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Clássico de Kurt Vonnegut lembra que livre-arbítrio ainda pode nos salvar

Rodrigo Casarin

26/06/2019 10h22

"Robert Kennedy, cuja casa de veraneio fica a 13 quilômetros da casa em que moro o ano inteiro, foi baleado duas noites atrás. Morreu noite passada. É assim mesmo.

Martin Luther King foi baleado um mês atrás. Ele também morreu. É assim mesmo.

E todos os dias meu governo me fornece uma contagem dos cadáveres criados pela ciência militar no Vietnã. É assim mesmo.

Meu pai morreu já faz muitos anos… de causas naturais. É assim mesmo. Era um homem afetuoso. E era maluco por armas. Ele me deixou suas armas. Estão enferrujando".

*

A invasão norte-americana no Vietnã era contraposta por uma onda pacifista nos Estados Unidos quando Kurt Vonnegut escreveu "Matadouro-Cinco". A obra foi publicada originalmente em 1969 e se transformou num dos livros em língua inglesa mais importantes do século passado. Agora, ao completar 50 anos, ganha uma nova edição brasileira lançada pela Intrínseca, com tradução de Daniel Pellizzari.

Venerada por muitos como uma das principais narrativas antiguerra da história, nela acompanhamos Billy Pilgrim, sujeito que é enviado para Segunda Guerra Mundial contra sua vontade. Na Europa, acompanha a brutal ofensiva sobre a cidade de Dresden, na Alemanha, é feito prisioneiro, obrigado a trabalhar em um depósito de carnes e termina em um hospital psiquiátrico, onde descobre a capacidade de perambular pelo espaço e pelo tempo, podendo revisitar tanto seu passado quanto seu futuro – na miscelânea de possibilidades, inclua-se o contato com seres extraterrenos.

Há um tanto de Vonnegut em Pilgrim. Como a criatura, o criador também foi enviado para a luta contra os nazistas. No campo de batalha, viu como a guerra faz pouco sentido: trata-se normalmente de gente jovem matando gente jovem desconhecida a troco de interesses quase sempre escusos e alheios. Vonnegut estava preso em Dresden, forçado a trabalhar num depósito de carnes, quando a cidade foi atacada pelos Aliados, ofensiva que é pilar da narrativa. Pelo que consta, no entanto, não chegou a viajar pelo tempo ou ter contato com seres de outros planetas, exceto por meio de sua imaginação.

"Matadouro-Cinco" é cheio de passagens que ficam na zona sombria entre a história factual e a criatividade de Vonnegut, o que ajuda a alimentar a aura mística que permeia tanto obra quanto autor. Um exemplo: André Le Fèvre foi mesmo detido em 1841 tentando vender aquela que seria a primeira foto pornográfica da história, com uma mulher contracenando com um pônei? Essa eu deixo para os mais curiosos buscarem pela resposta.

A maneira como Vonnegut retrata a batalha de Dresden, no entanto, merece ser encarada com atenção. "Não era um ataque aéreo muito famoso nos Estados Unidos daquele tempo. Poucos americanos sabiam que tinha sido bem pior do que Hiroshima, por exemplo. Eu também não sabia. Não era uma coisa muito divulgada", escreve. Como a história é contada por meio da voz de Pilgrim, é compreensível que o personagem queira dar ares superlativos à batalha que vivenciou – e que acabou por mudar sua vida, o que a transforma na maior de todas ao menos para sua própria biografia.

Dresden reconstruída.

Em todo caso, a carnificina em Dresden não foi maior do que em Hiroshima. Estimativas mais sangrentas supunham que cerca de 70 mil pessoas tinham morrido nos ataques à cidade alemã. Historiadores razoáveis trabalhavam com algo em torno de 35 mil mortos. Um estudo feito há alguns anos pelo governo local, porém, concluiu que os ataques que aconteceram entre 13 e 15 de fevereiro de 1945 provocaram 25 mil mortes. Já a bomba atômica que explodiu sobre a cabeça dos japoneses em Hiroshima deixou, de cara, 140 mil vítimas, além de milhares de outras que morreram com o passar dos anos em decorrência da radiação.

Se a dimensão da barbárie é diferente, um fato lamentável aproxima os ataques a Dresden das bombas lançadas sobre o Japão: foram ofensivas que até hoje soam como evitáveis, desproporcionais para aquela altura da guerra e contra cidades sem grande relevância para o andar das missões. São símbolos de nossa bestialidade, da mera vontade de alguns homens mostrarem como podem subjugar, humilhar e massacrar outros, um dos aspectos abordados por Vonnegut no romance.

