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Blog Página Cinco

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Dicas para ir além de carne, malbec e livraria El Ateneo em Buenos Aires

Rodrigo Casarin

02/08/2019 10h19

"La Vuelta del Malón", de Ángel Della Valle

Instalada em um luxuoso teatro construído em 1919, a El Ateneo Grand Splendid vira e mexe encabeça listas de livrarias mais bonitas do mundo (ou pelo menos aparece no pódio). Apesar de viver apinhada de turistas e de ter encheção de saco de seguranças que se espalham por todos os cantos, é mesmo bela essa loja e vale a visita. No entanto, não a considero sequer a livraria mais bonita de Buenos Aires.

Estima-se que haja mais comércios do tipo na capital argentina do que em todo o Brasil – a quantidade de pessoas lendo nos espaços públicos, especialmente no metrô, dão uma ideia do quanto os caras curtem uma boa leitura. Caminhando pelas ruas, normalmente poucos quarteirões separam uma loja de livros de outra. Então, se estiver por lá, vá na Ateneo Grand Splendid e cheque por conta própria se ela é mesmo todo esse deslumbre ou se há algo de cafona em sua estética exageradamente luxuosa, mas também dê uma chance para outras livrarias.

Recentemente visitei diversos desses endereços e a mais bela que encontrei foi a pequena e simpática Libros del Pasaje, com suas altíssimas estantes de madeira e uma arquitetura bem mais sóbria, mas também muito mais acolhedora e aconchegante – diria que tem muito mais cara de livraria mesmo – do que a Ateneo Grand Splendid. Não cheguei a visitar a Eterna Cadencia, que fica perto da Libros del Pasaje, mas me parece ser um lugar que vale a pernada. Ali pelos lados de Palermo, a Librería del Fondo y Centro Cultural Arnaldo Orfila Reynal também merece uma atenção, ainda que seja menos charmosa.

Do mais, é caminhar por Buenos Aires e parar para dar uma olhada nas vitrines e em algumas prateleiras de toda livraria que encontrar pelo caminho. Sempre há a chance de se deparar com alguma surpresa ou conhecer um novo autor. Vieram na mala dois achados sobre futebol: "Esperándolo a Tito", do Eduardo Sacheri, e "Todo Por La Patria", do Martín Caparrós, além de uma escritora que eu não conhecia: Laura Alcoba. Um livreiro me indicou sua obra, dei uma olhada no texto, gostei e levei "La Casa de Los Conejos" para o hotel. Um acerto. É o primeiro volume de uma trilogia na qual a autora repassa a infância junto a um braço dos Montoneros, grupo que combateu e foi perseguido pelos militares durante a ditadura argentina. Fica a sugestão para que alguma editora a traduza para o português.

Inevitável e adorável clichê. Crédito da foto: Chica.

Sei que este é um blog de livros, mas vou aproveitar para deixar mais alguns pitacos sobre a cidade, quem sabe tenha alguma serventia para quem esteja planejando uma viagem para lá.

Sabe a famosa feirinha de antiguidades que acontece aos domingos em San Telmo? Então… É cilada! O bairro vira um inferno intransitável. Faz questão de ver antiguidades? Vá ao grande Mercado de Pulgas em Colegiales e aproveite para conhecer um canto que não costuma ser explorado por turistas.

Deixe San Telmo para qualquer outro dia da semana e, quando for, aproveite para tirar a clássica foto com a Mafalda, conhecer a história e visitar parte da Buenos Aires subterrânea no El Zanjón, aproveitar as exposições do MACBA – Museu de Arte Contemporânea – e do Mamba – Museu de Arte Moderna – e conseguir caminhar pelas ruas do bairro sem parecer que está no meio de uma micareta – até É o Tchan! eu ouvi num domingo por lá, é sério. E o restaurante El Desnivel, indicado por muitos brasileiros, me pareceu outra cilada – o encontrei mais sujo e emporcalhado do que botecos de terminal de ônibus que costumo frequentar; não deu para encarar.

