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O garoto judeu que foi como voluntário a Auschwitz para acompanhar seu pai

Rodrigo Casarin

12/09/2019 10h03

Gustav é o de bigodinho. Fritz, o rapaz de pé no centro da foto.

"Tenho muito medo do futuro. Um dos objetivos ao escrever o livro foi mostrar como refugiados judeus nas décadas de 1930 e 1940 eram vistos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos [nações como Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá aviltaram e negaram abrigo a muitos judeus que clamavam por socorro durante a ascensão nazista]. As terríveis coisas ditas sobre eles (que supostamente não se integram, que eram preguiçosos, um fardo para o país que os receberia, uma ameaça à cultura desse país….) eram idênticas ao que é dito sobre refugiados e imigrantes atualmente. Temos nacionalistas brancos, temos demagogos de extrema-direita no poder de vários países, e temos também refugiados se afogando no mar. Os Estados Unidos têm um campo de concentração para imigrantes. Eu acredito que o mundo pode facilmente repetir os horrores dos anos 1930 e 1940".

Quem diz isso em entrevista ao Página Cinco é Jeremy Dronfield, escritor britânico que se aventura tanto pela ficção quanto pela não ficção. Ele está lançando no Brasil, pela Objetiva, "O Garoto que Seguiu o Pai Para Auschwitz". É tendo a ascensão do nazismo e as barbáries dos campos de concentração, trabalhos forçados e execuções em mente que ele faz o alerta sobre a situação do mundo hoje, com o fortalecimento da extrema-direita, a fragilização da democracia e o crescente desprezo pelos direitos humanos. Sim, o livro de Dronfield é mais uma história sobre os horrores do nazismo. Mas sim, é também mais uma história impressionante sobre os horrores do nazismo, esta focada na relação de amor de um filho pelo seu pai.

Em muitos pontos a narrativa se assemelha a tantas outras. A família Kleinmann – o pai Gustav, a mãe Tini e os filhos Fritz, Edith, Herta e Kurt – tocavam a vida numa boa em Viena, capital da Áustria. Após Adolf Hitler e seus capangas invadirem o país, as coisas começaram a mudar. Antes mesmo de oficiais nazis aparecerem para destroçar a família, os próprios vizinhos se inspiraram nos discursos contra os judeus e começaram a acachapar os Kleinmann. Sentido-se fortalecidos pela estupidez que emanava de quem estava no poder, ameaçavam e humilhavam publicamente aqueles que até outrora eram tratados amistosamente.

Na visão de Dronfield, conforme o autor já apontou em outras ocasiões, é um erro achar que o holocausto se iniciou com prisões e deportações para campos macabros; começou, na verdade, com parte da sociedade negando a humanidade de outras pessoas, hostilizando aqueles vistos como diferentes – judeus, ciganos, homossexuais… –, pregando e praticando a intolerância contra minorias políticas. Voltando à história dos Kleinmann, o próximo passo da perseguição vocês já presumiram: campos de concentração e extermínio. Na obra, o escritor narra o destino de todos os membros da família, mas aqui foquemos no que se passou com Gustav e Fritz, os dois personagens principais.

Primeiro destino: Buchenwald. Por lá, a praxe contra os judeus ao longo do holocausto: trabalhos extenuantes, privações severas, condições insalubres, torturas, pouca comida… Pai e filho acabavam, de alguma forma, apoiando um ao outro na luta pela sobrevida. Quando Gustav, com aproximadamente 50 anos, descobriu que seria transferido para Auschwitz, Fritz, prestes a fazer 18, se preocupou. Não queria ficar separado de seu pai. Cometeu, então, o que muitos consideraram um ato de loucura: pediu para também ser encaminhado a Auschwitz, lugar visto como um sinônimo de morte certa.

Transformando o resto da história em um parágrafo, Gustav e Fritz realmente foram juntos para Auschwitz, mas não permaneceram próximos ao longo de toda a Segunda Guerra. Passaram ainda pelos campos de Mauthausen, Mittlebau-Dora e Bergen-Belsen e em alguns momentos seus destinos ganharam rumos forçosamente distintos. Bons de trabalho e com um raro suporte afetivo familiar ao longo de parte considerável do absurdo ao qual foram submetidos, sobreviveram. Após o fim da guerra, retornaram para Viena, onde residiriam até o final de suas vidas.

