreensão de que a literatura negra brasileira não é uma literatura de nicho, e que as editoras que possuem maior fôlego para investimentos, invistam em escritores negros brasileiros. É interessante como no Brasil a atitude racista se sobrepõe até mesmo ao senso comercial. Não é preciso muito esforço para perceber que o interesse na literatura negra brasileira é grande e que os livros destes escritores possuem potencial comercial. Fica a pergunta. Por que tantos escritores negros continuam sendo ignorados pelo mainstream editorial?

Carolina Maria de Jesus.

Nesse sentido, mas olhando para a Malê, quais foram as grandes frustrações e satisfações nesses três anos e pouco de editora?

Eu estava em uma feira literária no MAR [Museu de Arte do Rio] e uma moça negra veio falar comigo: "Você é o Vagner Amaro? Não é isso?" Disse que sim. Então ela falou: "Muito obrigada pelo seu trabalho, era só isso que eu queria dizer". E saiu.

A minha satisfação está em perceber que o trabalho que eu desenvolvo tem um significado grande para muitas pessoas, principalmente para muitas pessoas negras. Lembro de uma senhora, professora, em São Paulo, que veio conversar comigo, falou da importância do trabalho da Malê e disse enfaticamente: "Não desista!" Outra satisfação é ver alguns dos jovens do Prêmio Malê de Literatura seguindo uma carreira literária. Olhar para estes três anos em que venho publicando e perceber que houve uma ampliação do conhecimento sobre os autores negros é uma grande satisfação.

Algumas frustrações ocorrem quando não há uma compreensão sobre o nível sobrehumano de dedicação para que a editora dê certo. É preciso marcar que a Malê surgiu de investimentos próprios de dois trabalhadores, um bibliotecário e um professor, então seu tamanho, suas medidas, suas possibilidades refletem isso. Quando surgem comparações com editoras que já estavam aqui quando eu nem era nascido, ou era uma criança, ou com empresas familiares que estão no ramo desde a metade do século passado, é bastante cruel. Recentemente ouvi: "Em quinze anos, quantos livros você já publicou?" Não, pessoal, calma, são apenas três anos publicando.

Por conta da opção de formar um catálogo dominado por autores negros, em algum momento você já precisou lidar com gente acusando a editora de "racismo reverso" ou outra bobagem do tipo?

Existe este artifício desonesto de acusar o antirracista de racista, para assim desqualificar a fala que denuncia o racismo. Já fomos acusados diversas vezes e quase sempre que sai uma matéria sobre a Malê, comentários deste tipo aparecem. Já recebemos e-mails nos acusando de racistas. É uma disputa de narrativas.

Se em três anos eu publiquei textos literários de cerca de cem autores, como manter a narrativa de que não existem escritores negros, ou que existem poucos escritores negros? Se os livros da Malê aparecem nas listas de finalistas dos mais importantes prêmios literários, como sustentar a narrativa que os escritores negros não escrevem bem? Ou a narrativa absurda de que a desigualdade social que leva uma parcela da população negra a não concluir o ensino formal levou a não termos escritores negros? Então, a Malê, com a visibilidade que tem, desarticula essas falas de uma total desonestidade intelectual, cria outra compreensão, o que irrita os racistas. Da mesma forma, é bem interessante o argumento 'eu não leio o livro pela cor do autor', como se isso encerrasse a questão. Lendo ou não pela cor do autor, o racismo estrutural afeta o sistema literário, e essa deveria ser uma questão de todos.

O primeiro livro que vocês publicaram foi "Histórias de Leves Enganos e Parecenças", da Conceição Evaristo. Qual a importância da Conceição hoje na nossa cena literária? Mais do que uma escritora, ela se tornou um grande símbolo?

Conceição Evarsito é uma das grandes intelectuais brasileiras. Ela tem uma legitimidade para falar o que fala e refletir sobre o que reflete que pouca gente tem. Ela viveu a pobreza na infância, mas também estudou nas melhores universidades do Brasil como a UFRJ e PUC. Lecionou em escolas públicas. Isso faz com que ela consiga conceber uma visão muito elaborada das relações de opressão na sociedade brasileira, o que reflete na sua obra aliado a um trato literário muito cuidadoso e competente. Foi importantíssimo começar a Malê com a Conceição, aguardamos quase um ano para isso.

