Blog Página Cinco

Mulher de Jesus? Prostituta? Quem foi, afinal, Maria Madalena?

Rodrigo Casarin

13/04/2018 10h44

Reconstrução facial de Maria Madalena.

“Maria Madalena – Da Bíblia ao Código Da Vinci”, livro do historiador Michael Haag recém-publicado no Brasil pela Zahar, tem potencial para fazer espumar de raiva os católicos fervorosos, aqueles que mais abraçam os mitos da Igreja do que se preocupam em tentar entender como foi, de fato, a vida de Jesus. Isso porque em muitos momentos o estudioso contrapõe as duas Marias que tiveram papel marcante na vida do homem que se transformou em um dos maiores líderes de todos os tempos: Maria, a “virgem”, e Maria Madalena.

Em instantes decisivos da obra, Haag mostra que, conforme Jesus cresce, o papel da Maria mãe em sua vida diminui drasticamente, enquanto Maria Madalena está presente em momentos cruciais: está na crucificação do seu mestre, no enterro, na ressurreição… Conforme aponta o historiador, a imagem que temos da “imaculada” vem da maneira que a Igreja manipulou a história e construiu o mito, não das páginas bíblicas.

“Sua fama e o culto que a rodeia, sua perpétua virgindade, os relatórios da sua assunção, seu título de Mãe de Deus, estes e muito mais surgiram séculos depois e não são encontrados na Bíblia […], onde ela é uma mulher um tanto irritante, que não tem compreensão do que seu filho está prestes a fazer […]. Ela é uma figura bíblica relativamente menor que foi transformada em um grande culto – enquanto Maria Madalena, a mulher que conhecia Jesus, foi transformada em prostituta”, relata Haag no começo da obra.

Já no final, volta à comparação e escreve que a Maria mãe é “totalmente desumana e completamente irreal”, que serve para que a Igreja mantenha o “culto da virgindade e a sua proibição de contracepção; e também a noção de que as mulheres são subordinadas aos homens e nunca podem ser parte do sacerdócio”. Enquanto isso, Maria Madalena “move-se com o tempo, ou melhor, às vezes os tempos invocam Maria Madalena. Sua força de caráter existe nos evangelhos e, talvez, uma corrente de sensualidade também – e, embora ela ainda não tenha se livrado de sua falsa reputação como uma pecadora, isso é um acréscimo à sua humanidade”.

Maria Madalena por Donatello.

Possível casamento

No entanto, como o título entrega, em “Maria Madalena” não é a mãe de Jesus que está no cerne, mas aquela que talvez tenha sido sua esposa e que ao longo do tempo foi tratada de formas diversas tanto pela história oficial contada pela Igreja – que, mais uma vez, constrói a mitologia católica, mas muitas vezes se distancia absurdamente do que podemos reconstruir como história factual – quanto por seus devotos – sim, a mulher que acompanhou Jesus em sua jornada junto com os apóstolos já foi adorada por muitos.

Fazendo uma análise minuciosa dos evangelhos – inclusive os apócrifos – e se baseando em outros documentos históricos, Haag caminha pelas trilhas de fatos, probabilidades e imagináveis ações que Jesus e seus parceiros e parceiras fizeram no Oriente Médio – e um dos fatos é que Maria Madalena era uma dessas pessoas que acompanhavam o líder por suas andanças. Em um segundo momento, mostra como a história foi se desenvolvendo conforme os interesses da Igreja – e também conforme as crenças de diversos braços rebeldes do catolicismo.

Dessa forma, ao falar do possível matrimônio entre Jesus e Maria Madalena, lembra que vários dos discípulos de Jesus eram casados e que não há nada no Novo Testamento que diga que Jesus nunca se casou, algo que teria sido incomum para alguém com mais de 30 anos na época em que viveu.

“Jesus era descontraído em relação a abluções rituais e dieta; ele dizia ironicamente que era ‘um comilão e beberrão’ (Mateus 11:19; Lucas 7:34); gostava de comida, bebida e boa conversa; era espirituoso e afiado; sentia-se à vontade com as mulheres; e se autodepreciava, mas tinha uma intensidade e uma aura que o faziam muito atraente. Fossem Jesus e Maria Madalena casados, isso explicaria a intimidade entre eles, sua companhia constante, sua presença na crucificação e, sobretudo, a sua visita à tumba no terceiro dia levando especiarias para ungir seu corpo nu, uma tarefa assumida por uma esposa”.

Graças ao livro que fiquei sabendo, aliás, que visitar tumbas nos dias seguintes ao sepultamento era, mais do que uma tradição, uma espécie de aferição da morte. “Isto era para se ter a certeza de que o corpo estava realmente morto. A prática de apressadamente sepultar uma pessoa antes do pôr do dol no dia da sua morte trazia o risco de se cometer um erro por causa da pressa; havia o perigo de se enterrarem pessoas vivas, Parentes vinham pra ver se os mortos tinham tornado à vida”.

Maria Madalena por Correggio.

Prostituta?

E em que momento Maria Madalena passa a ser encarada como uma prostituta? Haag não pode ser mais claro nesse ponto: é quando o papa Gregório I, o Grande, pronuncia a 33ª Homilia, no ano de 591. Em seu discurso, o mandachuva faz uma massaroca descontextualizada de versículos para manipular a história conforme o interesse da entidade que representava. Pega uma passagem bíblica que fala que Maria Madalena estava possuída por “sete demônios”, por exemplo, e indica que isso seria uma espécie de presença inequívoca do capiroto em seu corpo, não demônios comuns à época (comuns até hoje, na verdade) e a outras pessoas que acompanhavam Jesus, como doenças ou algum tipo de tormento.

As palavras de Gregório vieram em um momento no qual a Igreja fomentava a doutrina em torno da virgindade de Maria e passava a condenar o sexo. Se há vertentes da história que pregam que Jesus é fruto de um caso de adultério de Maria, que deitara com um soldado chamado Pantera, isso deveria ser suprimido da mitologia, bem como deveria ser suprimida qualquer menção que abra brecha para imaginarmos relações sexuais e matrimoniais do próprio Jesus. Dessa forma que a narrativa que se manteve durante os séculos seguintes foi forjada, indica o historiador.

Mas Maria Madalena, sabemos, continuou habitando o imaginário dos católicos e da população em geral, como mostra esse trecho no qual Haag fala de sua presença no Renascimento: “Maria Madalena como uma penitente era muito importante e útil para ser abandonada. Pinturas de Maria Madalena proliferaram, sua inocência a desculpa para a sua nudez, sua sensualidade por demais sedutora para se descartar. Tanto a Reforma quanto a Contrarreforma confirmaram a Maria Madalena penitente, nua e em êxtase, deleitando-se em sua caverna em Sainte-Baume, como uma popular e aceitável pin-up religiosa – uma imagem que permanece na mente ocidental até hoje”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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