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Poliana: a rainha de soluções toscas que faria sucesso no Brasil medieval

Rodrigo Casarin

17/09/2019 07h37

Imagem: Daniel Beltrá/Greenpeace.

Herdeira de um reinado milenar na África, a rainha Poliana era a responsável por manter uma curiosa tradição para que catástrofes fossem evitadas em suas terras. Em uma montanha exatamente entre as duas principais cidades do reino, um gigantesco incêndio devorava o bosque e colocava em risco todas as aldeias próximas. As chamas não vinham de um acidente ou de algum acaso. Aquele era o método usado para, supostamente, evitar que grandes queimadas assolassem o território.

"Tinham-no acendido na crença de que, havendo um incêndio de semelhantes proporções em um ponto do reino, seria estatisticamente improvável que outro estourasse em outro ponto. Para que não fosse um mero simulacro, que não teria enganando a estatística, havia debandadas de animais fugindo apavorados do fogo e aldeões desesperados tratando de salvar seus pertences, além das brigadas de voluntários fazendo um patético e infrutífero esforço para apagá-lo. O espetáculo era imponente, as chamas lançavam línguas vermelhas que espantavam as nuvens, a fumaça girava em torvelinhos negros que dançavam como fantasmas colossais".

Mística semelhante era usada para se prevenir de outros flagelos naturais. Tentando driblar as inundações, por exemplo, antecipavam-se e provocavam enxurradas altas e destrutivas. Difícil conhecer as soluções toscas de Poliana e seus predecessores e não lembrar que indigências são comuns também em nossa política. Protestos durante a Copa? Bota na lei que são terroristas e já era. Pindaíba econômica? Basta aprovar a reforma trabalhista que tudo melhora. Criminalidade? Mata os bandidos que as coisas se acertam. Direitos humanos? Só se for pra humanos direitos. Devastação da Amazônia? Acaba com as ONGs e boa. Todas soluções tão medonhas quanto acreditar que colocar fogo num pedaço do país é suficiente para que nenhuma outra área seja tomada pelas chamas.

Só que nossa mediocridade é palpável, enquanto Poliana é uma personagem fictícia. A rainha está em "O Santo", romance do argentino César Aira lançado por aqui há algumas semanas pela Rocco. Conhecem o Aira? O cara nasceu em 1949 e talvez seja a maior máquina de escrever deste planeta. Já publicou cerca de 100 livros e, coisa rara, consegue aliar o trabalho bastante prolífico ao rigor formal. Costuma ser elogiado pelos críticos e, pelo menos segundos as bolsas de apostas, é o escritor sul-americano com mais chances de levar o Nobel de Literatura num futuro próximo.

A história de "O Santo" é bastante atraente: um velho monge tido como santo precisa fugir da cidade onde vive, na costa da Catalunha, para que consiga realizar seus desejos antes que a morte lhe alcance. De cara, a fuga se transforma numa presepada. O santo protagonista é feito de escravo e, na sequência, é impulsionado para uma peregrinação ao interior da África, numa viagem em que se confronta com realidades e situações distantes da bolha de outrora.

Tudo se passa no final da Idade Média e a narrativa é tão morosa quanto uma viagem feita naquele tempo. Apesar de breve, é daqueles livros que exigem boa dose de dedicação do leitor, que precisa estar permanentemente atento para não perder boas reflexões e o próprio encadeamento da história, além de encontros como o com Poliana, que, com soluções simplistas para problemas enormes, certamente faria sucesso também em nossa própria era medieval.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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