PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

“O mundo não está fazendo novos leitores”, alerta Pedro Herz

Rodrigo Casarin

04/04/2018 10h55

Foto: Rodrigo Braga/ Revista da Cultura.

Em "O Livreiro" (Planeta), autobiografia na qual repassa sua vida na direção da Livraria Cultura, uma das maiores redes do país, Pedro Herz também recorda que sua família veio para o Brasil fugindo do nazismo. Levando isso em conta, mostra-se preocupado com este momento no qual tantos países flertam (para usar uma palavra comedida) com o extremismo. "Ninguém inventou nada melhor do que a democracia, na minha opinião. A convivência prática que temos aqui em São Paulo, na 25 de Março, por exemplo, é muito legal. Hoje tem um diálogo inter-religioso que é praticado aqui da maior importância. O caminho para conflitos eventuais é o diálogo, não há outra solução", diz na entrevista abaixo.

Prestes a completar 78 anos, Pedro é hoje presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura, Fnac Brasil & Estante Virtual. A primeira empresa da lista ele viu nascer de forma modesta, na sala de estar da casa dos seus pais, conforme conta na obra. As outras duas foram adquiridas recentemente, após a própria Cultura passar por um momento de severa crise – que abrandou, mas ainda não deixou de existir.

Na conversa que tivemos em seu escritório na avenida Paulista, falamos bastante sobre o livro enquanto negócio. Para Pedro, "a grande mudança que está acontecendo é no varejo" e "a crise que existe no setor é a crise de não leitores. O mundo não está fazendo novos leitores". Além do sistema de educação capenga, os próprios pais são parcialmente culpados por isso. "Se você não lê, como quer que seu filho leia?".

O livreiro também se mostra reticente com o caminhar da tecnologia. Para ele, talvez estejamos próximos de alguma estagnação nesse campo. "No Brasil tem uma coisa: ou você cresce ou você fecha. Você não aguenta ser pequeno, é sempre empurrado para a tecnologia. Em países menos jovens, o andar da carruagem é mais lento. Hoje em dia eu questiono um pouco se o boom da tecnologia está no fim. A tecnologia avança numa velocidade que o comportamento humano não acompanha, ele é mais lento".

Mas não pense que Pedro é alguém avesso às ferramentas mais modernas, longe disso. Se hoje a loja digital é a principal da Livraria Cultura, ele mesmo toca iniciativas na web, como os programas de Youtube Sala de Visita e o ainda inédito Vida Conectada. "Já gravei dois pilotos, a ideia é discutir sobre a inteligência artificial e a humana, por exemplo. O primeiro foi com um professor de mecatrônica falando de inteligência artificial e o [psicanalista] Contardo Calligaris falando sobre a inteligência humana. Deve ir ao ar em maio".

No livro você fala de construir a noção exata do que fazia como livreiro. O que é exatamente essa noção?

Passei principalmente a entender a importância de ouvir. Às vezes o comprador chega com uma informação completamente errada sobre o livro que quer, até da cor da capa. Temos que prestar muita atenção nessa informação incompleta. É preciso entender o que o leitor está falando. Mesmo porque já perdi até amigos por indicar um livro que adorei.

Sério? Qual foi?

"Cem Anos de Solidão", do García Márquez. Meu amigo ia sair de férias e perguntou qual livro deveria levar. Pronto, fiquei sem o amigo. O cara voltou querendo me encher de porrada. Disse que perdeu as férias por minha causa. Era um cara dos seus 25, 30 anos, mas ficou muito bravo comigo. Ele poderia ter largado o livro, pô. Essa é a vantagem do livro, ele tem personalidade própria: uns gostam, outros não. E tem livros que o autor chama você de idiota logo de cara. Essa é a grande maravilha do livro, a coreografia é toda tua, o cara descreve um personagem e você que o desenha.

Isso me faz lembrar de quando li e vi "Harry Potter". As imagens que tinha na cabeça eram completamente diferentes do que fizeram no cinema.

É incrível o que essa mulher, a [J. K.] Rowling, conseguiu fazer, criou um universo enorme de leitores. Ela merece todos os prêmios do mundo por isso. Conheço pais que foram leitores, hoje têm filhos e vêm em fã-clubes vestidos com toda indumentária de "Harry Potter". Na minha opinião é um clássico.

Por falar nisso, no livro você também comenta sobre pais que não servem de exemplo para seus filhos enquanto leitores. Eu mesmo tenho amigos que não leem nada, mas querem que seus filhos leiam tudo, principalmente o que a escola pede. Se o pai não lê, como e por que quer que os filhos leiam?

Essa é a pergunta que deveria encabeçar a propaganda publicitária que todo governo tinha que fazer: se você não lê, como quer que seu filho leia? Meus filhos pegavam livros sem ser alfabetizados, para imitar o gesto. Ficavam lá, com o livro de ponta cabeça.

E é incrível como o livro tira uma criança da rua. Costumo colocar livros machucados atrás do banco do carro, aí dou para crianças que vêm pedir alguma coisa. Em instantes ela está sentada na calçada e logo chegavam mais três ou quatro para olharem o livro com ela.

"Pude perguntar à agente literária Lucia Riff o que deveríamos saber, e ela poderia nos contar, sobre uma negociação disputada de direitos autorais", você escreve em "O Livreiro" quando lembra do Contexto, programa de entrevistas que apresentava. O que deveríamos saber de uma livraria e você pode nos contar?

Uma coisa que é engraçada é que quando o cara pega o livro, você identifica quem é leitor e quem vem encher o tempo. Ele não é obrigado a nada, a livraria está aí para todos, mas há a questão da educação. Tem pessoas que escondem o livro, outros que maltratam o livro, que riscam o livro… A má educação é a coisa que mais incomoda nas livrarias.

