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Anarquia e tara pela guerra: os livros do futuro chanceler de Bolsonaro

Rodrigo Casarin

21/11/2018 10h37

"Não é um romance, nem uma coleção de contos, nem um conjunto de poemas, mas um espaço ficcional. Um sistema anárquico de textos, que quer se libertar da autoridade superior da trama e da lógica dos personagens".

É dessa forma que "Quatro 3", de Ernesto Araújo, é apresentado. Publicado em 2001, o livro é a terceira ficção do diplomata que foi anunciado como futuro Ministro das Relações Exteriores do governo de Jair Bolsonaro. Antes de "Quatro 3", Araújo já havia lançado "A Porta de Mogar", em 1998, e "Xarab Fica", em 1999, todos pela editora Alfa-Omega.

A descrição apresentada acima serve muito bem para qualquer um dos títulos, os três são um emaranhado de fragmentos muitas vezes pouco coesos nos quais o autor divaga sobre tudo o que encontra pela frente. Araújo mostra uma queda por questões filosóficas, mas o que apresenta ao leitor nada mais são do que indagações e reflexões que dão voltas atrás do próprio rabo e raramente alcançam algum lugar.

Se nenhum dos trabalhos chega a ser bom, o primeiro é certamente o pior deles. "A Porta de Mogar" é um amontoado de imagens e reflexões que martirizam o leitor ao longo de 180 capítulos (distribuídos por 178 páginas; sim, o excesso de capítulos é uma das características da versão escritor do futuro chanceler). Pelo menos a coesão melhora em "Xarab Fica", sobre uma cidade dividida em 300 partes e que "venera o problema como outros povos veneram o ganso ou o porco selvagem", e "Quatro 3", que apresenta "uma tentativa de perceber a fragilidade de deus, e de assim restaurar sua empatia com o homem".

Dentre os autores favoritos de Araújo estão Fernando Pessoa, Virgílio e Jorge Luis Borges, de quem até conseguimos encontrar alguma remota lembrança aqui ou ali, como em cenários e nomes de personagens. Contudo, a proposta de Araújo, que investe principalmente nos diálogos para conduzir suas narrativas, aproxima o autor mais de Lewis Carroll e seu "Alice no País das Maravilhas" e de Jostein Gaarder de "O Dia do Curinga". A proposta, veja bem, pois o texto em si nos faz lembrar de outros dois escritores brasileiros.

O primeiro é o Paulo Coelho dos momentos mais tacanhos de autoajuda. "Se estamos trabalhando para a felicidade, e se a felicidade está no coração de cada um, não deveríamos trabalhar mais no coração de cada um?", escreve Araújo, uma frase que caberia perfeitamente em algum livro meloso do Mago. O outro é Fabrício Carpinejar, que poderia muito bem ter escrito isso: "Passar o pão no fundo do prato depois da salada: É impossível reproduzir artificialmente aquele azeitinho que fica. É preciso primeiro atravessar a salada. Somente a salada espontânea produz o após-salada".

Em "A Porta de Mogar" há ainda um vestígio empolado de Antoine de Saint-Exupéry e seu "O Pequeno Príncipe": "Achas que estou diferente contigo. Mas não, eu estou igual, és tu que estás diferente comigo e, mudando o ponto de vista, muda junto o objeto observado. Porque tu estás diferente tu me vês diferente", escreve Araújo, remetendo o leitor àquele papo de "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", um clássico dos cartões amorosos vendidos em bancas.

Como já devem ter notado, quando se dedica à ficção, o futuro chanceler é chegado em chavões e obviedades. "Falamos da vida, mas durante quantos minutos por dia estamos fazendo algo a que chamamos de 'realmente viver'?", lemos em uma oportunidade. "O segredo do homem é fixar limites. E descumpri-los. E dividir-se entre esses dois segredos, que são um só", engolimos em outra.

A filosofia dialética que, como já dito, raramente leva o leitor a algum canto – que poderia ser uma reflexão, ao menos – serve para que Araújo trate de seus temas favoritos, como a dicotomia entre o pensamento e a realidade, o subjetivo e o objetivo. Questões políticas também fazem parte das preferências do autor: em seus livros muito é dito sobre o Estado, a pátria e o nacionalismo. A monarquia também tem seu espaço, com direito a uma rainha que adora fechar o próprio parlamento, bem como a maneira que o homem deve lidar com a economia.

