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O dia em que Clarice Lispector foi “absolvida” por uma menina de dez anos

Rodrigo Casarin

05/10/2018 10h38

Passeava pelo "Todas as Crônicas", volume publicado neste ano pela Rocco que reúne textos que Clarice Lispector escreveu para diversos jornais, além de fragmentos do livro "Para Não Esquecer", quando me deparei com o seguinte título: "Fui Absolvida!". Leitores sabem o quanto ando preocupado com o momento em que vivemos. Quarta falei sobre "Meninos Sem Pátria", de Luiz Puntel, retirado do material paradidático de um colégio do Rio de Janeiro após pais alegarem se tratar de uma obra que faz doutrinação comunista. No mês passado a perseguição se deu com Ana Maria Machado e seu "O Menino que Espiava pra Dentro", acusado de incentivar o suicídio de crianças. Clarice já entregava no título que havia sido absolvida, mas teria ela passado por alguma situação surreal como essas que acabo de mencionar?

Clarice começa a crônica, publicada em 1970, dizendo ter recebido uma carta de seis páginas sobre "A Mulher que Matou os Peixes", livro infantil que lançou em 1968. A missiva vinha assinada por Inês Kopschitz Praxedes, uma "senhorita" de dez anos de idade que se preocupara em procurar a autora para lhe confortar sobre uma das passagens da obra. Teria sido Clarice ou sua personagem a responsável pela morte dos peixinhos? "Não é culpada não, pois os peixes morreram não por maldade mas por esquecimento. Você não é culpada", escreveu a garotinha.

Tomei essa história como simbólica não apenas pela gentileza da pequena, mas por mostrar como crianças são capazes de entender as histórias que leem e dialogar sobre isso, algo que muitos pais hoje parecem não perceber – ou não incentivar seus filhos para tal. Inês, aos dez anos, não teve problema algum em procurar Clarice Lispector para lhe explicar um pouco da própria obra, isso é fantástico (e, mais relevante ainda, provavelmente em momento algum teve sua iniciativa tolhida, talvez até tendo sido ajudada por algum adulto).

Clarice segue o texto dizendo que na carta Inês lhe conta sobre seus bichos. "Já teve peixes vermelhos e outros de rio. Tem uma gata chamada Nefertiti. Há também o gato Fígaro. Outro gato chamado Pussy e tem um apelidado de Marelo porque tem manchas amarelas. Outra gata chamada Casaca, pois 'sua mancha preta parece ser um casaco'. Tem outra gata chamada Feinha. O último gato se chama Pompom; ele é magrinho, malhado e esperto". A crônica segue falando de lagartixas, coelhos e galinhas que a garota teria criado. "De cada bicho, Inês, além do nome, me conta um acontecimento, seu modo de ser, o que comiam, onde dormiam".

E, além de transformá-la numa crônica, o que Clarice fez com a carta da menina que lhe absolvera? "Comprei um cartão-postal onde tinha uma tartaruga e muitos ovinhos brancos. E agradeci-lhe não me considerar culpada, e ter sido absolvida. A senhorita Inês e eu somos amigas".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.