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De esquerda? Outra obra para crianças é queimada; fascismo avança por aqui

Rodrigo Casarin

03/10/2018 11h58

Um candidato que idolatra torturador, defende a ditadura civil-militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985 e fala em metralhar adversários políticos e fazer as minorias se curvarem à maioria não apenas lidera a corrida presidencial, mas a cada dia ganha novos eleitores. Já o vice desse candidato é um general que nega a existência da ditadura. Ainda faz parte do núcleo central da chapa um outro militar que afirmou em entrevista ao Uol que livros que não tragam a "verdade" sobre a ditadura – segundo o ponto de vista da caserna, não dos historiadores – deveriam ser banidos. Nesta semana o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, disse preferir chamar a última ditadura pela qual o país passou de "movimento de 1964" – dos outros citados pouco podemos esperar, mas é chocante ver alguém na posição Toffoli proferindo tal asneira.

Trago apenas fatos bem recentes para que este texto não precise virar um livreto, mas essa onda conservadora e reacionária já vem há algum tempo tomando conta do Brasil, como todos sabemos – se alguém não sabe, recomendo este, este e este link. Enquanto no cenário macro relativizam a barbárie, enaltecem o ódio e tentam deturpar a história, no dia a dia a consequência disso é nos depararmos com notícias como a que corre desde ontem: no Rio de Janeiro, o Colégio Santo Agostinho, do Leblon, retirou de seu material paradidático o livro "Meninos Sem Pátria", de Luiz Puntel, publicado pela Ática na Coleção Vaga-lume – pelo menos até outrora saudosa para todos.

O motivo? A obra foi acusada de doutrinar os alunos com ideologia comunista e usar o ponto de vista da esquerda para criticar os governos militares. Para escrever "Meninos Sem Pátria", Puntel se inspirou na história de José Maria Rabêlo, jornalista que fugiu do Brasil com sua família por ser perseguido durante o regime totalitário. Pais se incomodaram, resmungaram, gritaram e exigiram que seus filhos não tivessem contato com aquilo – onde já se viu falar para crianças do sexto ano que a ditadura foi uma ditadura? É irônico que a obra seja de 1981, ou seja, lançada durante a própria ditadura, que não a censurou.

Novidade alguma no estardalhaço, infelizmente. A ignorância está na moda num país onde boa parte do povo passou a preferir alimentar suas ideias via memes (ou o que o valha) que apenas reafirmam suas convicções quase sempre primitivas. É démodé apostar em leituras diversas, trocas de ideias, debates, contato com o divergente, tentativa de entender o lado oposto…

Nesse momento, dois colegas que me servem de inspiração na profissão vêm à mente. Ariel Palacios costuma dizer que as palavras servem para dar nome às coisas, o que nos permite chamá-las pelo que de fato são. Um regime que fecha o congresso, instaura a censura, retira o poder do povo e prende, tortura e mata quem lhe dá na telha (incluindo crianças, como mostra o livro "Infância Roubada") se chama ditadura em qualquer lugar do mundo, não seria diferente no Brasil. Nada mais justo do que nossos alunos aprenderem a própria história tendo os termos precisos diante de si. Já Sérgio Rodrigues sempre alertou que certas palavras possuem um valor enorme, mas que não podem ficar sendo usadas a torto e a direito, se não correm o risco de se tornarem banais e, ao realmente precisarmos delas, não terem a força que tinham outrora.

Não há palavra que defina melhor o que estamos vendo do que essa: fascismo, sua ascensão – quem quiser comprovar, recomendo buscar os detalhes de como Mussolini alicerçou seu poder na Itália; indico o livro "O Papa e Mussolini", de David Kertzer (Intrínseca). Entretanto, recentemente houve uma onda que acusava diversas pessoas de serem fascistas somente por terem ideias que não batiam com o pensamento de parte da esquerda. O resultado? Hoje já tem gente que acha que ser chamado de fascista é até um elogio – eu mesmo já tive o desprazer de tentar dialogar com alguém assim. Como recordou Milton Hatoum em entrevista ao blog no começo do ano, já em "Memórias do Cárcere", de 1953, Graciliano Ramos falava sobre o pequeno fascismo tupiniquim. Pois o monstro cresceu e já está nos engolindo, a perseguição aos livros, sua queima ainda metafórica, e a deturpação de nossa própria história são provas disso.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.