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Página Cinco

T. Leifert ignora história ao pedir que esporte e política não se misturem

Rodrigo Casarin

26/02/2018 22h09

Alemanha, 1936. Em pleno regime nazista, Jesse Owens, um negro dos Estados Unidos, fica com quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas e esfrega no bigodinho de Hitler que o papo de superioridade ariana é uma gigantesca asneira.

Olimpíadas do México em 1968. Tommie Smith e John Carlos, atletas dos Estados Unidos, ficam com a primeira e a terceira colocação nos 200 metros rasos. No pódio, na hora do hino, inclinam a cabeça para baixo, erguem um dos braços e cerram o punho, reproduzindo o gesto dos Panteras Negras. A imagem (acima) se tornou uma das mais marcantes da história dos jogos.

México de novo, agora em 1986. Argentina e Inglaterra disputam uma vaga na semifinal da Copa do Mundo. Maradona faz uma pintura de gol driblando meio time inglês. Marca também o segundo, este com a mão. O gol mais bonito e o gol mais sacana da história das Copas são potencializados por um fator extracampo: as nações viviam um momento de grande rivalidade por conta da guerra travada nas Malvinas.

Brasil, 2014. Karim Benzema, atacante francês na Copa do Mundo, opta por ficar calado enquanto o hino de seu país é tocado. É um protesto contra versos a seu ver xenófobos presentes na letra. Para Benzema, filho de imigrantes argelinos, o problema está principalmente em "às armas, cidadãos / formai vossos batalhões / marchemos, marchemos! / que um sangue impuro / banhe o nosso solo".

Coreia do Sul, 2018. Randi Heesoo Griffin marca o único gol da Coreia na partida de hóquei contra o Japão durante das Olimpíadas de inverno. O tento solitário é histórico: depois da guerra seguida por uma severa ruptura que dura décadas, aquela seleção trazia atletas das duas Coreias: gente do Sul e gente do Norte vestiam o mesmo uniforme e defendiam uma mesma bandeira.

Todos esses são momentos emblemáticos do esporte. Também são, de alguma forma, momentos políticos. Pelo visto, o apresentador Tiago Leifert torceu ou torceria o nariz ao assisti-los. Digo isso porque circulou hoje um texto no qual Leifert defende que esporte e política não se misturem. Para ele, esporte deve ser apenas entretenimento – e, pelo que argumenta, entretenimento precisa ser necessariamente abobalhado, intelectualmente apartado do mundo ao qual pertence. É uma posição que contraria a própria história do esporte, como mostrei acima, algo que Leifert, projetado nacionalmente como jornalista esportivo, conhece bem, creio.

No texto, publicado pela revista GQ, Leifert cita o caso de Colin Kaepernick para exemplificar como seria melhor se esporte e política ficassem longe um do outro. Jogador de futebol americano, Kaepernick se ajoelhou durante o hino dos Estados Unidos para protestar contra a forma que negros são tratados pela polícia e, como consequência, acabou ficando desempregado. Pela linha de raciocínio, é fácil imaginar o apresentador lamentando ao ver o time do Corinthians entrar em campo com a faixa "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia" em 1983, na final do Campeonato Paulista, e criticando a Democracia Corintiana: "E daí que o país está numa ditadura militar? Agora é hora de entretenimento. Casagrande, Sócrates… caras chatos esses viu". Capaz até se sugerir que os ídolos também fossem chutados para fora do Parque São Jorge.

São diversos os exemplos de bons livros que tratam da íntima relação entre política e esportes, cito três. Em "A Luta" (Companhia das Letras), de Norman Mailer, temos uma excelente reportagem sobre a batalha entre Muhammad Ali e George Foreman, um dos maiores duelos da história do boxe, travado no Zaire (atual Congo) em 1974. Numa época em que os Estados Unidos fervia politicamente e ideologicamente, Ali e Foreman representavam, por conta de suas posturas e convicções, polos opostos dos ideais conflitantes da sociedade norte-americana. Em "Futebol e Guerra" (Zahar), Andy Dougan lembra como a equipe do F. C. Start (o Dínamo de Kiev com outra roupagem) se recusou a perder uma partida para um time formado por nazistas, mesmo com os jogadores sabendo que tal resistência provavelmente custaria suas vidas. Já em "Como o Futebol Explica do Mundo" (também da Zahar), de Franklin Foer, temos uma exposição de como o futebol serve a diversas ideologias políticas ao redor do globo.

Todos os casos citados, seja na abertura do texto, sejam nos livros, são relativamente recentes, mas encontraremos outros se olharmos para a história mais remota. Alguns séculos antes de Cristo, na Roma Antiga, vigorava uma prática que seria chamada de "política do pão e circo". Uma das teses dá conta que, na época, o esporte era encarado como mera forma de entreter a massa de cidadãos romanos enquanto os poderosos faziam os seus conchavos. Veja só, Leifert, era o esporte apenas como entretenimento sendo usado justamente para fins políticos.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.