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O rei que roubou Winston Churchill e proibiu carros vermelhos em seu país

Rodrigo Casarin

13/11/2018 10h51

Durante uma importante reunião na qual líderes mundiais tentavam decidir os rumos da Segunda Guerra que Faruque I, rei do Egito, aproveitou um momento de distração do mandachuva britânico Winston Churchill e roubou seu relógio de bolso. Apesar de extremamente rico, roubar pertences alheios era uma das atividades favoritas de Faruque, que, certa vez, subtraiu uma espada encrustada de joias e outros itens preciosos do caixão onde repousava o corpo de um xá iraniano. Para se aperfeiçoar na arte da roubalheira, o nobre chegou a ordenar que soltassem um dos ladrões mais famosos do país para que este pudesse lhe dar algumas aulas particulares.

Faruque não chamava a atenção apenas pela gatunagem. Bom de garfo, engordou mais de cem quilos depois que foi coroado, em 1936. Excêntrico e apaixonado pelo seu carro vermelho, decretou que nenhum súdito poderia ter um veículo da mesma cor. De inteligência questionável, recusava-se a apagar as luzes de seu palácio em Alexandria enquanto a região era atacada por alemães na Segunda Guerra. Mais do que isso, chegou a escrever para Adolf Hitler dizendo que não se importaria de ser invadido pelos nazistas se isso significasse, finalmente, a plena independência do Egito em relação aos ingleses.

Deposto por um golpe militar em 1952 – e tecnicamente sucedido pelo seu filho de seis meses, que "reinou" durante um ano antes da monarquia ser abolida –, Faruque passou o resto da vida em Mônaco e na Itália. Infartou aos 45, enquanto fumava um charuto depois de raspar o prato em um restaurante de Roma.

Curioso o pequeno resumo da biografia do cidadão, não? Para nos apresentar tipos como Faruque o livro "Humanos – Uma Breve História de Como F*demos com Tudo", de Tom Phillips, é uma boa pedida – opto no texto por grafar o nome do mandatário como consta no volume, diga-se. Na obra, o jornalista e humorista inglês reúne grandes burradas que marcaram a história da humanidade. O excêntrico rei egípcio entra no capítulo dedicado aos líderes que inegavelmente não possuíam a mínima vocação e integridade moral para comandar nações. Há ainda partes dedicadas a decisões estúpidas tomadas em guerras, grandes gafes diplomáticas e lamentáveis "avanços" tecnológicos, por exemplo.

Faruque e Churchill.

"A história do progresso humano começa com nossa criatividade e capacidade de raciocínio. É isso que nos diferencia dos outros animais – mas também é o que nos leva a tomar, com frequência, atitudes completamente imbecis", escreve o autor no prefácio. Então, ao longo do texto, Phillips apresenta presepadas épicas buscando sempre a graça de cada situação, aparentando não se importar com algumas simplificações e nem em forçar um pouco a barra em determinadas interpretações para que algum lado de cada história seja retratado num tom jocoso.

"Se você não é o tipo de pessoa que vê graça na desgraça alheia, talvez seja melhor parar de ler por aqui", avisa o autor logo no início. Mesmo assim, é difícil ver graça em algumas passagens como esta, na qual relata a fracassada invasão inglesa e holandesa à baia de Cádis, na Espanha, em 1625. Depois de explicar que os soldados atracaram nas terras inimigas sedentos e famintos, correram para fartar-se de tudo o que conseguiam nos armazéns espanhóis e, já bêbados, muitos não obedeceram ao comando de retirada e acabaram mortos pelo exército local, Phillips escreve:

"Essa história geralmente aparece nas listas dos maiores fracassos militares de todos os tempos – mas, para ser sincero, se ignorarmos a parte das pessoas sendo executadas, parece ter sido bem divertido. Você chega a um lugar, não come o suficiente, enche a cara e perde alguns amigos pelo caminho: é um clássico de férias". Ignorar a parte das pessoas sendo executadas e perder alguns amigos pelo caminho? Não sei se eu que ando muito chato, mas o trecho me pareceu de extremo mau gosto, apesar da história ser inegavelmente interessante.

O epílogo de "Humanos – Uma Breve História de Como F*demos Com Tudo", pelo menos, é muito oportuno. Nele Phillips olha para nosso presente para detectar quais são as burradas que estamos cometendo hoje e que provavelmente nos envergonharão no futuro, a começar pela maneira como estamos (ou não estamos) lidando com o aquecimento global.

"A tal mudança climática causada pelo homem é real e tem o potencial de ameaçar a existência de várias comunidades no mundo e muitos aspectos da civilização, e a essa altura ela está tão bem estabelecida como fato científico que parece meio banal ficar apontando as evidências de sua existência […]. Mesmo assim, ainda existem várias pessoas com motivos para negar o aquecimento global – motivos financeiros, políticos, a alegria pura e maliciosa de ser um babaca do contra –, e voltamos à etapa do 'vamos discutir para ver se isso é verdade mesmo' sempre que estamos prestes a fazer um progresso na fase do 'vamos resolver o problema'. É basicamente a estratégia que os produtores de gasolina com chumbo usaram no passado: não é preciso provar que algo está errado, só alegar que o assunto ainda está sendo analisado por tempo suficiente para você ficar bem rico".

É impossível ler esse trecho ao mesmo tempo em que a Califórnia é devastada por um dos maiores incêndios de sua história e não pensar em líderes de postura tão lamentável quanto Faruque. Hoje, se nenhum presidente anda roubando relógios por aí (até onde sabemos), é inegável que o valor moral de parte significativa das lideranças mundiais não é muito superior ao do antigo rei egípcio. Só são publicamente menos excêntricos.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.