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“Todos os caminhos levam à ignorância”: mostra celebra Manoel de Barros

Rodrigo Casarin

12/02/2019 10h48

Crédito da foto: Marcelo Buainain.

"Fui criado no Pantanal de Corumbá entre bichos do
chão, pessoas humildes, aves, rios e árvores.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia, me sinto meio desonrado
ao publicá-los e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado de garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei, pelo que
fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância".

O manuscrito de "Auto-retrato Falado", poema de Manoel de Barros publicado em "O Livro das Ignorãças" (Alfaguara), de 1993, está presente na mostra dedicada ao poeta que entra em cartaz amanhã, dia 13, no Itaú Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo. A exposição é fruto principalmente do trabalho de Martha Barros, artista visual, filha de Manoel e detentora de seus direitos autorais, que passou boa parte de 2017 e 2018 garimpando o material que seu pai lhe deixou.

Não são apenas manuscritos que estarão presentes na "Ocupação Manoel de Barros", mas também anotações, esboços avulsos, objetos que o poeta utilizava em seu dia a dia, textos originais, os famosos desenhos caracterizados pelos traços singelos, cartas trocadas com gente como Millôr Fernandes, Henfil e Carlos Drummond de Andrade e cadernos nos quais Manoel rascunhava seus versos muitas vezes marcados por neologismos, apreço à simplicidade e por um olhar curioso sobre tudo que o cercava.

Ao longo da vida, o escritor que nasceu em Cuiabá em 1916 e morreu em 2014 em Campo Grande utilizou mais de 100 desses cadernos, sendo que seis deles estarão integralmente exibidos na mostra. A promessa é que, aliado aos outros materiais, o conjunto permita que o público capte como Manoel desenvolvia seus pensamentos e os transformava em poemas como "O Apanhador de Desperdícios" e "O Livro Sobre o Nada".

A abertura da "Ocupação Manoel de Barros" acontece a partir das 20h desta quarta e contará com a participação do escritor Marcelino Freire e da compositora, cantora e pesquisadora indigenista Marlui Miranda, que lerão poemas do homenageado. A mostra, que vai até o dia 7 de abril, poderá ser visitada de terça a domingo. Clique aqui para mais informações.

E abaixo está o manuscrito de "Auto-retrato Falado" seguido de sua transcrição (clique na imagem para ampliá-la):

"Auto-retrato Falado"
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
Marinha, onde nasci.
Fui criado no Pantanal de Corumbá entre bichos do
chão, pessoas humildes, aves, rios e árvores.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia, me sinto meio desonrado
ao publicá-los e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado de garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei, pelo que
fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda
de gado. Os bois me recriam:
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.