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Sem nome de peso, Flip dá indícios de que será mais política neste ano

Rodrigo Casarin

2015-05-20T19:15:49

15/05/2019 15h49

A organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) anunciou na manhã desta quinta a programação da 17ª edição do evento, que neste ano homenageará Euclides da Cunha, autor de "Os Sertões", acontecerá entre os dias 10 e 14 de julho e contará com a participação de 33 convidados de dez nacionalidades diferentes – as 21 mesas já podem ser vistas no site da Festa, onde também há orientações para a compra de ingressos. Abaixo, listo minhas impressões após a coletiva de imprensa que contou com a participação de Mauro Munhoz e Betina Cermelli, responsáveis pela Flip, e Fernanda Diamant, que pela primeira vez assina a curadoria:

Sem nomes de peso: Faltou um grande nome da literatura na programação principal. Esta reclamação já surge há algumas edições, mas desta vez fica até difícil de colocar alguém no posto de principal atração. Kristen Roupenian, dos Estados Unidos, ou Sheila Heti, do Canadá, como ventilaram? Sei não… A primeira é uma contista que, apesar do barulho que fez com "Cat Person", acabou de estrear com um livro bastante fraco – falo de "Cat Person e Outros Contos". Já "Maternidade", principal trabalho de Sheila publicado por aqui, é um tanto capenga, ainda que traga uma abordagem original para um tema importante. O nome mais forte desta edição junto ao grande público acaba sendo o do navegador Amyr Klink, autor de "Cem Dias Entre o Céu e o Mar", que, no entanto, participará apenas da mesa de encerramento lendo trechos de seu livro favorito.

Mas com bons nomes: Os africanos aparecem mais uma vez com força e costumam surpreender com o carisma e a relevância de suas histórias, então vale prestar atenção no angolano Kalaf Epalanga, em Gael Faye, do Burundi, e na nigeriana Ayobami Adebayo. Karina Sainz Borgo, venezuelana radicada em Madrid, pode ter muito a dizer sobre a lamentável situação de seu país natal. Por não enxergar barreiras entre o popular e o "erudito", Jarid Arraes e Braulio Tavares são dois brasileiros que merecem receber os holofotes que acompanham os escritores convidados para a programação principal da Flip. Do diretor de teatro Zé Celso, que dividirá o palco com Ailton Krenak, sempre podemos esperar alguma "zé celsice".

Política: Com a programação anunciada no mesmo dia em que manifestações pela educação tomam conta das ruas brasileiras, o fator político esteve presente nas falas principalmente de Fernanda sobre cada uma das mesas. Vanice Nogueira Galvão, pesquisadora da USP que comandará abertura, também representa a importância do trabalho na universidade pública. Aparecida Vilaça, antropóloga autora do ótimo "Paletó e Eu", serve como referência tanto para a questão indígena quanto ao trabalho realizado no Museu Nacional. José Miguel Wisnik falará da relação entre poemas de Carlos Drummond e a mineração. O quadrinista Marcelo D'Salate, outro grande nome, é também um representante dos professores de ensino médio…

Mencionadas na apresentação, todas essas questões estão no centro ou tangenciam discussões a respeito das políticas públicas promovidas pelo governo Bolsonaro. Mauro Munhoz encara a questão como algo que segue a tradição da Flip, já Fernanda disse que "seria impossível homenagear Euclides sem esse viés", mas que os debates serão menos acerca do que se passa neste momento e "mais uma reflexão histórica sobre o país". Fato é que há muito não se via um anúncio de programação tão pontuado por elementos em voga no nosso atual cenário político.

Casas parceiras: Indo além do palco principal, as casas parceiras deverão seguir responsáveis por boa parte do que acontece de interessante em Paraty durante a Flip. Para este ano, a organização já conta com 21 parcerias oficiais, como Barco Holandês, Barco Flipei, Casa das Mulheres Negras Insubmissas, Casa Libre & Santa Rita de Cássia e os diversos espaços do Sesc. A novidade: a programação desses lugares poderá ser vista no site oficial da Flip, facilitando a vida de quem deseja saber de quase tudo o que rola pelas ruas do Centro Histórico ao longo da Festa. Quase tudo porque, não custa lembrar, há ainda espaços com propostas interessantes que não figuram entre os parceiros oficiais.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.