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Ambicioso e agressivo: livro reconstrói história de Bolsonaro no quartel

Rodrigo Casarin

13/08/2019 08h55

Segundo um coronel, em registro feito em 1983, Jair Bolsonaro já tinha uma década de carreira no Exército quando "deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de 'garimpo de ouro'". Num relatório, o superior afirmava que o subalterno precisava "ser colocado em funções que [exigissem] esforço e dedicação, a fim de orientar sua carreira". O hoje presidente da República dava demonstrações de "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente".

Mais tarde, ao recordar da desilusão de Bolsonaro com o garimpo, esse mesmo superior afirmou que o comportamento do então tenente de 28 anos era "reflexo de sua imaturidade e exteriorização de ambições pessoais, baseadas em irrealidades, aspirações distanciadas do alcance daqueles que pretendem progredir na carreira pelo trabalho e dedicação". Apesar de reconhecer que o atual presidente se saía bem em algumas funções, afirmou que "na rotina de trabalho cotidiano, no exercício permanente das funções de instrutor, formador de soldados e de comandante, faltavam-lhe a iniciativa e a criatividade".

Esse delinear da figura de Bolsonaro no Exército está em "O Cadete e o Capitão – A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel", livro-reportagem do jornalista Luiz Maklouf Carvalho que acaba de ser publicado pela Todavia. Ainda sobre o olhar desse, na ocasião, superior de Bolsonaro, lemos que o então tenente "tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos", sendo um comandado que se sentia atraído por uma "confusa mescla de ambições, aspirações e valores menores".

O coronel Carlos Alberto Pellegrino foi o responsável por disparar essas palavras contra o seu subordinado. Ter acesso a informações antigas e ver como elas, de alguma forma, dialogam com a postural do atual presidente é uma das principais atrações da obra escrita por Maklouf Carvalho, também autor de títulos como "Mulheres que Foram à Luta Armada" (Globo) e "Já Vi Esse Filme: Reportagens e Polêmicas Sobre Lula e o PT" (Geração Editorial). Com foco na carreira militar de Bolsonaro, o livro pode ser dividido em duas partes: o ingresso e a razoável ascensão do "Cavalão", como fora apelidado, no Exército e as atitudes que o levaram ao julgamento que acabou por lhe catapultar da caserna em direção à política.

Maklouf Carvalho vai bem ao resgatar muitos registros do Superior Tribunal Militar (STM) e ao olhar criticamente para a mitificação que Flávio Bolsonaro fez de seu pai no livro "Jair Messias Bolsonaro: Mito ou Verdade", publicado em 2017 pela Altadena. Ao longo de "O Cadete e o Capitão", fica claro como os bolsonaristas trabalharam para reconstruir ou ressignificar diversos pontos da vida do outrora Cavalão conforme este avançava na carreira pública. Um exemplo desse processo:

Diz a mítica bolsonarista que, em 1985, Bolsonaro teria fraturado os dois tornozelos e os dois braços, além de ter ficado internado numa ala do hospital destinada a soropositivos, após sofrer um acidente ao saltar com paraquedas. Essa versão da história é diferente da versão contada por Deusdeth Gomes do Nascimento, ortopedista e traumatologista que atendeu e operou Bolsonaro. Em entrevista a Maklouf Carvalho, o médico afirma que o hoje político realmente estava com os tornozelos arrebentados, "no entanto, não houve fratura nos braços nem internação na ala dos soropositivos".

Aliás, faria bem ao livro se tivéssemos mais entrevistas com gente que, como Deusdeth, conviveu ou esteve em algum momento próximo de Bolsonaro naquela época – muitos se recusaram a falar, conta o autor na introdução. Os mexericos, aquelas histórias aparentemente banais, mas cheias de simbolismo, trariam um tempero que faltou ao trabalho de Maklouf Carvalho, que se apoia primordialmente em documentos e reportagens publicadas em revistas e jornais.

Por falar nisso, na segunda parte, onde está o coração do livro, acompanhamos as rusgas de Bolsonaro graças à imprensa e com a imprensa. Sua situação começa a ficar complicada perante os superiores quando publica, em 1986, um artigo na revista Veja reclamando da remuneração dos soldados. A coisa se agravaria tempos depois, quando a própria Veja, em reportagem de Cassia Maria Vieira Rodrigue, revelou que Bolsonaro planejava, junto com alguns comparsas, estourar bombas em locais estratégicos do Rio de Janeiro caso o soldo não fosse revisto.

É do nebuloso processo instaurado a partir da denúncia que surge outro daqueles momentos que parecem refletir o Bolsonaro de hoje em um antigo espelho. Uma reportagem do Jornal do Brasil relata que, ao ser inquirida como testemunha do caso que revelara, Cassia estava numa antessala do Exército, aguardando para prestar depoimento, quando teria sido ameaçada pelo atual presidente. "O capitão Bolsonaro, de outra sala, através de um vidro, fez um gesto com a mão imitando um revólver, como se estivesse disparando contra a jornalista. Ela, então, lhe perguntou se era uma ameaça de morte. O capitão respondeu que não, mas que ela 'poderia se dar mal' se continuasse com essa história", lemos. A matéria é de 29 de dezembro de 1987.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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