Topo
Blog Página Cinco

Blog Página Cinco

Pessoas andam sentido falta de conversar com minhoca e cheirar as flores

Rodrigo Casarin

21/02/2018 16h13

Um vídeo que a youtuber Jout Jout postou ontem está bombando nas redes sociais. "A Falta que a Falta Faz" está entre os mais visualizados do Youtube no Brasil e virou um dos assuntos mais comentados do Twitter por aqui, onde uma infinidade de usuários já assumiram que choraram com a mensagem transmitida pela moça que também é escritora – é dela "Tá Todo Mundo Mal – O Livro das Crises" (Companhia das Letras).

Em "A Falta que a Falta Faz", Jout Jout lê "A Parte Que Falta", livro do norte-americano Shel Silverstein publicado pela Companhia das Letrinhas. Na obra infantil, um ser redondo, mas desfalcado de uma parte triangular – como se fosse uma pizza mal cortada sem um de seus oito pedaços –, vaga pelo mundo em busca do que lhe falta. Pelo caminho, faz pausas para conversar com as minhocas e sentir o aroma das flores, enquanto experimenta pedaços que encontra em sua jornada.

Demora para achar um teco que lhe caia como uma luva, mas consegue. Agora um círculo completo, o personagem sai desembestado pelo cenário vivendo em alta velocidade. Não tem mais tempo para conversar com a minhoca, apreciar o aroma das flores e sentir a borboleta pousando em seu corpo, algo que adorava. Pensava que, ao achar a parte que lhe faltava, a completude lhe traria felicidade, mas não é isso o que acontece. A mensagem é clara, como mostra Jout Jout: sempre estamos sentindo a falta de algo e, às vezes, é preciso escolher entre duas coisas que gostaríamos de ter, mas são excludentes.

O livro é bastante simpático e, como a youtuber aponta, possui algumas falas interessantes. "Não sou sua parte que falta. Não sou parte de ninguém. Sou parte completa. E ainda que eu fosse a parte que falta em alguém, não acho que seria a sua!", diz um dos "pedaços de pizza" abordados pelo círculo desfalcado. Pela maneira que se posiciona perante o grandão que está em busca do teco ausente, é possível perceber que o personagem bicudo é o mais bem resolvido da trama. E é essencialmente essa a lição ao final de "A Parte Que Falta": cabe a cada um encontrar sua própria maneira de ser feliz, sem depender de elementos externos.

É um conceito frágil – é possível ignorarmos tudo e todos os que nos cercam para que nos tornemos 100% responsáveis pelas nossas próprias alegrias e frustrações? -, mas que atualmente impacta em um grande público, pelo visto. Me parece que mais importante do que toda essa independência é realmente entendermos quais são as coisas que nos fazem felizes, seja encontrar o pedaço de pizza que nos falta e sair desembestado por aí, seja conversar com minhoca e sentir o cheiro da flor.

E para quem gostou do livro indicado por Jout Jout, vale procurar também por "A Parte que Falta Encontra o Grande O", a continuação de "A Parte que Falta". Como saiu pela finada Cosac Naify, talvez seja possível encontrar esse segundo trecho da história apenas em sebos.

Gostou? Você pode me acompanhar também pelo Twitter e pelo Facebook.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.