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Conheça Rê Tinta, personagem criada para discutir o racismo e o preconceito

Rodrigo Casarin

15/11/2018 10h46

Assim que vê o policial, a pequena Renata levanta as duas mãos para o alto em um sinal de rendição. Sua mãe se assusta, pergunta o que a garota está fazendo e ouve como resposta: "Mostrando que não sou uma ameaça". Quando a mãe lembra para a pequena que o fardado é seu tio Bené, a criança é didática: "Veja, tio Bené, eu vou estender lentamente a minha mão para te pedir a benção…".

O autor da tira que fala sobre o medo que parte significativa da população negra tem dos policiais é Estevão Ribeiro, filho de um policial militar reformado e irmão de um PM na ativa. "Uma bala pode ter pesos totalmente diferentes dependendo do cano que saiu o tiro. Se sai da arma do vagabundo, a gente pode pensar que é uma fatalidade causada por alguém sem aparentemente nenhum senso de moral e compaixão pelo outro, a gente culpa, quer vingança, quer que esta pessoa deixe de existir, que sofra o que estamos sofrendo no momento e agradece não ter uma arma para tentar revidar. Se sai da arma de um policial, o que dizer? Ele estava ali para proteger, mas confunde a furadeira com uma pistola, guarda-chuva com um fuzil, pacote de pipoca com droga e no próximo ano terá licença para atirar à distância e pode não ser processado judicialmente pelos seus erros", escreve o artista no texto reflexivo que acompanha o quadrinho.

A tira faz parte do projeto "Rê Tinta", protagonizado pela garotinha de dez anos que, em sua vivência, se depara com situações que evidenciam o choque entre as classes ou expõe o preconceito social e pela cor da pele. Orgulhosa da sua negritude, Rê é uma criança de classe média, filha de um jornalista com uma historiadora, os responsáveis por lhe dar um pensamento bastante crítico. Disponíveis no Instagram e no Facebook, nas HQs temas como orgulho negro, representatividade, identidade do povo brasileiro, preconceito, educação e violência são abordados.

"Este ano a Lei Áurea fez 130 anos e começamos a nos conectar com uma atitude que até bem pouco tempo atrás não conseguíamos: a de se definir como preto ou preta. O preto, adjetivo ainda usado de forma pejorativa por boa parte da população brasileira, foi apropriado de uma forma intensa pela população engajada conhecida apenas como 'negra', uma forma suave de classificação, como morena clara ou escura. Essa população preta, que antes não se via em outros lugares a não ser como o vagabundo ou mulata no filme de diretor branco ou no núcleo pobre de novela, quer se reconhecer em produtos, lugares, postos de trabalho e sobretudo na arte", diz Estevão ao blog.

Segundo o quadrinista, Rê, criada no meio deste ano, junta-se "a outras iniciativas de reflexão sobre ser uma pessoa preta no Brasil através das situações vividas em sociedade pela personagem, atentando para as cicatrizes que a escravidão deixou em forma de expressões e conveniências, que são as raízes do preconceito e do racismo".

Olhando para o cenário político brasileiro, o artista diz o que ele e Rê esperam tanto do governo de Jair Bolsonaro quanto de Wilson Witzel, que estará à frente do Rio de Janeiro, terra do artista e da personagem. "Eu acho que teremos quatro anos de resistência pela frente. Somos um país de ignorantes orgulhosos, do popular 'não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe'. Quando a água bater na bunda, a gente vai transformar isso em crítica e arte. Só torço para que não haja um banho de sangue para cada um ter a sua razão. Da minha parte continuarei convidando o povo a pensar, fortalecer a negritude e tentar não virar alvo enquanto isso".

Estevão também assina a tira "Os Passarinhos", já publicada em países como Nicarágua, Peru, Equador, Portugal e Panamá. Para o projeto "Rê Tinta", aposta em um formato colaborativo para sua própria remuneração: pequenas doações mensais que os leitores, em troca de "mimos" simbólicos, podem fazer pelo site de financiamento coletivo Catarse.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.