Ao longo da obra também temos paralelos entre as batalhas modernas e as cruzadas medievais. Ao discorrer sobre como a guerra acaba sendo feita sobretudo por jovens, chegamos no suposto episódio histórico mencionado no subtítulo do romance. O nome completo da obra é: "Matadouro-Cinco: ou A Cruzada das Crianças – Uma Dança Compulsória Com a Morte".

No livro lemos que a Cruzada das Crianças teve início em 1213, quando dois monges resolveram formar um exército de crianças na Alemanha e na França. Trinta mil pequenos teriam se apresentado como voluntários achando que iriam para a Palestina. "O papa Inocêncio III também achou que elas estavam a caminho da Palestina e ficou empolgadíssimo: 'Essas crianças estão acordadas, e nós estamos dormindo', exclamou". Contudo, os monges queriam apenas levá-las até o norte da África, onde seriam comercializadas como escravas. "A maioria das crianças zarpou de Marselha, e quase metade delas se afogou em naufrágios. A outra metade chegou ao norte da África, onde foram vendidas", segue o escritor.

A Cruzada das Crianças é uma passagem fascinante, mas, como disse, historicamente questionável. Conheci a lenda envolvendo os pequenos e desesperançados fanáticos religiosos por meio da HQ "A Grande Cruzada", de Theo Szczepanski. Tentei mergulhar nela durante algum tempo, e descobri que o mais provável é que tal regimentação infantil em nome de algo superior jamais tenha ocorrido – sempre que a mencionei para algum historiador, ouvi que não passa de (incrível) ficção.

Não é apenas quando as cruzadas são citadas que temos referências ao cristianismo no clássico de Vonnegut – mais do que a fé, a moral cristã faz parte da tecitura de "Matadouro-Cinco". Como exemplo do tipo de reflexão que a leitura do livro provoca no leitor, cito um trecho no qual um dos personagens questiona por que os cristãos achavam tão fácil ser cruel, dúvida plausível diante da violência da guerra em questão, protagonizada essencialmente por cristãos, e de tantos massacres ao longo da história cometidos em nome da religião – e que também se aplica a outras crenças, é verdade.

Sobre essa crueldade, lemos: "Os evangelhos ensinavam o seguinte: Antes de matar alguém, tenha a mais absoluta certeza de que essa pessoa não tem costas quentes. É assim mesmo". Alguém se importaria com a crucificação de Jesus se ele não fosse, na mitologia, filho de Deus? Sequer saberíamos de sua passagem pela Terra, aposto.

A respeito dessas questões existenciais, outro momento exemplar é esse diálogo entre o protagonista e uma criatura de outro planeta:

"- Por que eu?

– É uma pergunta bem terráquea, senhor Pilgrim. Por que você? Por que nós, a propósito? Por que qualquer coisa? Porque este momento simplesmente é. Por acaso o senhor já viu insetos presos em âmbar?

– Sim – respondeu ele.

Em seu consultório, inclusive, Billy tinha como peso de papel um pedaço de âmbar polido, com três joaninhas aprisionadas em seu interior.

– Bem, senhor Pilgrim. Aqui estamos nós, presos no âmbar deste momento. Não existe porquê".

Olhando de novo para o trecho que abre este texto, temos ali um dos traços mais famosos de "Matadouro-Cinco", o "é assim mesmo" – ou "and so it goes", no original. A expressão se repete exaustivamente na narrativa, muitas vezes pontuando tragédias que não deveriam ser reduzidas a um "é assim mesmo" ou as igualando a situações banais. A constante exposição ao absurdo, à desumanização, algo corriqueiro numa guerra, faz com que o personagem, numa posição que oscila entre o cinismo e a desesperança, acredite que tudo seja "assim mesmo". Pergunto-me hoje, longe da guerra, quantos são os absurdos que banalizamos e transformamos num "é assim mesmo".

Só que há esperança no texto de Vonnegut. É um extraterrestre que diz: "Se eu não tivesse dedicado tanto tempo a estudar os terráqueos, não faria a menor ideia do que significa 'livre-arbítrio' […]. Já visitei 31 planetas habitados no universo e estudei relatórios sobre mais uma centena deles. Somente na Terra se fala em livre-arbítrio". Livre-arbítrio para, por exemplo, depois que o pai fanático por armamentos morre de causas naturais (e aqui sim "é assim mesmo"), o filho, numa bela metáfora, opte por abandonar as armas herdadas num canto qualquer, onde ficarão abandonadas até serem devoradas pela ferrugem.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.