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Martinho da Vila quer Lula como exemplo e diz: não faço crítica, faço arte

Rodrigo Casarin

09/08/2019 10h34

2018 foi um ano diferente. Foi o ano em que Martinho da Vila completou 80 anos. Ele ri ao brincar com o que considera uma das maiores novidades do ano passado, quando, ainda em janeiro, resolveu que registraria em crônicas um ano que prometia ser afetivamente e profissionalmente agitado. A ideia vingou, tanto que virou o livro "2018 – Crônicas de um Ano Atípico", publicado pela Kapulana.

Como sabemos, 2018, no entanto, nos reservava particularidades muito mais sérias do que as oito décadas de vida do escritor famoso principalmente pela sua carreira como compositor e intérprete. "A criação começa de um jeito e acaba tomando outro caminho. Foi mesmo um ano diferente", comenta no papo que tivemos no final da tarde desta quinta, pouco antes de sua mesa na Flipelô, a Festa Literária Internacional do Pelourinho, que neste ano chega à terceira edição – veja a programação aqui.

Se a ideia de Martinho era falar sobre shows, pescarias frustradas e amenidades cotidianas, logo estava vendo as manchetes de jornais e invariavelmente escrevendo sobre política. Estão no livro a dor com a morte de Marielle Franco, a indignação com a prisão de Lula, a incredulidade com a ascensão de Jair Bolsonaro, o horror ao ver os direitos humanos sendo colocados na berlinda, achincalhados…

Em "Um Grande Sonho", por exemplo, crônica que fecha o mês de outubro – marcado pela eleição do nosso atual presidente –, Martinho elenca uma série de despautérios disparados por Bolsonaro sobre temas como estupro e prostituição e contra negros – "afrodescendente mais leve lá [num quilombo] pesava sete arrobas" – e, dentre outros, LGBTs – "se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater". O texto é finalizado com o autor evocando Lula: "O ex-Presidente vai ser uma peça importante no Governo Bolsonaro, sem ocupar nenhum Ministério. Com o Lula em liberdade a nossa Democracia restituirá o conceito internacional, os brasileiros vão se unir e voltarão a sorrir como nos primeiros 15 anos deste século. É um sonho".

Reconhecido pela alegria, pela voz mansa e pelo sorriso fácil, o autor considera que entre 2000 e 2010 foi a época em que viu o brasileiro mais feliz. "Foi muito legal. O Brasil se projetou no mundo, tínhamos um prestígio internacional muito grande. Tinha muita festa, alegria… Isso mudou muito, principalmente no Rio de Janeiro. Hoje às 23h30, meia-noite, já está tudo fechado, tem um monte de gente morando na rua, o centro parece o 'Walking Dead'", diz na entrevista.

O sonho de Martinho, no entanto, já é diferente daquele que registrou na crônica de outubro do ano passado. O que gostaria, agora, é de ver Lula com a dignidade restituída e servindo como exemplo, mas longe da política. "Hoje penso o contrário. Gostaria de ver o Lula solto, claro, ele é um preso político. Mas gostaria de vê-lo fora da política, como uma referência. Se ele se afastasse da política, quem bate nele por discordar politicamente passaria a encará-lo de outra forma".

Apesar de ter um escrito um livro fortemente marcado pelas suas impressões relacionadas à política, não é fácil conversar com Martinho sobre o tema. Ele enviesa, desliza, apalpa as questões e personagens, mas não aperta. Sorri, desconversa… Em determinando momento, pede: "papo chato, vamos mudar de assunto". Antes disso, tinha se esquivado de perguntas sobre Bolsonaro:

"Não sou um crítico. Sou um cara que cria, que faz, não julgo. Temos que ter esperança sempre. Sou um cara otimista. As mudanças sempre foram feitas pelos otimistas. O pessimista não faz nada. É o otimista que corre atrás". Em outro momento, ao comentar sambas de enredo politizados (como o da Mangueira deste ano, sobre personagens esquecidos pela história oficial) e ser perguntado se poderia fazer algo do tipo em sua Vila Isabel, contorna: "não faço crítica, faço arte".

Viajei para Salvador a convite da Flipelô.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.