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Ignácio de Loyola Brandão: Nem Deus tem uma resposta para nossa política

Rodrigo Casarin

24/08/2018 10h34

"A televisão do restaurante noticiava que em Copacabana, avenida abandonada no Rio de Janeiro, um homem saiu esfaqueando, feriu 32 pessoas. Reclamações cada vez mais constantes vêm de vários pontos, alertando para um estranho e sutil cheiro de gás no ar, cuja procedência não se sabe. Deixa as pessoas lentas. Atribui-se aos esgotos que explodem. Como não há mais Ministério da Saúde, as denúncias caem no vazio. Uma engenheira que levava o pai para ser operado foi assassinada por ladrões em um cruzamento. Uma grávida foi morta, seu ventre aberto com gilete e o bebê roubado. Balas perdidas já mataram 47 pessoas em uma semana. Jovens grã-finos continuam a apostar quem estoura mais champanhes de 2 mil dólares nas praias exclusivas de ricos em Santa Catarina".

Na política, pedidos de impeachment se tornaram um negócio tão lucrativo – impulsionados pelas compras de votos para se manter no cargo de quem ocupa a presidência – que papéis passaram a ser negociados em bolsas de valores mundo afora. O posto mais alto da nação, aliás, é disputado por nada menos do que 1080 partidos. Como o Ministério da Saúde, não há mais pastas para a Educação, Cultura, Direitos Humanos e Meio Ambiente. Escolas foram abolidas. Comboios com mortos circulam pela cidade, enquanto a segurança é garantida com tornozeleiras eletrônicas que são acopladas nos indivíduos assim que nascem. Todo o onipresente sistema de câmeras, no entanto, é incapaz de fazer com que uma garota estuprada não acabe sendo apontada como culpada pelos policiais por conta das roupas que trajava. Em meio a isso tudo, Clara e Felipe tentam dar um jeito no romance que vivem – ou viviam.

Se em "Não Verás País Nenhum", publicado em 1981, Ignácio de Loyola Brandão entregou ao público uma das distopias mais respeitadas já escritas no Brasil, agora, em seu novo romance, o jornalista e escritor atualiza a sua descrença com a nossa realidade. Em "Desta Terra Nada Vai Sobrar, A Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela" (Global), Ignácio olha para as mazelas, descalabros e absurdos do Brasil de hoje, os amplia e os projeta para um futuro não especificado, que pode ser daqui algumas décadas, mas também pode ser daqui a cinco ou oito anos.

Desde "Zero", outro badalado romance de sua autoria, publicado primeiro na Itália em 1974 e depois no Brasil já no ano seguinte, que Ignácio se especializou em vislumbrar onde o país descambaria se seguisse os caminhos que vinha e vem seguindo. Há doze anos não publicava um romance – o último foi "A Altura e a Largura do Nada" -, mas agora o escritor de 82 anos oferece ao público a sua visão de como as coisas provavelmente serão se rumos não forem alterados. "O que faço é um delírio sobre nossa realidade", diz no papo que batemos na última quarta-feira.

"Não Verás País Nenhum", apontado como uma das grandes distopias já escritas no Brasil, é de 1981. Como é escrever uma distopia agora, décadas depois? O que mudou na hora de empregar essa visão distópica da nossa sociedade?

Quando saiu o "Não Verás…" as pessoas diziam que era ficção científica, mas esclareci que era uma ficção político-burocrata. E digo o mesmo agora. Tudo o que coloquei nesses livros está aí. Mas é o futuro? Sim, é o presente, mas também o futuro. Por isso que sou autor, mexo com o futuro como eu quiser, usando o imaginário.

No começo dos anos 1970 eu morava nas Perdizes e não tinha a menor ideia de meio ambiente, ainda não se falava disso. Na minha rua tinha um ipê-amarelo lindo, de uns 80 anos. Todo mundo gostava daquela árvore, principalmente quando floria. Um dia ele começou a secar e morreu. Ficamos falando: "Vai ver que era velho…". Só que o padeiro falou que toda manhã uma senhora o regava, mesmo quando estava chovendo. Tinha uma amiga no departamento de botânica da USP e perguntei se dava para saber se envenenaram a árvore. Ela mandou um técnico, fez uma biópsia e concluiu que a árvore tinha sido envenenada.

Daí fomos falar com a vizinha, perguntamos se tinha feito aquilo, e ela respondeu: "Claro, essa maldita árvore sempre sujou a minha calçada com suas flores desgraçadas". Isso ficou na minha cabeça: árvore maldita, flor desgraçada… tinha alguma coisa errada. Daí comecei a me interessar por tudo o que era ligado ao meio ambiente, fui pesquisando e um dia sentei para escrever uma história infantil. Veio vindo um monte de coisas: aquecimento global, poluição… E aí fiz o "Não Verás….".

