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Dificuldade com o sexo real e embrutecimento: os problemas do pornô na web

Rodrigo Casarin

03/04/2019 09h38

Cena de "Hot Girls Wanted".

Nunca houve tanto consumo de pornografia quanto após a popularização da internet. Esta é uma afirmação que vira e mexe encontramos por aí. Frequentemente também nos deparamos com estudos, artigos e reportagens mostrando como o consumo excessivo do sexo com o mouse – ou o celular – em mãos pode descambar em vício ou compulsão, prejudicando tanto o trabalho quanto as relações afetivas. Paulatinamente, muitos passam a pautar a vida real a partir do que veem nos pornôs e acabam tendo o conceito de normalidade distorcido – não, seres humanos não costumam ser máquinas insaciáveis de fazer sexo de todas as formas imagináveis.

"Inúmeros homens descrevem para mim que o consumo de pornografia os fez perder a capacidade de relacionarem-se com mulheres ou de tornarem-se próximos delas. Eles têm dificuldades para se excitar com mulheres 'reais' e a sua vida sexual com as namoradas ou esposas foi arruinada", relata uma das pesquisadoras ouvidas em "Os Custos Sociais da Pornografia – Oito Descobertas que Põem Fim ao Mito do 'Prazer Inofensivo'" (Quadrante), livro que é fruto de uma pesquisa iniciada durante um colóquio feito em Princeton, no final de 2008. Redigido pela ensaísta Mary Eberstadt e pela psicoterapeuta Mary Anne Layden, mais de 50 outros pesquisadores de diversas áreas do conhecimento também corroboram o texto.

Ao longo do livro, são apresentados indícios e pesquisas que apontam para o crescimento do interesse por vídeos de sexo hardcore na web e como tendências do tipo contribuem tanto para a objetificação da mulher quanto impactam em questões como o tráfico de seres humanos. O fácil acesso de crianças aos conteúdos pornográficos também é abordado, mostrando como isso pode fazer com que cresçam tendo o que encontram nesses filmes como modelo para seus relacionamentos. "A pornografia não mostra como um casal soluciona um conflito ou cria intimidade", pontuam as autoras.

"A cada segundo, há aproximadamente 28.528 usuários de internet vendo pornografia. A cada dia, há aproximadamente 116 mil buscas online por pornografia infantil", lemos em outro momento do livro. E aqui está um dos problemas do, digamos, manifesto: as pesquisas são um tanto datadas – esta que fala sobre as buscas por pornografia infantil, por exemplo, é de 2008. Se as principais tendências relacionadas à pornografia na internet talvez não tenham mudado tanto em pouco mais de dez anos, não deixa de ser uma pena que um livro que trate de tema tão urgente e que está sendo lançado agora no Brasil esteja arraigado à década passada. Pode ser valioso complementar uma eventual leitura encarando também títulos como "Garotas & Sexo", de Peggy Orenstein (sobre o qual já falei aqui) e assistindo a documentários como "Pornocracy" e "Hot Girls Wanted".

Outro ponto problemático em "Os Custos Sociais da Pornografia" é o viés excessivamente conservador assumido em certos trechos. "Algumas coisas são simplesmente erradas por princípio; não importa se seu dano é demonstrável", lemos em dado momento, já pro final da obra. Ora, me parece pouquíssimo científico um documento assinado por mais de 50 pesquisadores, gente ligada a universidades como Oxford, King's College e Cambridge, assumir um discurso moralizante e meramente afirmar que algo é errado "por princípio". Que mostrassem ao menos como nasce esse "princípio" em nossa sociedade.

Pelo menos reconhecem que o trabalho se trata de um ponto de partida para as discussões – e para tal o livro pode mesmo ser válido. "É preciso estudar mais o fenômeno, mas um crescente número de pesquisas sugere fortemente que, para alguns usuários, a pornografia pode ser psicologicamente viciante, podendo afetar negativamente a qualidade dos relacionamentos interpessoais, a saúde e o desempenho sexuais e as expectativas sociais relacionadas com o comportamento sexual. O consumo disseminado da pornografia parece representar um sério desafio para a saúde pública e para o bem-estar pessoal e familiar", constatam. "Parte da dificuldade de medir o 'dano' da pornografia da internet é o fato de ela não afetar todos os indivíduos da mesma maneira. Em alguns casos, um usuário casual e esporádico pode ser mais prejudicado pela pornografia do que um usuário crônico e diário", assumem.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.