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Onde estão os goleiros malucões? Caballero não serve como novo Higuita

Rodrigo Casarin

22/06/2018 07h59

Em “Futebol ao Sol e à Sombra” (L&PM), clássico dos clássicos quando o assunto é livros sobre o esporte, o mestre Eduardo Galeano – que faz muita falta – escreve: “Também chamado de porteiro, guarda-metas, arqueiro, guardião, golquíper ou guarda-valas, mas poderia muito bem ser chamado de mártir, vítima, saco de pancadas, eterno penitente ou favorito de bofetadas. Dizem que onde ele pisa, nunca mais cresce a grama”.

Fala sobre os goleiros, claro. E prossegue: “É um só. Está condenado a olhar a partida de longe. Sem se mover da meta aguarda sozinho, entre as três traves, o fuzilamento. Antigamente usava uniforme preto, como o árbitro. Agora o árbitro já não está disfarçado de urubu e o arqueiro consola sua solidão com fantasias coloridas”.

Fantasias coloridas. Nem isso temos nesta Copa de goleiros comportados demais. Pode até aparecer uma camisa laranja aqui, outra roxa ali, mas nada próximo, por exemplo, ao que Jorge Campos costumava usar quando estava em ação.

Arqueiro do México nas Copas de 1994 e 1998, Jorge era uma referência em estilo, praticamente um Yves Saint Laurent dentro das quatro linhas. Nanico para sua posição – tem apenas 1,68m -, entrava em campo com vestes que pareciam ter sido emprestadas pelo seu irmão mais velho e gigante. Sobrava pano para tudo que é lado; quando abria os braços, mais parecia vestir um poncho. Não bastasse o corte e a modelagem ousados, a estampa de seus uniformes também eram singulares: sempre um festival de cores chamativas e desenhos improváveis, uma psicodelia única.

E Jorge Campos não era apenas um goleiro, mas às vezes se metia a jogar na linha. Batedor de pênaltis, dono de um passe razoável e bastante abusado, foi escalado como atacante em alguns times por onde passou; se já havia alguém bom e confiável sob as traves, colocavam o baixinho no ataque. Ao longo da carreira, assinalou 40 tentos.

Jorge fez parte de uma ótima geração de goleiros malucões. O maior deles, claro, foi o colombiano René Higuita, outro que adorava jogar com os pés, famosíssimo pela defesa escorpião em um amistoso contra a Inglaterra em pleno Wembley: deixou a bola passar sobre sua cabeça, jogou o corpo pra frente e evitou o gol batendo com os dois calcanhares na pelota, quando ela ainda estava numa altura considerável. Épico.

Higuita rompeu com a condenação vaticinada por Galeano: não se contentava em olhar a partida de longe, em ficar na meta aguardando o fuzilamento. Avançava junto com o time, atuando próximo ao círculo central como se o campo fosse uma mera quadra de futsal. Com a bola sob seu domínio, adorava tentar dribles e arrancadas que às vezes só terminavam na intermediária adversária. A ousadia cobrou o preço na Copa de 1990, quando, nas oitavas, foi tentar dar um corte no camaronês Roger Milla para limpar a jogada – que poderia ter sido resolvida com um simples, mas nada mágico, passe para o zagueiro que estava ao seu lado. Perdeu a bola e tomou o gol que abriu caminho para que os africanos chegassem às quartas.

Esquentado, espalhafatoso, um tanto gordinho e também goleador, o paraguaio José Luiz Chilavert é outro integrante dessa nobre esquadra de goleiros com um parafuso a menos. Fez parte da histórica campanha do Paraguai na Copa de 1998 – eliminado pela França nas oitavas, no último minuto da prorrogação. Vieram outros, claro. Oliver Kahn, goleiraço alemão de 2002, fazia o tipo xarope-agressivo, que até mordia adversários. O turco Rustu Recber, dos riscos negros pintados na face, também tinha seus repentes descompensados e quase eliminou o Brasil na campanha do penta.

Mas se as Copas de 1990, 1994 e, vá lá, 1998 traziam a promessa de goleiros tresloucados como uma regra no futebol, esse maravilhoso cenário minguou. Fora 2002, o que tivemos nos torneios deste século? Um também pequeno, estabanado e espalhafatoso Johnny Herrera, chileno que veio ao Brasil cumprindo regime aberto após ser condenado à prisão por dirigir bêbado? É pouco.

A coisa foi rareando até chegarmos ao cenário desolador que temos hoje: um bando de arqueiros comportados, alinhados – alguns até com pinta de galã, pelo que vejo mulheres comentando por aí -, cumpridores de seus deveres, que só tentam algo diferente quando estão na boa, que não têm a ousadia no DNA. Coisa mais chata. Onde foram parar os goleiros malucões? Nem peço um Jorge Campo ou um Higuita. Um como o sueco Thomas Ravelli e sua dancinha encarando a câmera em 1994 já estava de bom tamanho. E nem me venham falar em Caballero por conta da lambança que ele fez contra a Croácia, o argentino não tem nada de xarope, é só grosso mesmo.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.