Mas o assunto favorito de nosso futuro chanceler em sua ficção é a guerra – que em alguns casos pode ser encarada como uma metáfora, claro. É a guerra que permeia toda a narrativa de "A Porta de Mogar", "Xarab Fica" e "Quatro 3". Os personagens de Araújo estão sempre indo para a guerra, conversando sobre guerra, lembrando da guerra, enaltecendo a guerra… "Por que será que, quando se trata de desejar, só se pode desejar a guerra?", indaga um. Outra se diz cansada da falta de guerra, pois somente no campo de batalha há lugar para a "constância" e a "fidelidade". Para um terceiro, "a guerra é amor".

De reflexões sobre o tema ainda lemos que "A guerra provém do desejo de sermos mais do que somos, de vivermos o absoluto. A gerra é o desejo por algo impossível, por isso nunca se conclui, mas se repete" e que "Tudo o que eu quero é ficar aqui, em paz, fazendo a minha guerra. Por que é que me objetam? Tudo o que eu quero é ser um corpo com seus braços e pernas, cheio de ódio sereno e sem tormento. Não peço a vitória, só peço a batalha".

É evidente que o discurso de narradores e personagens não devem ser confundidos com as convicções de autores e escritores. Em todo caso, levando em conta as ideias que Araújo apresenta em declarações e textos não ficcionais, em certos momentos o leitor pode se pegar pensando se o ficcionista não tentou imputar algumas de suas opiniões, convicções e inquietações em suas criaturas. "Para toda razão, há sempre uma razão contrária, de tal modo que nada, jamais, se resolve por razão, mas pelo sentimento, que só depois se arruma e faz a barba", por exemplo, parece cair como uma luva em posições como a negação do aquecimento global, que seria uma manifestação ideológica, uma trama marxista.

Essa outra segue a mesma toada: "O homem é o único animal que não vive em harmonia com a porra do meio ambiente. Os que querem que vivamos em harmonia com o meio ambiente estão querendo desumanizar. Remarcar-nos. O Homem é o animal que não aceita ser animal. Amar a natureza? Só amamos o que não é nós. Se somos natureza nós próprios, então não amamos nada".

A respeito da democracia, um dos personagens de Araújo acredita que "O jogo democrático oprime o espírito humano tanto ou mais que a tirania. (Como gostaria de ter-me ocorrido isso naquela conversa no bar do Telarom.) Democracia não se confunde com liberdade. A democracia é apenas uma forma disfarçada de imobilidade, uma forma de organizar a liberdade de maneira a roubar às pessoas o gosto pela vida. A democracia não te impede frontalmente de fazer nada, mas por trás ela inibe tudo aquilo que se poderia ter vontade de sair fazendo".

Já sobre o Estado, duas passagens me chamaram a atenção:

"O Estado entorpece o homem. (Muitas coisas o entorpecem. A própria razão não é a luz que desperta, mas sim o enorme sono de milhares de anos, cada vez mais profundo, em que se vão apagando as letras a lápis do texto, plastificando os sabores das frutas. O que por um lado é bom. O homem precisa dormir e não aguentaria o solzão do impacto por muito tempo seguido.) O Estado é uma parede de concreto que nos esconde a verdadeira realidade e o abismo do mundo. O mundo são os tapetes roubados da embaixada que Iscaramã enviou a Veneza em 1602 e que nunca mais apareceram. O Estado deveria existir para buscar tesouros, e não para organizar a coleta de lixo", diz a primeira.

"Só entendo o Estado e o admito como instrumento da pátria. Pode haver pátria sem Estado, mas ultimamente inventaram esse monstro que é o Estado sem pátria. O Estado inibidor de pujanças, o Estado inibidor de pátrias. O próximo passo, repulsivo e podre, é o Estado mundial. Os Estados, em vez de lutarem uns contra os outros, vão se unir contra a humanidade", registra a segunda.

Passando a régua, qual livro do autor recomendo? Nenhum. Tem muita coisa melhor por aí para ler. "A Porta de Mogar", "Xarab Fica" e "Quatro 3" podem permanecer no limbo, a boa literatura agradece. E cruzando o Araújo escritor com o Araújo chanceler, só espero realmente que muitas das ideias apresentadas em seus livros sejam exclusivas de seus personagens, afinal, seria péssimo termos alguém responsável pela diplomacia que é tarado por guerra e mostra desprezo pela democracia e pelo Estado que ele mesmo representa.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.