Para reconstruir a história dos Kleinmann com foco no que Fritz e seu pai suportaram, Dronfield contou com um objeto raro: os diários que Gustav escreveu entre outubro de 1939 e julho de 1945, registrando passagens, sensações, aflições e desabafos do período em que resistiu aos campos de extermínio. Com isso em mãos, apostou ainda em entrevistas, documentos e fontes como o livro de memórias escrito por Fritz para construir a narrativa de "O Garoto que Seguiu o Pai Para Auschwitz".

Na entrevista a seguir, o autor fala sobre como foi trabalhar com os diários de Gustav e reconstruir essa história:

Como foi reconstruir a história do Gustav e do Fritz a partir dos diários do Gustav?

É complicado trabalhar com esses diários. Eles foram escritos como uma maneira do Gustav preservar sua própria sanidade, nunca com a intenção de que fossem lidos; portanto, a escrita é muito superficial, com referências enigmáticas a passagens, incidentes e também a outras pessoas. Algumas vezes precisei recorrer a muitas outras fontes para esclarecer o que Gustav queria dizer. E quanto mais eu entendia, mais extraordinária ficava a história.
O que ajudou foi o pequeno livro de memórias que Fritz escreveu. Também o entrevistei diversas vezes ao longo da vida. Seu relato iluminou muitos pontos do diário de Gustav, especialmente naquele momento-chave da história: o que levou Fritz a se voluntariar para acompanhar o pai a Auschwitz.

Quais são os elementos mais importantes presentes no diário do Gustav?

Pouquíssimos diários sobreviveram aos campos de concentração. Há duas coisas muito incomuns nos diários do Gustav. Uma é que ele sobreviveu e seus registros cobrem o que aconteceu durante sua libertação e as consequências disso (muitos diários sobre o Holocausto foram escritos por pessoas que acabaram tragicamente mortas). O segundo ponto incomum é o período que o diário cobre. Começa em 2 de outubro de 1939, o dia em que Gustav e Fritz chegaram no campo de Buchenwald, e termina no verão de 1945, quando Gustav regressava a Viena após o fim da guerra.

Outro elemento muito importante encontrado nos diários é o poema "O Caleidoscópio da Pedreira". Embora a maior parte do diário seja muito breve e obscura, ele também inclui um poema que Gustav escreveu sobre as condições na pedreira de Buchenwald, onde ele e Fritz trabalhavam. A pedreira era um campo de extermínio, onde os prisioneiros eram rotineiramente torturados e assassinados pelos guardas da SS. Gustav descreve o lugar de maneira muito sugestiva em seu poema lindamente escrito.

Emocionalmente, quais foram os momentos mais difíceis do trabalho?

Foi lidar com o horror. Foi escrever a história da Tini, esposa do Gustav, e de Herta, segunda filha do casal, que foram brutalmente assassinadas pela SS em 1942, junto com outras centenas de crianças, mulheres e homens judeus. Temos cartas escritas por Tini para seu filhinho Kurt, em 1941, cheias de amor, mas também de temor pelo que aconteceria com as crianças. Mesmo agora, é difícil falar sobre isso. Mencionar essa história traz lágrimas aos meus olhos.

É possível traçar algum paralelo entre os diários do Gustav e outro diário bastante famoso sobre a Segunda Guerra, o de Anne Frank?

Provavelmente, a maior diferença entre esses diários é a maneira como foram escritos. Enquanto o diário de Anne Frank tem méritos para ser lido como obra literária, o de Gustav é obscuro, com uma escrita difícil. Essa foi a principal razão para que eu decidisse escrever meu livro: para que a incrível história do Gustav estivesse acessível aos leitores em geral. Outra grande diferença é a emocional. Apesar dos horrores descritos no diário de Gustav, você sabe que ele acaba com sua sobrevivência e com a sobrevivência do Fritz. O diário de Anne Frank é mais trágico de se ler, assombrado por sabermos que ele acaba abruptamente, pouco antes da morte dela.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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