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Maria Ribeiro para Mario Sergio Cortella: “Feminista, é isso que eu sou”

Rodrigo Casarin

16/08/2019 10h25

No dia 30 deste mês começa a 19ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio, que vai até o dia 8 de setembro e pretende atrair mais de 600 mil visitantes ao Riocentro. Organizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela GL exhibitions, o evento reunirá mais de 300 autores nacionais e internacionais em sessões de autógrafos, espetáculos, palestras e debates que passarão por temas como fake news, meio ambiente, escravidão, democracia e feminismo – toda programação pode ser vista aqui.

A pedido da organização da Bienal, alguns dos convidados mandaram perguntas a colegas que também estarão no evento. Akapoeta, autor de "Coração-Granada" (Paralela), direcionou perguntas ao youtuber Guilherme Pintto, que assina "O Óbvio Também Precisa Ser Dito" (Outro Planeta). Pintto, por sua vez, enviou questões para a poeta, psicanalista e filósofa Viviane Mosé, autora de "Nietzsche Hoje: Sobre os Desafios da Vida Contemporânea" (Vozes Nobilis).

O papo de Pintto com Viviane já está no site da Bienal, que disponibilizou ao Página Cinco uma das entrevistas mais instigantes: a do filósofo Mario Sergio Cortella, de "A Sorte Segue a Coragem" (Planeta), com a atriz Maria Ribeiro, autora de "Trinta e Oito e Meio" (Língua Geral) e "Tudo o Que Eu Sempre Quis Dizer, Mas Só Consegui Escrevendo" (Planeta). Em suas perguntas, Cortella inquiriu Maria sobre afetos, desafetos, indiferenças, autoria versus interpretação e, recordando Pedro Nava, memória. Também passou por dois assuntos em alta no momento: militância e feminismo.

Cortella: No teu "Tudo o Que Eu Sempre Quis Dizer, Mas Só Consegui Escrevendo" há ótimas sessões contínuas de "nexo explícito"; por que Maria tinha de amarrar tantas pontas soltas de afetos, desafetos e indiferenças?

Maria: A literatura, pra mim, sempre foi meio terapêutica. Me lembro, desde garota, da alegria de perceber o quanto escrever sobre as coisas colocava em perspectiva acontecimentos que me pareciam difíceis de processar. Acho que o "Tudo o Que Eu Sempre Quis Dizer, Mas Só Consegui Escrevendo" é isso levado às últimas consequências, fazendo declarações que ao vivo talvez não fossem possíveis.

Cortella: Como a dimensão autoral de Maria, que gera a partir de si, lida com a dimensão atriz de Maria, que interpreta a gestação de outra autoria? Há fronteiras entre ambas?

Maria: Acho que tanto a atriz como a escritora – ainda acho difícil escrever escritora – vem da mesma vontade de contar histórias, de conhecer gente, de entender mais sobre essa viagem aqui. Como atriz sofro menos, e, por incrível que pareça, me sinto bem menos exposta.

Cortella: Bradam alguns: feminina ou feminista? Maria, relembrando Guimarães Rosa, encontra a terceira margem do rio, ou não precisa?

Maria: Tenho dificuldade de entrar em ondas porque sempre acho que a maioria tende a linchamentos justamente pelo sentimento de grupo, mas essa primavera feminista tá linda. Feminista, é isso que eu sou. Algum exagero faz parte, o que importa é que o saldo é muito positivo e salva vidas.

Cortella: Pedro Nava bem advertia: "Eu não tenho ódio; eu tenho é memória" E Maria?

Maria: A gente nunca sai da velha casa onde nasceu, já dizia [Mario] Quintana. Olho pra frente ressignificando o passado. Tenho cada vez menos ódio, embora, assim como Nava, não esqueça de alguns golpes.

Cortella: Literatura é militância? Deve sê-lo? Maria o é?

Maria: Acho que literatura é militância na medida em que toda existência é politica. Atualmente tenho achado muito difícil não falar do Brasil, embora não seja algo que eu faça de propósito. Podemos militar por várias causas: amor, natureza, espiritualidade… Você, por exemplo, é um militante ferrenho, na minha opinião. E me ajuda a viver. Mas acho que não tem uma única literatura. Ainda bem…

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.