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Fernanda Montenegro: "É a Cultura das Artes que faz uma nação"

Rodrigo Casarin

16/10/2019 08h10

"Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias", de Fernanda Montenegro, é um dos livros mais falados do ano. Já seria somente pela própria importância: um relato autobiográfico de uma das maiores artistas de nossa história, que completa 90 anos exatamente hoje. No entanto, a mancha obscura que emana de Brasília e deixa parte do país sob as trevas tentou ofuscar a imagem da grande estrela. Não conseguiu. Fernanda, com a um discurso crítico, sóbrio e elegante, colocou-se como uma necessária voz em defesa da liberdade, da pluralidade e da arte no Brasil. Assim, a obra ganhou uma projeção ainda maior.

As notícias relacionadas ao livro costumavam focar mais no recente choque político do que nos escritos em si. É uma escolha razoável, mas "Prólogo, Ato, Epílogo" (Companhia das Letras) também merece um olhar atento ao que carrega em suas páginas – preenchidas por letras graúdas, bem maiores do que o habitual em edições brasileiras, talvez acenando para a leitura de um público mais velho. O livro é o resultado de dezoito entrevistas concedidas por Fernanda à jornalista Marta Góes entre julho de 2016 e novembro de 2017. A partir do material recolhido e transcrito por Marta, a atriz estabeleceu suas memórias.

O tom do texto é intimista, como se Fernanda estivesse em nossa frente contando a história. Em alguns momentos, o afeto se sobrepõe à estética e proporciona trechos com certos excessos – "o grande e eterno Millôr Fernandes", por exemplo -, mas fica claro que Fernanda está mais preocupada em reverenciar aqueles que admira do que em seguir qualquer cartilha de escrita. É um escolha tão questionável quanto perdoável, bem como a opção pela muitas vezes modorrenta narrativa linear – antepassados, infância, juventude, inicio da fase adulta… -, que ao menos é favorecida pelo texto ágil e focado no que realmente interessa: a carreira de Fernanda como atriz. Nesse ponto primordial, "Prólogo, Ato, Epílogo" é uma aula sobre o teatro e sobre a história do Brasil no século 20.

Da formação familiar, da infância e do começo da vida profissional, temos um recorte de como muitos imigrantes se viraram por aqui e da vida no interior. Interessada em seguir a carreira de artista, Fernanda precisou lidar com o preconceito que acompanhava – e ainda acompanha – a profissão: "Podia, como eu, ser funcionária pública", chegou a lamentar uma tia, como vocês podem ler num dos trechos abaixo.

Como sabemos, foi no palco que Fernanda vingou, não numa repartição qualquer. Seu nome cresceu enquanto o país se acirrava politicamente, num cenário que guarda significativas semelhanças com o que vemos hoje. Após o golpe militar de 1964, precisou enfrentar a censura e outros elementos de intimidação e repressão da ditadura. Em certo momento, com medo dos ataques do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), seu grupo chegou a pensar em ter um ator armado sobre o palco em cada apresentação. O temor não era infundado, como um atentado à casa onde dormia em 1979 comprovou, em outro episódio que destaco a seguir.

Quem pegar "Prólogo, Ato, Epílogo" esperando por fofocas e bastidores do cinema ou da televisão, lugares onde a atriz também brilhou, irá se decepcionar. Emerge de cada página o amor de Fernanda pelo teatro. Nos palcos que ela se fez e é aos palcos, ao público e aos colegas (inclua-se aqui Fernando Torres, companheiro ao longo de quase toda a vida) que dedica sua atenção. Em diversas oportunidades, às vezes até se utilizando de construções semelhantes demais, a atriz ressalta o quanto é grata por ter conseguido viver, ganhar dinheiro e estabelecer sua família graças à arte.

Devota desta arte, aliás, Fernanda demonstra preocupação com os rumos do teatro no país. "A pergunta que me faço é: chegamos, nos dias de hoje, ao fim de uma era teatral? O que vi – e vivi – se esgotou?" Extrapolando os palcos, também crava que, sem uma cultura ligada à arte, é impossível que nos transformemos em uma nação: "É a Cultura das Artes que faz uma nação. Sem ela, é apenas uma fronteira".

Leia alguns trechos de "Prólogo, Ato, Epílogo":

O nome artístico

"A partir do quinto ano na rádio, comecei a produzir, adaptar a apresentar o programa 'Passeio Literário', com informações gerais sobre literatura, notícias de lançamentos, entrevistas, e adaptações de romances, contos ou novelas para o radioteatro da emissora. Arlette Pinheiro era meu nome de locutora e radioatriz. Como redatora, passei a assinar Fernanda Montenegro – com certo humor. Eu achava que 'Fernanda' tinha um clima de romance do século XIX – existiam muitas Raymondes e Fernandes naquelas histórias. E Montenegro era o nome de quem sempre ouvi falar. Um médico do subúrbio que nos velhos tempos atendeu nossa família durante anos, curando a todos e, segundo (claro) minha avó, milagrosamente. Nos relatos de casa, alguém estava morrendo e o dr. Montenegro chegava, receitava e qualquer doença desaparecia.

Fernanda Montenegro ganhou o lugar de meu nome artístico. Aos poucos, Arlette voltou para o seu fechado universo familiar. Mais um toque esquizofrênico deste meu viver".

Primeiro flerte com a tevê

"Meus pais, tão longe dessa atividade eletrônica, dita artística, que exigia contrato de três anos junto a uma empresa, não permitiram assiná-lo. Eu me vi numa encruzilhada, porque nas décadas de 1940, 1950 a profissão de atriz para uma jovem, dita de família, era insólita, constrangedora, marginal. Como ainda é hoje. A profissão de atriz 'moralmente não é recomendável''.

