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Há tantos escritores fenomenais no mundo para justificar um Nobel por ano?

Rodrigo Casarin

04/05/2018 09h47

É claro que as circunstâncias (denúncias de abuso sexual) são lamentáveis e é preciso que haja investigação séria e punição severa aos possíveis culpados, mas não entregar o prêmio de Literatura deste ano pode acabar sendo uma boa para o próprio Nobel.

Não é de hoje que o galardão precisa dar uma respirada. Das últimas cinco escolhas, apenas a de Alice Munro, em 2013, parece ter se tornado praticamente uma unanimidade: hoje é difícil achar alguém por aí que discorde da honraria concedida à canadense. Já as quatro escolhas mais recentes (Patrick Modiano, Svetlana Alexievich, Bob Dylan e Kazuo Ishiguro) costumam gerar discórdias no meio literário. Muitos consideram que a distinção jamais deveria ir para um músico (Dylan) ou uma jornalista (Svetlana), outros avaliam que a obra de Kazuo não é potente o suficiente para ter sido nobelizada e Modiano me parece tão insosso que ninguém nem lembra dele na mesa do bar. Da minha parte, questiono especialmente a escolha de Svetlana, não por considerar que jornalismo não possa ser literatura, mas por achá-la formalmente repetitiva (falo mais sobre isso aqui).

Não deve ser fácil a vida dos membros da Academia Sueca na hora de apontar um Nobel de Literatura, no entanto. A premiação tomou um tamanho gigantesco e hoje, para o grande público, dizer que tal escritor recebeu a distinção significa que sua qualidade é praticamente inquestionável. E temos tantos autores tão inquestionáveis assim pelo mundo para justificar que todo ano um deles seja agraciado?

Olhando para as falhas do Nobel, talvez possamos dizer que sim, afinal, como explicar que colossos como Tolstói, James Joyce, Jorge Luis Borges e Philip Roth, este ainda vivo e no páreo, nunca foram nomeados pelos suecos? Se levarmos em conta que boa parte das línguas do mundo são aparentemente ignoradas pelo comitê – e, consequentemente, potenciais gênios que escrevem nessas línguas só terão chances se forem traduzidos para idiomas mais centrais -, talvez tenhamos um indício de que o Nobel realmente poderia honrar seu peso caso olhasse, de fato, para toda diversidade literária do planeta (algo humanamente impossível, ao menos com o formato enxuto atual, convenhamos).

Agora, como apontei acima, se nos limitarmos às escolhas que vêm sendo feitas, talvez a pausa forçada seja uma boa oportunidade para que o Nobel repense a sua premiação para a Literatura, em que pese os desejos deixados por Alfred Nobel. Até para honrar a sua relevância e ganhar ainda mais importância por meio do "marketing da escassez", poderia ser interessante termos a premiação somente a cada dois, três ou quatro anos. A oportunidade para se pensar numa mudança dessas está dada.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.