Já teve algum caso que você precisou se segurar, respirar fundo…?

Já fui muito agredido, muito agredido. Já vi uma cena de furto em que o cara começou a gritar: "você acha que sou ladrão?". Não acho nada, mas é no mínimo engraçado pegar um negócio e enfiar no bolso.

Também fui muito agredido quando tivemos a tragédia do rapaz que levou uma paulada na cabeça [relembre do caso aqui]. Aí um moço chegou pra mim e perguntou onde pegava o capacete para entrar na livraria. Isso dói em mim até hoje, dói muito. Mas acontecem muito mais coisas bacanas do que ruins, como os conhecidos que fiz, gente que virou amigo. Fiz bons amigos e isso valeu todos desgostos pelos quais já passei.

Foto: Rodrigo Braga/ Revista da Cultura.

Outro trecho do livro: "Em nossos testes de seleção, se perguntamos qual o autor do romance 'Dom Casmurro', uma parte dos candidatos pode ser eliminada, acreditem. Porque hoje a fonte de saber das pessoas é o Google, a pesquisa rápida, superficial, algo que não diz respeito a um processo de formação verdadeiro". Houve uma mudança no perfil das pessoas que procuram trabalho na livraria?

Sim, e infelizmente para pior. É reflexo da educação. O Brasil, a cada dia que passa, tira notas piores na escola. Escola no Brasil é construir quatro paredes e um telhado, não formar bons professores que sejam dignamente remunerados e que transmitam o saber, que deveria ser o principal.

E como é ter uma rede de livrarias em um país que tem esse problema na educação?

Sei lá [responde de forma introspectiva].

Se parar pra pensar, fecha as lojas?

Exatamente, você deu a resposta. Somos impulsionados a fazer alguma coisa. Há um reconhecimento muito legal do nosso trabalho e somos levados a fazer as coisas. Tivemos e ainda passamos por um momento de crise muito difícil. E dessa vez não há investimento em livros para ajudar o país a sair da crise, o que é um absurdo. Sempre há livros que te ajudem a sair de qualquer crise, afetiva ou material. O livro é uma ferramente utilíssima.

A crise que existe no setor é a crise de não leitores. O mundo não está fazendo novos leitores. O problema é realmente achar tempo para consumir livros. Além disso, ler, para mim, é ouvir, e isso não se consegue mais. Agora todo mundo está falando, mas não se ouve mais. É preciso ficar calado e ler, ouvir, o que o outro escreveu. Mas as pessoas não conseguem mais ficar caladas nem no cinema, nem num concerto na Sala São Paulo, estão sempre com o celular nas mãos falando alguma coisa [nesse momento Sérgio faz sinal de quem digita uma mensagem no aparelho].

Vejo pequenos editores que se queixam do formato de negócio da Livraria Cultura junto a eles. Dizem que muitas vezes não vale a pena deixar o livro sob consignação ou ter que levar um único exemplar até o centro de distribuição, por exemplo. Como vê isso?

Isso é uma característica de qualquer produtor de qualquer coisa, não é exclusividade do livro. A grande mudança que está acontecendo é no varejo. O varejo, de modo geral, será um showroom onde o cliente vai ver, tocar, sentir o produto, seja lá qual for o produto. Quando ele decidir o que quer, aí vai procurar onde comprar mais barato. Há uma mudança grande aí: ele não vai mais chegar na loja e sair carregando o produto. E alguém terá que pagar para expor seu produto numa loja, qualquer que seja, porque, se não vou vender, a exposição será cobrada.

Ao longo da autobiografia você fala bastante da Amazon. Como a enxerga? Simples concorrente? Uma ameaça a todas as outras? Alguém com quem aprender? Tudo isso junto?

Hoje eu sou um cliente da Amazon. Concorrentes eles são também, claro. E enxerguei por que a Amazon começou com livros: porque o leitor consome tudo o que eles têm. O leitor come, bebe, compra camiseta, tênis… O inverso não é necessariamente verdadeiro. O cara que bebe vinho ou compra camiseta não necessariamente lê. Foi extremamente inteligente, aplausos pra eles.

Sua história pessoal é marcada pelo nazismo, sua família vem pra cá fugindo das atrocidades de Hitler. Olhando pro mundo de hoje, tem medo de que algo semelhante ao que ocorreu na Europa nas décadas de 1930 e 1940 aconteça?

Tenho. Essas coisas radicais estão crescendo no mundo todo, até nos Estados Unidos. O cara querendo fazer muro é um negócio meio maluco. Aqui, não posso concordar com um discurso político como o do Bolsonaro. Ninguém inventou nada melhor do que a democracia, na minha opinião. A convivência prática que temos aqui em São Paulo, na 25 de Março, por exemplo, é muito legal. Hoje tem um diálogo inter-religioso que é praticado aqui da maior importância. O caminho para conflitos eventuais é o diálogo, não há outra solução.

Você também presenciou muito da repressão cultural que existiu durante a ditadura. Vê essa repressão voltando?

Começa-se a cutucar isso: o que pode, o que não pode… Não se deve deixar que isso progrida. É preciso aprender a conviver com opiniões diversas e adversas, e acho que o exemplo mais bacana disso é uma livraria ou biblioteca, onde opiniões diversas e antagônicas convivem lado a lado.

E como você se sente vendo tudo isso voltando prestes a fazer 78 anos?

O ânimo ainda está grande, viu. Está maior. Mas que marcha à ré, né!?

Gostou? Você pode me acompanhar também pelo Twitter e pelo Facebook.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.