Infelizmente a vida real me copiou, porque fui chutando as coisas.

Não vai só chutando, mas exacerbando as situações. Pega um fato que acontece agora e o amplifica. Em determinado momento, por exemplo, em meio ao caos político de "Desta Terra Nada Vai Sobrar….", um "gestor" olha as pichações numa parede e diz: "Apaguem, isso não é arte".

Exatamente. Vou usando todo o material da realidade, mas jogo para outro tempo para dizer que não é esse tempo. Mas é esse tempo ou é o que vai acontecer. É como o mundo de agora pode estar daqui cinco, dez anos. O que faço é um delírio sobre nossa realidade.

Na história, as "pesquisas foram extirpadas com a extinção total do sistema de ensino"…

A ruína do ensino começou na ditadura. Lá que começou toda essa movimentação para que o ensino público desaparecesse, fosse sufocado ou garroteado. E conseguiram. A ditadura conseguiu reduzir a quase zero e depois os outros da chamada democracia… No livro não tem mais ministério, é o estude se você quiser e se você puder. Eu tenho muito medo disso. Vejo crianças de oito anos que não conseguem ler uma frase, que não sabem fazer contas.

Outro dia, no banco, fui ao caixa e depositei dois cheques de R$120. A moça pegou a maquininha para somar. Aí falei: "Moça, R$240". Ela respondeu: "Não sei, precisa ver na máquina". A coisa é grave. Se não existir o ensino, não tem cidadão. Se não existir cidadão, como fica? Vai ter os 1080 candidatos à presidência. Veja quantos candidatos já temos agora. Você acha que estou exagerando? Eu não. Não é distopia, é a realidade.

As redes sociais, com os compartilhamentos, os likes, têm um papel-chave na obra. Como você acompanha esse mundo digital? É algo que lhe preocupa?

Não trabalho com a rede social, só uso e-mail. Até comecei a usar o Facebook, mas começou a me encher muito o saco: me mandavam fotos de viagens, fotos de festas, lançamentos de livros de pessoas que não conhecia… Depois, pedidos de gente que queria passar três ou quatro dias morando comigo para ver como vive um escritor, de gente que queria passar no meu escritório para ver como eu trabalho… Isso eram trinta, quarenta, cinquenta pedidos, mulheres que queriam encontros… Então fechei a coisa.

E tem o problema de divulgar certas ideias ou mentiras, que é complicadíssimo. Ainda hoje não se sabe se as eleições americanas foram influenciadas pelos russos. Como dominar isso? Intervir aí é censura? O outro dizer que um cara é filho da puta, não merece um processo? Qual tipo de liberdade que temos hoje? E as fake news, que saem a cada segundo? Isso precisa ser discutido e é muito grave. É uma das grandes questões dos nossos dias. Hoje a rede social é um turbilhão, um tsunami.

Ainda na narrativa, a Lava Jato é apontada como uma "série de processos que desmascararam a política corrupta de negociatas e transações ilegais, ainda que permitidas por larga época, cuja sangria foi estancada, abrindo caminho para os atuais governos do país". São governos não exatamente edificantes, diga-se. Como você avalia a Lava Jato?

Deve ter, está expondo. Mas já tem muita gente querendo estancar essa sangria, sangria por eles provocada. Mas está sendo uma tentativa. Só que como não vai ter uma renovação muito grande de Senado, de Câmara, de nada… Três de cada quatro que estão lá vão se candidatar e eles têm a máquina na mão. Como faz pra renovar? Esse livro é essa minha perplexidade. Como renova? Nenhum cientista político tem essa resposta. Se você for cristão, Deus não tem essa resposta.

Nós estamos impotentes, essa é a grande questão. Fiz o livro como forma de combater a minha própria impotência. Mas o que esse livro pode fazer? Não sei.

Num país onde editoras comemoram a venda de três mil livros, a literatura tem força para mudar alguma coisa? Tem alguma importância? Alguma relevância?

Eu acho que tem, porque, se não, nem estaria escrevendo. Acho que você vai iluminando algumas cabeças e quantas ganhar ao longo do tempo, já é uma vitória. A tentativa é de iluminar. O Erico Verissimo tinha uma frase: "O escritor tem que acender uma lâmpada na escuridão; se não tiver lâmpada, acender um lampião; se não tiver lampião, acender uma vela; se não tiver vela, acender um palito, pelo menos tem uma pequena claridade sobre as coisas para que não se viva na obscuridade". Então a literatura pode tirar as pessoas da obscuridade. É utopia? É, mas sem utopia você não faz nada.

