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Pesquisador aponta dez das capas mais icônicas da história do livro no país

Rodrigo Casarin

13/03/2018 10h31

Qual é a sua capa de livro inesquecível? Pessoalmente, tenho grande simpatia pela “cara” azulada da primeira edição de “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares, e de uma edição publicada na década de 1990 de “Entre os Vândalos”, do Bill Buford – os dois livros são da Companhia das Letras e marcaram minha trajetória enquanto leitor.

Para falar justamente sobre capas de livros nacionais que o bibliófilo Ubiratan Machado passou mais de quatro anos realizando pesquisas em diversos acervos e bibliotecas. O resultado do trabalho pode ser conferido em “A Capa do Livro Brasileiro”, publicação da Ateliê Editorial em parceria com o Sesi-SP que apresenta ao leitor cerca de 1700 capas selecionadas por Ubiratan. Mais do que uma coletânea, a obra traz um panorama histórico das capas no país entre os anos de 1820 e 1950 – o recorte de tempo se mostrou necessário por conta da quantidade de material acumulada durante os estudos. A pedido do blog, o autor elencou as dez frontes que ele considera mais icônicas:

“Monitoria Secreta”: “É a primeira capa de livro brasileiro conhecida. Até a década de 1820 – em todo o mundo, não apenas no Brasil, – o livro saia da tipografia no miolo, tendo como primeiro elemento visual a folha de rosto. Nesta década, surgiu a capa de brochura, reproduzindo a folha de rosto, mas num papel mais encorpado, com a finalidade de proteger o livro. Aos poucos, a ela foram sendo incorporadas cercaduras e vinhetas, distinguindo-as da folha de rosto”.

“Vida e Feitos do Dr. Semana”: “É a primeira capa de livro brasileiro desenhada, pois até então todas as capas eram gráficas. O livro foi editado em 1870, com desenho de Henrique Fleuiss. Nela vemos o Dr. Semana, personagem da revista Semana Ilustrada, muito popular à época, tendo ao seu lado o moleque que sempre o acompanhava”.

“Os Segredos do Futuro”: “Essa magnífica capa de Kalisto expressa, com vivacidade e graça, uma visão de vida tipicamente brasileira, as figuras admiravelmente observadas e recriadas, a crítica maliciosa ao costume de se sondar o futuro. A figura do mago, ao lado da cena principal, com seu traje típico e sua pose meditativa, é de um cômico irresistível. Observe-se que os personagens são sete, número místico bem em sintonia com o ambiente”.

“Paulicea Desvairada”: “O livro de Mário de Andrade foi lançado em 1922, mesmo ano da célebre Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, que tanto irritou os conservadores. A capa desenhada por Guilherme de Almeida, com os losangos coloridos, provocou reações violentas. Um crítico chegou a compará-la com a capa de um manual de tinturaria”.

“Fascinação”: “J. Carlos está para as artes gráficas brasileiras como Machado de Assis para a literatura. Neste trabalho admirável, de extrema delicadeza, ele apresenta uma espécie de cornucópia de velhos símbolos da felicidade humana, os castelos como reinos de fantasia ilimitada, as estrelas, a fertilidade da terra, o idealismo representado pelos cavaleiros andantes, tudo adoçado pelo sorriso irresistível das mocinhas em flor. Para mim é a mais bela capa da década de 1940”.

“Arranha-céu”: “O edifício de muitos andares, comercial ou residencial, batizado na época de arranha-céu, foi um dos símbolos do progresso na década de 1920. O Brasil se civilizava. Esse espírito moderno está muito bem representado, e exaltado, no desenho de Di Cavalcanti, contrastando a rotina do cotidiano (com os homens enchapelados e a figura graciosa da melindrosa) com a mitificação do progresso, representado pelos edifícios ao fundo”.

“A Menina do Narizinho Arrebitado”: “Primeiro livro de literatura infantil de Monteiro Lobato, é uma obra-prima em todos os aspectos: no texto, na apresentação gráfica, na capa e nas ilustrações internas de Voltolino, desenhadas com deliciosa criancice”.

“Crime e Castigo”: “Tomás Santa Rosa foi o grande renovador da capa do livro brasileiro, a partir da década de 1930. São muitos os trabalhos de sua autoria que poderiam ser selecionados. A capa de Crime e Castigo é absorvente, como um pesadelo, mostrando Raskólnikov após matar a velha, tendo ao fundo as torres bulbosas de uma igreja de São Petersburgo. Na cena palpita alguma coisa da alucinação dostoievskiana”.

“Clarissa”: “A capa de Clarissa é um documento das mudanças vividas pela capa do livro na década de 1930 e um atestado vivo da força que o cinema exercia. Érico Verissimo solicitou ao capista do livro, João Fahrion, que desenhasse a sua personagem, na capa, com as feições de Sylvia Sidney, atriz de Hollywood muito popular à época”.

“Zé Brasil”: “A segunda edição do libelo político de Monteiro Lobato, uma denúncia das mazelas políticas e das injustiças sociais no Brasil, traz uma esplêndida capa de Candido Portinari, que lembra os seus melhores quadros representando as misérias e dificuldades do povo brasileiro”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.