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Rojão na Flip, censura em Jaraguá do Sul: fingiremos que está tudo bem?

Rodrigo Casarin

16/07/2019 19h27

Hoje a Folha publicou um ótimo artigo do professor Renato Janine Ribeiro, filósofo, cientista político e ex-ministro da Educação, sobre o que rolou na Flip há poucos dias. Para quem não sabe, em meio ao principal evento literário do país, manifestantes que apoiam o presidente Bolsonaro e o ministro Sérgio Moro fizeram de tudo para que a voz de Glenn Greenwald não pudesse ser ouvida durante a mesa onde ele esteve na Flipei – a Festa Literária das Editoras Independentes. Glenn é jornalista e editor do The Intercept Brasil, responsável por revelar a promíscua relação do então juiz Moro com procuradores da Lava Jato. No cardápio dos raivosos de Paraty, hino nacional remixado com funk tocado no talo e rojões. Estes começaram sendo atirados para o alto, mas em pouco tempo passaram a mirar o barco onde estava Glenn e, consequentemente, toda a multidão que queria escutá-lo. Como qualquer ser racional sabe, rojões soltam bombas, que jamais devem ser atiradas na direção de pessoas. A distância entre as margens do rio Perequê-Açu, que separava os agressores da plateia, impediu a tragédia.

No artigo, Renato aponta o que rolou na Flip como um exemplo claro do fascismo em nosso país. Se outrora ele estava em ascensão, como indiquei algumas vezes aqui (eis um exemplo), agora ele parece já caminhar pelas ruas com a barba feita, olhar confiante e rojão em punho para soltar em cima daqueles que deseja silenciar. "Essa violência é usada não só contra adversários do regime —a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil, hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância", escreve o filósofo. Não custa lembrar que o atual presidente foi eleito prometendo, dentre outras coisas, "fuzilar" adversários.


Bem, os disparos de rojões contra Glenn e a multidão de espectadores na Flip aconteceu no começo da noite de sexta, o artigo de Renato saiu hoje pela manhã e agora já temos um novo exemplo do que o filósofo apontou em seu texto. A Feira do Livro de Jaraguá do Sul, cuja 13ª edição acontecerá entre os dias 8 e 18 de agosto, desconvidou a jornalista Miriam Leitão e o sociólogo Sérgio Abranches. Isso porque, após anunciá-los, manifestantes usaram a internet para atacar a escolha dos curadores por conta de um suposto posicionamento ideológico dos dois autores, inclusive os ameaçando fisicamente.

A organização afirmou não ter condições de garantir a segurança de Miriam e Sérgio na cidade. Repito com outras palavras: não sabem se Miriam e Sérgio não seriam atacados por uma horda de bárbaros em Jaraguá do Sul; poderiam ser agredidos (ou algo pior, vai saber) apenas por expor o que pensam. A pretendida censura foi consumada. Essa horda até outro dia mostrava braveza sobretudo atrás de uma tela, mas agora mostra sua truculência e violência também nas ruas, como aconteceu em Paraty.

Já tem rojão sendo disparado contra quem expõe o que pensa. Já tem gente sendo impedida de expor suas ideias em determinadas cidades porque sua segurança não está garantida. O que torna tudo ainda mais perigoso: esse povo que ameaça e solta bomba parece agir com a certeza de que está num plano moral superior, de que faz um inequívoco bem para o país. E se voltarmos no tempo, encontramos eventos lamentáveis que ajudaram a gestar este momento, como a perseguição à exposição Queer Museu, em 2017. Vamos continuar fazendo de conta que está tudo bem por aqui?

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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