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“Vinho de cadeia”, a bebida feita até com ketchup por presos dos EUA

Rodrigo Casarin

24/05/2019 10h44

Passeava pelo interessantíssimo "Fermentação Selvagem – Sabor, Nutrição e Prática dos Alimentos de Cultura Viva" (Sesi-SP Editora) quando me deparei com um tal de "Vinho de cadeia". Conhece?

Sandor Ellix Katz, especialista em fermentação e autor do livro, conta que certa vez recebeu uma receita de Ron Campbell, que passou mais de 18 anos trancafiado em cadeias do Illinois, estado do centro-oeste dos Estados Unidos. Atrás das grades, Ron ganhou o apelido de "Bartles & Jaymes" (referência a uma marca de bebidas alcoólicas) por conta da grande quantidade de gorós fermentados que ele produzia clandestinamente.

O processo se dava da seguinte forma. Primeiro, algumas pessoas pegavam pêssegos ou saladas de frutas no refeitório. Essas comidas ficavam durante dois dias ao ar livre para que atraíssem leveduras e começassem a fermentar (ou apodrecer, para ilustrarmos melhor a situação). Depois disso, eram misturadas a seis latas de suco de laranja e meio quilo de açúcar dissolvido em um litro de água. "Tinha gente que dizia que eu usava açúcar demais, mas ninguém reclamava do produto final", registra Ron.

Na sequência, a mistura era colocada em sacos de lixo de 20 litros e guardada por três dias em algum canto quente. De tempos em tempos os presidiários precisavam abrir um pouco os sacos para que os gases produzidos pela fermentação fossem liberados, o que obrigava alguém a passar a noite acordado cuidando da bebida. Quando a produção de gases diminuía, indicando que o consumo de açúcares pelas leveduras já estava chegando ao fim, retiravam as frutas da mistura e sabiam que a iguaria estava pronta para ser consumida.

"O processo todo era muito arriscado, porque era ilegal e a gente podia pegar solitária por isso. […] Só fui pego uma vez e foi só algumas semanas antes de eu sair da prisão. Fiquei um mês na solitária e fui para casa. Meu último lote foi compartilhado com um pessoal da solitária. Passamos dias guardando suco do café da manhã, açúcar, geleia e frutas e fizemos uns 10 litros. Tem gente na prisão que usa ketchup ou purê de tomate, mas eu sempre preferi usar frutas. É preciso se acostumar com o sabor, mas posso dizer que a bebida dá conta do recado", conta o "vinicultor" improvisado.

Nas cadeias brasileiras nós temos algo não só semelhante, mas até mais difícil de ser feito: a Maria Louca, um fermentado à base de arroz e açúcar que ainda passa pelo processo de destilação.

Você pode me acompanhar também pelo Twitter, pelo Facebook e pelo Instagram.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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