Mais sobre museu: vá sim ao Malba – Museu de Arte Latinoamericano –, tire sua selfie com uma Frida Kahlo, veja Diego Riviera, encontre o "Abaporu", da Tarsila do Amaral, se ele já tiver retornado pra lá e guarde uma atenção especial para "Manifestación", de Antonio Berni, o meu quadro preferido do lugar. Mas não deixe de ir em um outro que está relativamente perto do Malba: o Museu de Belas Artes, que conta com um acervo espetacular: Van Gogh, Monet, Renoir, Goya… E importantes pintores argentinos que impressionam, como Candido Lopez, com suas leituras da Guerra do Paraguai, e Ángel Della Valle, do impactante "La Vuelta del Malón", que abre este post. Já na beirada de Puerto Madero, o Centro Cultural Néstor Kirchner é um reduto de bom gosto e vasta programação cultural ladeado por grandes e feios prédios com fachadas envidraçadas.

"Manifestación", de Antonio Berni.

À mesa, não se limite à famosa carne argentina. A pizza do Güerrin é realmente um espetáculo (pelo menos a toscana deles é, com uma calabresa excelente). A fugazzeta do El Cuartito mostra como eles manjam da mistura de mussarela com queijo (e de como o serviço é ocasionalmente caótico). A milanesa dos caras é mesmo única (curti muito a do El Club de la Milanesa). Não vai comer churrasco, então? Também não precisa exagerar. O atualmente badalado Don Julio é digno e vale a visita, apesar de carinho (dê um jeito de entrar na invejável adega subterrânea). Pelas parrillas, não fique só no vácio, no ojo de bife, no ancho ou no bife de tira, aproveite para conhecer cortes que raramente encontramos no Brasil, como a mollejita (e deixe para saber o que exatamente é isso só depois de comê-la).

No copo, estão mandando bem em porters, stouts e apas. Não se encontra sours, imperiais qualquer coisa e cervejas maturadas em madeira com a mesma facilidade que temos encontrado em bairros centrais aqui de São Paulo e de outras grandes cidades brasileiras. Vale tomar uma pilsen genérica no quase centenário El Banderín, bar forrado de referências futebolísticas, comer um dos gostosos sanduíches que eles servem e depois dar uma pernada por Almagro, outro bairro não tão turístico assim. Se você der sorte, dependendo do horário, poderá conhecer o El Boliche de Roberto, que fica pelas redondezas, me foi indicado por algumas pessoas, mas que estava fechado quando tentei visitá-lo. Um drink? Longe dali, na Recoleta, a Floreria Atlantico, que abriga um bar pretensamente secreto em seu subsolo, é mesmo bem charmosa, vale uma passada.

Vinhos, enfim. Beba os famosos e muitas vezes ótimos malbecs, mas também comprove como eles estão mandando bem com pinot noirs da Patagônia e com cabernet francs. Surpreenda-se apostando em garrafas de uvas nem tão comuns assim em terras hermanas (gostei de conhecer tannats argentinos e me arrependo de não ter virado algumas taças de petit verdots). Tenha olhos para além dos Catenas, Boscas e Enemigos da vida. São marcas ótimas e bem mais em conta por lá, mas que achamos com facilidade no Brasil – e no free shop de Ezeiza, o que permite entuchar outros rótulos na mala despachada e trazer até seis desses em mãos. Recomendo fortemente que procure por produções das incontáveis vinícolas que raramente encontramos por aqui. Caçando vinhos de produtores que fujam do óbvio, encontrei bons preços e fui muito bem recebido na BonVino e na EnoGarage Barrio Norte, ambas próximas à Plaza San Martín.

Dizem que o táxi é barato, que o Uber é ainda mais em conta, mas dá pra andar de metrô por parte considerável da cidade numa boa – e pagando menos de R$2,00 a passagem. E use muito as pernas, claro, caminhar é sempre a melhor maneira de conhecer qualquer lugar (e, no caso, encontrar belas esculturas em cantos inesperados de toda Buenos Aires).

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.