A epígrafe do livro traz uma citação de Antonio Candido compartilhada pela neta do crítico: "Nasci em um mundo, me desenvolvi em outro, e agora estou neste terceiro, que não compreendo, do qual não sou parte". Você também se vê dessa forma?

Exatamente. Coloquei porque sinto isso. Eu assinaria no lugar dele. E, como eu, milhares de pessoas, tenho certeza. Estamos vivendo a anormalidade normalizada, como vi recentemente em "Os Sertões", do Euclides da Cunha. É isso: em Canudos tudo tinha ficado vulgar e normal, as pessoas se matando, a barbárie naturalizada. Os alemães achavam que tudo estava normal enquanto o nazismo acontecia. Hoje estamos vivendo assim. Então, tentei retratar a anormalidade na qual vivemos.

Você dedica o "Desta Terra Nada Vai Sobrar…" à sua geração "tão unida e solidária", a nomes como Affonso Romano de Sant'Anna, Antônio Torres, Bernardo Kucinski, Jô Soares, Luis Fernando Verissimo, Marina Colasanti, Nélida Piñon, Raduan Nassar, Silviano Santiago, Zuenir Ventura, João Antonio e Moacyr Scliar. Qual é o seu balanço desse geração?

Na ditadura queríamos fazer a revolução por meio dos livros. Então, foi uma geração que combateu. Sofremos a censura, vimos nossos amigos serem mortos, torturados, exilados. Tínhamos a literatura como uma forma de esclarecer. Esses citados foram pessoas que fizeram isso, mostraram que aquele regime não era o ideal para a nossa vida, para a nossa dignidade. Como esse atual também não é, esse do Temer, que primeiro deu um golpe e depois fez um balcão de negócios para comprar apoio de parlamentares. Não sou dilmista nem petista, mas todo mundo sabe que foi um golpe. O que vem agora?

Exato. O que vem agora? O que espera das eleições deste ano?

Nada. Vai ser uma confusão dos infernos. Principalmente se não resolver essa questão do Lula e se o Bolsonaro não cair nas pesquisas. Mas quem vai pro poder? Ciro? Amoedo? Álvaro Dias? Alckmin? A quem nós vamos ser entregues? Ao Cabo Daciolo?

Tem medo de que voltemos para uma ditadura?

Tenho medo. O Bolsonaro é um autoritário que vai armar as pessoas. Esse país já tem tanta morte sem armamento, imagina com todo mundo podendo comprar uma arma. As pessoas vão matar ainda mais umas às outras na rua. Use a arma e mate quem você quiser, o lema deles é esse, essas besteiras, essas loucuras.

E o que você sente quando vê alguém pedindo a volta da ditadura?

Sinto um medo tenebroso. Os que pedem, talvez, não sabem o que foi a ditadura. E a ditadura foi boa para alguns: a classe média, o empresariado… Mas pega o resto: pega a classe intelectual, a artística, os professores universitários, os escritores, jornalistas, trabalhadores… Não se vivia uma situação econômica tão boa assim e quando termina, vem a inflação de 90% ao ano. E o medo de ver amigo desaparecer, ser torturado, de tocarem a campainha da sua casa…?

Era editor do Última Hora. Lá eu paginava as matérias e entregava pro censor, que dizia o que podia e não podia ser publicado pelo jornal. Uma vez eu perguntei: "Por que isso não pode?" A resposta foi: "Outra pergunta como essa e você vai preso". E os livros proibidos? E as peças? E o teatro? Por que alguém tem que dizer o que posso ou não posso ler? Por que censuram livros, o teatro ou o cinema? Porque têm medo. A ditadura é a ausência total da liberdade de um indivíduo viver sua vida. E a censura é a arma mais importante do poder, é a mordaça.

Seus livros costumam falar, diretamente ou não, sobre o Brasil, sobre nossa ideia de nação, nosso futuro. Qual é a sua relação com o país? O que você sente por essa terra?

Eu gosto do meu país. Gosto muito de quando viajo. Em 2015 eu fiz 82 cidades, passando por feiras e tudo mais; me convidam, eu vou. É um povo impressionante, legal, bom, que às vezes não sabe o que está acontecendo. É um povo criativo, tem muitos professores fazendo um trabalho legal de formação de leitores. E parece que Brasília não existe pra eles, apesar de impactar. Se dessem trabalho, comida e condições boas para esse povo, esse país seria uma potência. Acredito nisso, e acredito porque ando muito.

O lançamento de "Desta Terra Nada Vai Sobrar, A Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela" acontece hoje, dia 24 de agosto, a partir das 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.