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Jesus foi morto num talo de repolho? As teorias mais estranhas sobre Cristo

Rodrigo Casarin

19/09/2018 10h24

Jesus, aos 21 anos, foi ao Japão para passar mais de uma década de sua vida estudando o xintoísmo. Ao voltar à Judeia, não agradou com os novos pensamentos e acabou condenado à morte. Escapou. Um irmão foi crucificado em seu lugar e Jesus regressou à Terra do Sol Nascente, onde cultivou arroz e alho, teve três filhos e morreu aos 106 anos.

São histórias como essa, com cara dos programas mais sensacionalistas do History Channel, que ocupam as páginas de "Cogumelo Jesus e Outras Teorias Bizarras Sobre Cristo", que o escritor Paulo Schmidt acaba de lançar pela Harper Collins Brasil. Escarafunchando evangelhos apócrifos, antigos relatos e estudos mais recentes, o escritor levanta possibilidades estapafúrdias – ou inusitadas e um tanto improváveis – sobre o principal nome do cristianismo. Apresentando ao leitor possibilidades como um Jesus alienígena ou fruto de uma magistralmente orquestrada conspiração, é uma obra que, pela quantidade de ideias que beiram o surrealismo, presta-se principalmente à diversão.

Veja algumas das teorias mostradas por Schmidt:

Jesus infanticida

Essa vem do século 2, do "Evangelho de Tomé", que busca explicar como foi a infância de Jesus. Segundo o texto, aos cinco anos o "salvador" já usava o barro para moldar pardais que, com uma batida mãos, ganhavam vida. Em uma dessas brincadeiras, outra criança chegou e, com um galho seco, bagunçou as poças de onde Jesus tirava água para as suas modelagens. "Essa ação absolutamente inócua encheu o pequeno Jesus de cólera", conta Schmidt, que segue a história dando voz ao "filho de Deus":

"- Ó perverso, ímpio e tolo! – apostrofou-o. – Que mal te fizeram as poças e a água? Eis que ressecarás como esse galho que tens na mão!

O pobre menino ressecou e morreu. Tempos depois, outro garoto, correndo, esbarrou em Jesus, que, irritado, sentencio:

– Não terminarás ter percurso.

O menino caiu morto ali mesmo. Os pais dessas crianças desafortunadas foram queixar-se a José, o carpinteiro e pai putativo de Jesus, dizendo-lhe:

– Ou ensinas teu filho a abençoar, a não amaldiçoar, ou não poderás morar nesta aldeia, pois ele está matando nossas crianças".

Enforcado no talo de repolho

Schmidt define o "Livro das Gerações de Yeshu" como uma "espécie de paródia sacrílega dos Evangelhos". É dessa peça, cuja edição mais antiga data do século 10, que o autor tira uma versão inusitada para a morte de Jesus – chamado, no caso, de Yeshu. Após sobreviver a algumas crueldades, foi capturado e condenado ao enforcamento. No entanto, poderes ocultos faziam com que as árvores partissem sempre que tentavam executá-lo. A solução?

"Os rabinos resolveram o problema enforcando-o em um talo de repolho, que não é uma árvore (por incrível que pareça, há espécies com três metros de altura), depois o enterraram nos arredores da cidade", relata Schmidt.

Morto aos 120 anos

Ao longo do livro há alguns relatos que pregam que Jesus teria passado algum tempo de sua vida no Oriente. É esse o caso retratado em "Messias na Índia", livro lançado no final do século 19 e que defende que Cristo teria sido sepultado em Srinagar, na Caxemira. Eis o que Schmidt escreve a respeito disso:

"Segundo essa tese, o Filho de Deus não morreu na crucificação. Reavivado pelos discípulos, fugiu da Palestina e percorreu a Roda da Seda, acompanhado por sua mãe, Maria, e o apóstolo Tomé. Passaram por Nísibis, Taxila e Murree, onde a Virgem faleceu e foi sepultada – tradição obviamente originada da aproximação semântica entre Murree, em punjabi, e Maria.

Jesus e Tomé continuaram até a Caxemira e Srinagar, onde Jesus viveu até os 120 anos e onde jaz, em Roza Bal.

Por que escolheu a Caxemira como destino? Porque essa é a terra para onde migraram Dez Tribos Perdidas de Israel, a saber, os habitantes deportados do antigo Reino de Israel (a Terra Santa, após o governo de Salomão, dividiu-se em dois reinos, Israel e Judá) quando este foi conquistado pelo Império Assírio, em 722 a.C."

Amanita muscaria.

Jesus, um cogumelo

Teoria que dá nome ao livro e provavelmente a mais estapafúrdia de todas, a ideia de que Jesus teria sido um personagem criado pelos primeiros cristãos para nomear um cogumelo alucinógeno foi desenvolvida na década de 1970 pelo filólogo britânico John Allegro, então catedrático da Universidade de Manchester, da qual teve que pedir demissão após expor seus pensamentos um tanto malucos em "O Cogumelo Sagrado e a Cruz". Apesar de ter sido aplaudido por alguns hippies, o trabalho de Allegro chegou a ser definido como "o livro mais ridículo de estudos sobre Jesus escrito por um acadêmico qualificado"; acadêmico este que teve sua sanidade mental questionada, inclusive. Aqui Schmidt nos apresenta um pouco do que levou o britânico a supor que Jesus seria a representação de um cogumelo:

"A principal experiência religiosa já vivenciada pelo ser humano, consoante o autor, é a sensação de 'compartilhar a divindade', fornecida por certos vegetais alucinógenos, dentre os quais o principal é, e sempre foi, desde o início dos tempos, o cogumelo Amanita muscaria.

Esse fungo de píleo vermelho com manchas brancas, muito popular em desenhos animados e videogames, contém uma substância psicoativa, a psilocibina, que provoca em quem a ingere, entre outros efeitos, um aguçamento das faculdades sensoriais. A pessoa enxerga objetos muito maiores ou muito menores do que realmente são, percebe cores e sons com intensa nitidez e experimenta uma sensação geral de poder, físico e mental, muito superior à capacidade humana.

Além disso, cogumelos têm um formato claramente fálico, ou, mais ainda, hermafrodita, pois, se o estipe lembra um pênis ereto, há também a vulva, isto é, a volva, a espécie de bainha que envolve a base do estipe.

Segundo Allegro, 'o pênis não era apenas o símbolo da geração humana, mas, dentro do culto ao cogumelo, simbolizava o próprio fungo sagrado o 'falo de Deus''".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.