Meus pais nunca se opuseram à minha escolha em termos desesperados, mas nesse caso a reação, sobretudo a de minha mãe, foi contidamente apavorada. Numa visita, uma prima perguntou se era verdade que eu queria ser atriz. Mamãe responder firme: 'Infelizmente'. Depois de uma pausa consternada, tia Valentina acrescentou: 'É pena. Podia, como eu, ser funcionária pública"'.

"Cristo Proclamado"

"Já sem fôlego financeiro, tiramos o espetáculo de cartaz duas semanas depois [….]. Ficamos entre a cruz e a espada. A direita achava que 'Cristo Proclamado' era coisa de comunista, e a esquerda, nos recriminava por termos interrompido a apresentação de uma peça extraordinária, de cunho social, a qual deveríamos manter em cartaz a qualquer custo".

"O Beijo no Asfalto"

"Estávamos em julho de 1961. A estreia de 'O Beijo no Asfalto' nos deu mais um momento consagrador. Contou com sessões sempre lotadas em que, quase diariamente, houve protestos violentos a favor e contra. Parte do público gritando: 'Tarado!', 'Protesto em nome da família brasileira!', 'Merece cadeia!', 'Pornógrafo', e a outra parte mandando um 'cala a boca' aos berros. Curioso notar que não eram as questões políticas, ideológicas que magnetizavam as pessoas. Jamais alguém chamou o autor [Nelson Rodrigues] de reacionário, traidor da pátria, entreguista. Os protestos sempre foram de cunho moral.

Na hora da gritaria, Nelson, diariamente presente na plateia, ficava quieto. Mas Jofre, seu filho, muito jovem, tinha que ser contido, pois, quando havia manifestação contrária, partia para cima do espectador, pronto para enfrentá-lo. Parávamos o espetáculo. Terminados os protestos, tudo acalmado, recomeçávamos".

Tiro no quarto onde dormia

"Há um fato a ser lembrado sobre a temporada de um ano da peça 'É….' em São Paulo, em 1979.

Fernando e eu nos hospedamos na casa do amigo Celso Nunes, no Alto da Lapa. A janela de nosso quarto, no segundo andar, dava para uma pracinha arborizada. Certa noite, depois do espetáculo e do papo de sempre com o Celso, nós subimos e nos preparamos para dormir. No momento em que deitei e apaguei a luz da mesinha da cabeceira e Fernando sentava na cama, um tiro estilhaçou a vidraça e a bala ficou cravada no teto de madeira do quarto. Ouvimos um carro arrancar em frente à casa. Por milagre, não fomos atingidos. Nossos susto atravessou a noite. Celso é testemunha desse atentado. De manhã, ele e Fernando foram à delegacia dar conta do sucedido. Nada aconteceu. Começamos a receber telefonemas ameaçando me liquidar em cena. Era uma situação-limite. Ou parávamos e voltávamos para o Rio, ou continuávamos com a encenação. Corajosamente e ao mesmo tempo aterrorizados, resolvemos prosseguir – não sei como. Contratamos quatro seguranças, armados, para tê-los na plateia totalmente iluminada a partir daquela noite. Somente ao nosso pequeno e prestigiado elenco falamos o porquê de tal medida. Corajosamente, eles também aguentaram o tranco. Tal situação extremada perdurou por um mês. As ameaças foram cessando. Aos poucos nos acalmamos e completamos um ano em cartaz com a peça, como estava previsto.

Politicamente, sabíamos que era uma retomada da radicalização do governo, com incêndios em bancas de jornal e uma censura mais forte em todo o setor cultural. Apesar de toso os obstáculos, aquela geração de atores e encenadores contou, quase sempre com público suficiente para honrar a nossa arte – fosse esta contestadora ou não. E ainda ganhava com ela o pão de cada dia".

Fernando

"Aos 81 anos, já extremamente debilitado, Fernando às vezes perguntava: 'Nós não vamos para o teatro?'. Eu explicava: 'Não, Fernando, hoje não temos teatro'. Ele estranhava. Outra pergunta: 'Não vamos ensaiar?'. Diante da resposta, ele se calava. Fora esses momentos de 'viagem', seu raciocínio seguia orgânico. Coeso.

No sábado que precedeu sua morte, ele pegou o texto de 'É…' – sempre esse texto do nosso amigo, o grande e eterno Millôr Fernandes – e me chamou: 'Vamos ensaiar?'. Nós nos sentamos à mesa e ele leu o título, o nome do autor. Leu a descrição do cenário. Percebeu que aí começava o diálogo. Olhou para os lados – e não havia elenco em torno daquela mesa. Estávamos só eu e ele. Voltou a si".

"É a Cultura das Artes que faz uma nação"

"A temporada no complexo dos CEUs [em São Paulo], com muita surpresa, me mostrou um sólido e consequente organismo de atendimento educacional, social, cultural, inclusive com teatros padronizados, bem cuidados. Já faz anos que por ali passei.

Aliás, por que não seguir com projetos semelhantes em todo o país? Por que nenhum governo cumpre sequer um décimo do que promete, como no caso da cultura, sempre tida, estupidamente, como uma inutilidade, uma frescura? Refiro-me à Cultura das Artes. É a Cultura das Artes que faz uma nação. Sem ela, é apenas uma fronteira. São perguntas eternas, eu sei. E, com meus tantos anos de vida, continuo a fazê-las".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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