Considero também que é um marco para a Malê que o "Histórias de Leves Enganos e Parecenças" tenha sido o primeiro livro da Conceição Evaristo que teve o investimento da editora para ser publicado. Até então, Conceição precisava investir nas suas publicações, autopublicação. Só não fez isso com o livro de contos "Olhos D'água" (Pallas) porque este contou com o apoio de um edital da Biblioteca Nacional. Então, essa estreia da Malê já trouxe uma certa medida de como trabalharíamos, das nossas intenções. Em cada época, os movimentos negros, os movimentos sociais, elegem espontaneamente seus representantes. Conceição Evaristo, sem dúvida, é uma representante de muitas minorias sociais do nosso tempo e a atuação dela na nossa sociedade é muito coerente com este posto em que, mesmo que virtualmente, ela foi colocada.

Conceição Evaristo.

Quão importante é também resgatarmos ou apresentarmos aos brasileiros as tradições literárias da África negra?

No Brasil existe um desconhecimento sobre os países africanos que é constrangedor, um país com a maioria da população formada por homens negros e por mulheres negras, descendentes dos africanos que foram escravizados. É interessante pensarmos que autores dos países africanos mais conhecidos no Brasil são brancos, descendentes dos colonizadores. O que levou a isso, senão as questões que já comentei nesta entrevista?

Nesta última década eu percebo um interesse maior das editoras em publicarem os escritores e as escritoras negras africanas, mas ainda é algo muito tímido. Pela Malê, no nosso pouco tempo de existência, publiquei obras individuais do Alain Mabanckou, da Fatou Diome e do Dany Wambire, e organizei com o Dany a coletânea "Do Índico e do Atlântico", em que publicamos contos de cinco autores moçambicanos que ainda não tinham sido publicados no Brasil e de autores brasileiros que ainda não tinham sido publicados em Moçambique.

Ampliar o conhecimento sobre as tradições literárias africanas é importantíssimo para descolonizar o pensamento, o imaginário, para desvencilhar do pensamento de que tudo que é europeu é bom e tudo que africano é ruim. Precisamos, ainda, de antídotos, contradiscursos, contra todas as concepções que foram criadas para desqualificar os africanos, os negros… Concepções criadas apenas para dominar, explorar, escravizar, manter privilégios… Eu acredito que a literatura pode ser um desses antídotos.

Sabemos que o mercado editorial vive um momento especialmente delicado, principalmente em termos comerciais. Como foi nascer nesse cenário?

A Malê foi fundada já em um momento desfavorável, então foi pensada para caber dentro desta realidade. Hoje o país está com cerca de 13 milhões de desempregados, o livro que já não costuma fazer parte da "cesta básica" do brasileiro, é um dos primeiros itens a deixar de ser comprado. Conseguimos nos beneficiar da demanda que havia para os livros que vinham sendo publicados de forma independente ou estavam já há muito tempo fora de catálogo. Mas, além disso, o mercado precisa buscar outra forma de se estruturar. No caso das editoras pequenas, isso passa por uma relação comercial que garanta uma saúde financeira para estas empresas, pois muitas deixam de existir com dois, três anos, e nisso poderíamos pensar em percentuais diferenciados para consignações com livrarias e distribuidores, por exemplo. A própria consignação também é algo que precisa ser repensado, assim como os prazos.

Qual é o lugar da literatura brasileira no Brasil? Eu fico sempre lembrando de entrevistas de cantores e músicos que no início da década de 1980 "defendiam" a música brasileira. A pauta deles era: "não se toca música brasileira nas rádios, apenas música internacional". Com o tempo essa realidade foi mudando. Então, será que não deveríamos refletir sobre as listas dos livros mais vendidos e tentar compreender o que faz aqueles livros estarem ali? Quais investimentos foram feitos para aqueles livros venderem tanto? Por que não se investe assim nos autores da literatura brasileira contemporânea? Existem trabalhos de formação de leitores para a literatura brasileira que vem sendo produzida a partir dos anos 2000?

Organizei um livro e publiquei pela Malê em 2017: "Olhos de Azeviche". O que afirmo na apresentação dele é que as escritoras negras foram elaborando há muito tempo formas de conquistar leitores. Estando fora das editoras, elas passaram a autopublicar seus livros, organizar e participar de reuniões, coletivos, clubes de leitura, saraus, visitas em colégio, encontros diversos dos movimentos negros… Se empresariar é importante, mas também não podemos deixar de pensar em soluções para o mercado editorial que não signifiquem simplesmente vender para o governo. No Brasil, até a visão do livro como um objeto de consumo ainda é problemática. Persiste a ideia de que o livro é caro, mesmo que ele custe o preço de dois ingressos para o cinema, ou para um jogo de futebol, menos que um DVD… A questão não está no preço, mas em quanto o brasileiro está disposto a pagar por um livro, e até mesmo se está disposto a pagar por um livro.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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