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Cresceu reclusa, pisou na sala de aula aos 17 e virou doutora por Cambridge

Rodrigo Casarin

18/01/2019 10h03

O pai de Tara Westover não batia muito bem das ideias.

Certo de que uma hora o sol escureceria e a lua pingaria como se fosse sangue anunciando o fim do mundo, a cada verão obrigava sua família a colher pêssegos e prepará-los em conserva. Comprava armas aos montes, enterrava galões de gasolina e planejava construir uma adutora e instalar painéis de energia solar que alimentariam toda a fazenda onde morava, nas montanhas de Idaho, assim estaria abastecido quando o planeta despencasse e os outros seres humanos passassem a viver na escuridão, batalhando por uma poça d'água. "Quando o mundo dos Homens sucumbisse, minha família continuaria, inabalável", acreditava.

Acreditava piamente em Deus, também – era um mórmon fanático que pregava até mesmo contra o consumo de leite armazenado na geladeira. Acreditava ainda que a escola pública era uma tática que o governo utilizava para afastar as crianças do Senhor e temia que a qualquer momento forças oficiais batessem à porta para arrastar seus filhos para os colégios. Odiava o "sistema" com toda sua força. Tinha certeza de que hospitais eram peças-chave da conspiração governamental, servindo aos interesses de comunistas e Illuminati. Jamais deixaria um dos seus ir ao médico, qualquer ferida ou doença deveria ser resolvida com o que encontrasse na natureza. Garganta inflamada? Que fique meia hora por dia com a boca aberta voltada pro sol, esperando que os raios solares resolvam seja lá qual for o problema.

Sob as asas desse paranoico que Tara Westover cresceu isolada do restante do mundo. Como outros de seus irmãos, foi ter a certidão de nascimento tardiamente, quando já estava com nove anos. Criada na cartilha autoritária do pai, aprendeu que mulher direita não mostrava nem um pouco da pele que havia do tornozelo pra cima e que qualquer traço de personalidade era sinônimo de ser "puta". Ajudava no ferro velho da família, tomava banho uma ou duas vezes por semana; raramente passava perto de um sabonete.

A educação vinha da mãe. Era completamente rudimentar, mas suficiente para que os filhos aprendessem a de alguma forma ler, escrever e fazer contas simples. Quando um dos irmãos de Tara resolveu mergulhar em estudos mais complexos para que conseguisse vaga em alguma faculdade, ouviu do pai que "um homem não pode viver de livros e pedaços de papel"; para ele, homem de verdade precisava trabalhar num ferro velho desmontando carros.

Acontece que em certo momento Tara resolveu que também gostaria de conhecer o mundo além da sua bolha. Como o irmão – agora um universitário -, dedicou-se aos livros que arrumava com muito sofrimento e decidiu que tentaria entrar na Brigham Young University (BYO). Sim, teve mais brigas com o mandão dono da casa, mas persistiu. Contra todos os prognósticos e sem jamais ter pisado numa escola na vida, conseguiu a vaga e, pouco depois, a bolsa que garantia a sequência nos estudos.

Quando pisou pela primeira vez numa sala de aula, a garota de 17 anos nunca tinha ouvido falar em Holocausto. Uma lembrança anterior ao início do ano letivo nos dá a dimensão de quão perdida Tara estava: "Notei, porém, quando ele [o irmão universitário] veio para o Natal, que estava lendo um livro chamado 'Os Miseráveis', e achei que devia ser o tipo de livro que alunos de faculdade liam. Comprei um, esperando que me ensinasse história ou literatura, mas não. Nem conseguiria, porque eu não era capaz de distinguir ficção de fatos históricos. Para mim, Napoleão não era mais real que Jean Valjean. Nunca tinha ouvido falar nem de um nem de outro".

O registro está no livro "A Menina da Montanha", lançado no Brasil há pouco pela Rocco e apontado por Barack Obama como uma de suas melhores leituras de 2018. Daqueles títulos autobiográficos em que a história prevalece sobre a forma, o relato de Tara é uma leitura que flui bem, ainda que passe longe de ser exatamente prazerosa (cenas de pessoas pegando fogo são terríveis, fica o alerta). Especialmente na primeira parte, são muitos os momentos em que nos pegamos pensando: "como pode um maluco desses levar toda a sua família para o buraco?". Mesmo quando a garota já está estabelecida na universidade, o pai segue tentando de alguma forma amarrá-la novamente à vida sem perspectivas de outrora. Não só o pai, aliás, mas boa parte dos Westover parece viver na Idade Média, encarando o conhecimento como algo do demônio. Sabemos que, com algumas variações, a história da autora se repete aos montes por aí, infelizmente.

É bastante interessante também acompanhar as descobertas de Tara no mundo além da fazenda onde cresceu confinada. Em certa ocasião, após ser elogiada por um professor, a reação da estudante sintetiza o choque entre a vida que levava e a sua nova realidade: "Qualquer forma de crueldade eu podia tolerar melhor que a bondade. Elogio era veneno para mim, eu engasgava. Queria que o professor gritasse comigo, e desejava isso tão intensamente que me senti desorientada por não receber. Era preciso dar expressão à feiura que havia em mim. Se não fosse expressa na voz dele, teria que ser na minha".

Com uma dedicação impressionante aos estudos, a carreira acadêmica da garota logo deslanchou. Tara, hoje com 32 anos, formou-se formou na BYO em 2008, foi pesquisadora visitante em Harvard em 2010 e em 2014 conquistou o doutorado em História em Cambridge, na Inglaterra, onde já havia passado um período durante sua graduação.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.