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O poeta brasileiro que passou perrengue e conquistou Lisboa no século 18

Rodrigo Casarin

20/12/2018 10h42

Filho de Antônia Jesus, escrava africana trazida de Angola, e Antônio de Caldas Barbosa, funcionário da Coroa portuguesa que passara anos atuando na África, Domingos Caldas Barbosa nasceu no Rio de Janeiro em 1740. Estudou em colégio jesuíta, ingressou no exército e serviu em Colônia de Sacramento, bela cidade que hoje pertence ao Uruguai. Quando regressou à terra natal, foi enviado pelo seu pai a Portugal para que estudasse Direito na Universidade de Coimbra. É aí que seu infortúnio começou.

Em 1764, pouco depois de se acomodar na metrópole, recebeu a notícia da morte de Antônio. Sem pai, sem grana chegando de tempos em tempos do Brasil. Precisou abandonar a faculdade e se virar para sobreviver e arrumar seu espaço entre os portugueses. Talentoso, apostou na música e na poesia, apresentando-se com uma viola de arame em saraus e festas e introduzindo ritmos africanos naquele canto da Europa. Agradava a nobres e estudantes, mas a vida era dura. Quando a miséria apertava, usava a malandragem para comover quem pudesse lhe ajudar. Numa sociedade racista e totalmente dependente das benesses da Coroa, deu sorte ao encontrar a influente família Vasconcelos e Sousa, que lhe estendeu a mão.

Sustentado pelos benfeitores, Domingos se tornou um dos músicos mais populares da Lisboa do fim do século 18, sendo reconhecido até pela rainha D. Maria I. Também liderou a sociedade literária Nova Arcádia e deixou sua contribuição para o teatro português. Não que ganhasse aplausos de todos. Por conta de sua origem, era ignorado pela crítica local. Já a crítica brasileira, ao longo de parte considerável da história, viu nas modinhas de Domingos somente motivo para esculachá-lo.

No entanto, as coisas mudam. Hoje Domingos é apontado como um dos poetas brasileiros mais importantes do século 18 e considerado um dos fundadores da nossa música popular. Em 2004 ganhou uma biografia assinada por José Ramos Tinhorão, um dos críticos musicais mais rigorosos e respeitados do país. É verdade que permanece bastante distante dos leitores – "Viola de Lereno", sua obra mais conhecida, foi editada pela última vez em 1980 pela Civilização Brasileira -, mas há uma nova chance para que até isso mude. A Editora 34 acaba de publicar "A Doença", poema editado originalmente pela Imprensa Régia de Lisboa em 1777.

Se escritos como "Com doces esperanças consolado/ Se julga o Caldas menos desgraçado:/ Outra vez sua lira se escutava/ E a triste musa alegre se tornava:/ Torna a soar o Tejo sobre as bordas/ A voz sonora das vibradas cordas:/ Louca ilustres varões, raras belezas,/ E faz fugir as lânguidas tristezas" podem causar estranhamento no leitor contemporâneo, na época em que "A Doença" foi lançado havia outro motivo para surpresa: era extremamente raro no final do século 18 um poeta apresentar um poema claramente autobiográfico, ainda mais escrito em terceira pessoa. Ao longo de quatro cantos e 1244 versos, Domingos repassa os perrengues que viveu em Portugal e desvela a hipocrisia que encontrou por onde passou, além de construir um retrato da luta pela sobrevivência, aceitação e integração de um mulato brasileiro naquela sociedade.

"Há uma enorme complexidade de imagens e referências que parecem apontar para um retrato extremamente sutil dos mecanismos que presidem o 'baile de máscaras' da sociedade portuguesa do século 18, na qual nobres, homens livres, profissionais liberais e poetas têm que desempenhar papéis predefinidos, mas ao mesmo tempo sujeitos a pequenas e significativas alterações. A dinâmica social das classes desprivilegiadas em busca de sobrevivência num ambiente em que virtualmente inexistem alternativas 'burguesas' é o pano de fundo da narrativa de Caldas Barbosa", escrevem Lúcia Helena Costigan e Fernando Morato, professores e pesquisadores de literatura portuguesa e brasileira que atuam na Universidade de Ohio (Estados Unidos), no ótimo ensaio de apresentação do volume editado pela 34.

Analisando o terceiro canto de "A Doença", aliás, que a dupla indica um bom resumo de tudo o que o autor passou: "Saiu da América para estudar Direito em Coimbra, mas, devido à morte súbita de seu pai, encontrou-se inesperadamente sem recursos, o que o forçou a um périplo pelo país (Lisboa, Coimbra, Porto, Barcelos, outra vez Lisboa, Coimbra, retornando finalmente a Lisboa), passando por inúmeras necessidades, sobrevivendo de apresentar-se em festas e tertúlias além de recorrer também a um 'forçado fingimento': quando seus recursos estavam se esvaindo, resolveu fingir que sua pobreza era na verdade mera excentricidade e, assim, as pessoas que acreditavam poder se aproveitar dos supostos recursos do poeta lhe franqueassem suas posses; este engano inclusive levou-o a Coimbra. A estratégia, entretanto, teve curta duração, porque as férias da Universidade tiraram os estudantes da cidade e assim o Caldas se viu na mais desesperadora necessidade, dormindo ao relento e chegando inclusive a passar fome. É nesse momento que uma 'mão piedosa' o socorre e o leva a Lisboa".

Domingos Caldas Barbosa morreu em novembro de 1800, aos 61 anos, em Lisboa.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.