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Como vai, Cony? Vou mal. Foi assim o único papo que tive com o escritor

Rodrigo Casarin

06/01/2018 13h18

– Alô, Cony. Aqui é o Rodrigo Casarin. Como vai?

– Vou mal.

Jamais esquecerei o início do único papo que tive na vida com Carlos Heitor Cony, por telefone, no começo de 2015, para falar sobre uma série de seus livros que a Nova Fronteira tinha relançado. É extremamente raro iniciar um papo perguntando como a outra pessoa está e ela, com extrema franqueza, confessar que não vai nada bem, ainda mais para um completo estranho.

Cony ia mal porque ainda não tinha se acostumado com a vida após o tombo que levou na Alemanha, em 2013, durante a Feira do Livro de Frankfurt. A queda formou um coágulo em sua cabeça. Com o tempo a massa de sangue se dissipou, mas deixou como sequelas uma fragilidade nas pernas. Aparentemente, Cony jamais se adaptou à realidade de cadeirante. Ia mal principalmente por não conseguir se locomover da maneira que bem entendia. “Mas a lucidez está legal”, logo garantiu.

MORRE CARLOS HEITOR CONY AOS 91 ANOS

Na conversa a afirmação se confirmou, a cabeça de Cony seguia ótima. Falou que passou um bom tempo sem publicar livros porque não suportava mais a máquina de escrever – problema solucionado quando ganhou um computador da filha e viu que era fácil domar a nova tecnologia. Contou que compor o seu maior clássico, “Quase Memória”, justamente o título que rompeu o hiato sem trabalhar em livros, foi tão difícil quanto seria para um jogador de futebol voltar a campo após anos sem chutar uma bola. Também reconheceu que jamais terminaria “Messa pro Papa Marcello”, título que prometia há décadas, e apontou “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, como o romance mais importante de todos os tempos – “É uma bofetada na sociedade em geral, na religião, política, esporte…”.

Muita memória

Agora, aos 91 anos, quase três anos após o papo, Cony se foi. Além de sua obra, o escritor se destacou por tudo em que esteve envolvido. Foi preso algumas vezes durante a ditadura militar e passou um período de sua vida no exterior. Quando regressou, como jornalista, atuou em alguns dos veículos mais importantes do país.

Tudo isso serviu de base para livros ficcionais profundamente calcados na experiência pessoal do autor. No início da carreira, venceu por dois anos seguidos o Prêmio Manuel Antônio de Almeida e, ao longo da carreira, também recebeu Jabutis – pelos livros “Quase Memória”, em 1996, “A Casa do Poeta Trágico”, em 1998, e “Romance sem Palavras”, em 2000 – e, por toda sua obra, o Prêmio Machado de Assis de 1996, oferecido pela Academia Brasileira de Letras (ABL), entidade da qual passou a fazer parte em 2000.

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Atuando a partir de 1952 na imprensa do Rio de Janeiro, em 1960 Cony estava no Correio da Manhã quando o jornal publicou um editorial contra o governo de João Goulart, algo do qual se arrependeria de ter participado. Após o golpe civil-militar de 1964, já crítico ao regime implementado no país, o escritor foi preso seis vezes por se manifestar contra as práticas dos novos mandatários. Escrevendo no próprio Correio da Manhã editoriais contrários à ditadura, foi incitado a pedir demissão do veículo em 1965.

Mantendo a sua produção literária nesse período – com o lançamento de livros como “Antes, o Verão” e “Posto Seis” -, foi convidado para a escrever a novela “Comédia Carioca” para a TV-Rio, interpretada por nomes como Sady Cabral e Eva Vilma. Mas a empreitada durou pouco. Antes de chegar ao terceiro mês de exibição, a censura retirou o programa do ar. Em seguida, por participar de uma manifestação em frente ao Hotel Glória, às vésperas da conferência de abertura da reunião da Organização dos Estados Americanos, Cony foi preso junto de outros artistas, como Antônio Callado e Glauber Rocha, ficando vinte dias encarcerado – o episódio, conhecido como “Oito do Glória”, era a primeira das prisões do escritor.

GOVERNO DO RIO DECRETA LUTO DE TRÊS DIAS POR MORTE DE CARLOS HEITOR CONY 

Em 1967, Cony escreve “Quem Matou Vargas”, lançado em capítulos na revista Manchete, e viaja para Cuba, onde reside por um ano. É preso novamente ao chegar no Brasil e fica detido até o início de 1969 (retornaria à cadeia no carnaval de 1970). Mesmo assim, continuou sua produção, lançando a coletânea de contos “Sobre Todas as Coisas” (mais tarde reeditada como “Babilônia!, Babilônia!”) e a adaptação para o cinema de “Antes, o Verão”.

Depois do período conturbado, Cony foi convidado para integrar a equipe da Manchete. No cargo de diretor de teledramaturgia da Rede do grupo, participou da criação de novelas como “A Marquesa de Santos” e “Dona Beija”. Seguiria, então, sendo uma figura importante na imprensa, tornando-se membro do conselho editorial da Folha de São Paulo – entrou no jornal para substituir Otto lara Resende como cronista diário – e comentarias da rádio CBN.

Os traços de Cony

O escritor e crítico literário Antonio Carlos Secchin, também membro da ABL, na orelha do livro “Chaplin e Outros Ensaios”, que reúne textos diversos de Cony, além de apontar “Pilatos” – de 1974, como seu livro preferido do autor, escreve que “é notável a acuidade interpretativa de Carlos Heitor Cony no enlace vida/obra, e no zelo com que assinala, de um lado, não ser possível explicar a obra pela vida; e, de outro, ser impossível dissociá-las”.

Isso vai ao encontro de algumas da principal característica da prosa de Cony: os mergulhos no passado com passagens que remetem a questões biográficas e memorialísticas do autor. Seu livro mais celebrado, “Quase Memória”, por exemplo, é em muito inspirado na relação com o seu pai, Ernesto Cony Filho, em especial no momento em que Ernesto adoece e o escritor assume provisoriamente o seu posto no Jornal do Brasil, colaborando, dentre outras frentes, com a seção de artes e literatura.

O começo

O primeiro livro publicado por Cony, em muito inspirado pelo filósofo francês Jean Paul Sartre, “O Ventre”, de 1955, venceu no ano seguinte o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, contudo, por conta do tom negativo e da linguagem rude empregada na obra, a premiação lhe foi negada. Como resposta, com o pseudônimo Isaías Caminha, escreve “A Verdade de Cada Dia” em pouco mais de uma semana vence a edição de 1957 do mesmo concurso. Em 1958, a história se repete, mas, dessa vez, com a obra “Tijolo de Segurança”, assinada pelo pseudônimo José Bálsamo. Participavam dos júris das premiações escritores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Antônio Callado e Rachel de Queiroz, o que conferiu ao carioca uma boa credibilidade já em seus primeiros trabalhos.

Filho de Ernesto com Julieta Moraes Cony, o escritor nascera em 1926 e fora educado no Seminário Arquidiocesano de São José. Formado padre, também cursou humanidades e filosofia. Seu primeiro emprego oficial como jornalista veio em 1947, como redator do Gazeta de Notícias. No mesmo ano, começou o Curso de Preparação de Oficiais da Reserva do exército, onde se formou com um bom conceito. A mistura dos conhecimentos humanos adquiridos na sua formação básica e da rigidez vivenciada tanto no seminário quanto no exército influenciariam em muito o que Cony foi ao longo de sua vida.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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