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Editora negocia para relançar livro que Bolsonaro atacou no Jornal Nacional

Rodrigo Casarin

29/08/2018 18h26

Após todo o bafafá sobre livro "Aparelho Sexual e Cia" que o presidenciável Jair Bolsonaro trouxe novamente à tona na sua entrevista ao Jornal Nacional, a Companhia das Letras, casa que já publicou a obra no Brasil, soltou uma nota se posicionando sobre a polêmica. No texto, diz que trata-se de um livro "que enfoca todos os aspectos da sexualidade, com sólida base pedagógica e rigor científico".

Lembrando que o livro já vendeu mais de um milhão e meio de exemplares pelo mundo, virou exposição na Europa – sem que ninguém ali questionasse a importância de seu conteúdo – e foi vertida para dez línguas, ressaltou que, no Brasil, apenas 28 exemplares foram negociados com o governo, todos eles destinados a bibliotecas públicas. Além disso, lembrou que o título é sugerido para jovens que tenham entre 11 e 15 anos, não a crianças de 6, como chegou a se ventilar por aí.

No comunicado a Companhia das Letras também informa que "Aparelho Sexual e Cia" está esgotado e com contrato expirado. No entanto, o grupo já está em contato com os detentores dos direitos da obra para negociar uma possível volta dela às livrarias brasileiras.

Veja na íntegra o comunicado da editora:

São Paulo, 29 de agosto de 2018 – A editora Companhia das Letras reitera que confia no conteúdo do livro "Aparelho sexual e Cia", uma obra que enfoca todos os aspectos da sexualidade, com sólida base pedagógica e rigor científico. Justamente por sua seriedade e pela importância do tema — cuja dificuldade de tratamento foi superada pela leveza na abordagem de assuntos como a paixão, as mudanças da puberdade, a contracepção, doenças sexualmente transmissíveis, pedofilia e incesto —, a obra foi publicada em 10 línguas, vendeu mais de um milhão e meio de exemplares no mundo, e foi transformada em exposição, que ficou em cartaz duas vezes na Cité des Sciences et de l'Industrie, em Paris, e viajou por 7 anos pela Europa, sem que tivesse recebido qualquer acusação ou reprimenda. Ao contrário, virou um modelo de como informar os jovens sobre temas importantes e incontornáveis, a partir de um tratamento comprometido e cuidadoso.

Gostaríamos de lembrar que "Aparelho sexual e Cia" foi lançado pelo selo juvenil da editora em 2007, e no nosso catálogo era sugerido para o 6º, 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, ou seja, para alunos de 11 a 15 anos. A indicação de cada escola é livre, a Companhia das Letras não tem nenhuma interferência sobre ela.

O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), um específico à "Orientação Sexual" para crianças, jovens e adolescentes. O livro conta ainda com uma seção chamada "Fique esperto", que alerta os adolescentes para situações de abuso, explica o que é pedofilia — mostrando como tal ato é crime —, o que é incesto e até fornece o contato do Disque-denúncia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

Ao contrário do que afirmou erroneamente o candidato à Presidência em entrevista ao Jornal Nacional na noite de 28 de agosto, ele nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto "kit gay". O Ministério da Cultura comprou 28 exemplares em 2011, destinados a bibliotecas públicas.

Como o livro está esgotado, e o seu contrato, expirado, a editora está em contato com os proprietários para avaliação da possibilidade de disponibilizá-lo, novamente, para o público brasileiro.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.