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Renato Russo quis marcar shows em dias de jogos do Brasil na Copa de 1994

Rodrigo Casarin

21/06/2018 08h10

O senso comum diz que não se deve marcar nada em dias de jogos do Brasil na Copa – enquanto o bom senso prega que não se marque nada para o horário de qualquer jogo da Copa, mas isso já é outra história. Só que nem todos pensam assim, sabemos (e lamentamos).

Apesar de se declarar torcedor do Fluminense, Renato Russo pouco ligava para futebol. Contudo, entre não ligar e querer promover grandes eventos em dias de jogos da seleção brasileira existe uma grande distância – ou deveria existir. Em "Memórias de um Legionário" (Mauad), livro no qual Dado Villa-Lobos repassa suas lembranças com auxílio dos coautores Romulo Mattos e Felipe Demier, o guitarrista conta como foi planejada a turnê de lançamento de "O Descobrimento do Brasil", que aconteceu em 1994, com shows que poderiam casar com partidas da Copa dos Estados Unidos:

"Começamos a excursão perto do começo da Copa do Mundo. O Renato dizia que não estava nem aí para a ideia de sermos o país do futebol, e pedia para que os shows fossem marcados nos dias de jogos do Brasil. O Rafael [Borges, empresário da banda], é claro, ignorava esse pedido, porque percebia que o Renato voltava à sua habitual rejeição à estrada. Excursionar pelo País na época da Copa já era de certa forma ousado, porque obrigava o público a suspender o estado de euforia com as vitórias do nosso time nos estádios americanos. E o Renato queria competir com a Copa ou mesmo desafiá-la. Lembro que cheguei a assistir a certos jogos da Seleção em quartos de hotel, sem companhia alguma".

Bom, a turnê aconteceu, bem como o tetracampeonato, o que proporcionou uma situação que deve ter sido memorável mesmo para quem não liga para futebol. Já em outubro, em um show no Rio de Janeiro, os legionários tiveram uma ilustre presença na plateia, conforme lembra Dado: "O Pelé estava no camarote, e ouvimos cerca de 8 mil pessoas gritando para ele: 'Tetracampeão'".

No ano passado, quando visitei a exposição sobre o compositor que estava em cartaz no MIS, em São Paulo, um pequeno texto me chamou a atenção, um achado nessa distante relação entre Renato e a bola. No escrito, o futuro cantor falava sobre a Copa do Mundo de 1970: "O Estádio Azteca estava cheio. Mais de dez mil pessoas estavam atentas esperando a abertura. E também esperavam o jogo. México versus Rússia. O jogo deu zero a zero, pois ambos países tinham defesa linda mais ataque fraco".

A redação, escrita no dia 3 de junho, durante o primeiro mundial em terras mexicanas, levou o nome de "A Copa do Mundo", tão singelo quanto as palavras que registrei acima. Não surpreende. Renato nasceu em março de 1960 e, durante a competição de 1970, estava ali com seus 10 anos, deixando sua visão ternamente infantil sobre o assunto – atribuir um 0X0 a lindos sistemas defensivos é de uma sensibilidade e ingenuidade típicos dos pequenos.

No texto, Renato ainda falou sobre dois outros jogos, um deles da seleção brasileira: "No primeiro tempo, Bulgária estava forte e Peru fraco. Mas depois, no segundo tempo, Peru ganhou de três a dois. O jogo de hoje foi Brasil versus Tchecoslováquia. O vitorioso foi Brasil, ganhou [de] quatro a um".

Em "O Livro das Listas" (Companhia das Letras), volume que reúne muito das anotações que Renato fez ao longo da vida, só encontrei uma breve menção relacionada ao esporte. Na relação intitulada "Pessoas que Admiro (Da Minha Geração)", feita no começo da década de 1990, aparecem nomes como Lindbergh Farias, Bia Lessa, Frejat, Arnaldo Antunes, Cássia (provavelmente a Eller) e uma dupla de boleiros: "Renato Gaúcho & Gaúcho" – o primeiro dispensa apresentações, o segundo foi um centroavante de diversas passagens pelo Flamengo.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.