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Lado pornográfico de Hilda Hilst pode colocar fogo nos debates sobre a arte

Rodrigo Casarin

05/12/2017 18h01


É ótima a escolha de Hilda Hilst como a homenageada da Flip de 2018 – veja aqui mais informações sobre a festejada. Dentre os muitos debates possíveis pautados pela sua obra, um que se faz extremamente pertinente hoje é sobre o erotismo e a pornografia na arte. No começo da década de 1990, a autora revelou que estava mudando a rota de sua literatura: passaria a se dedicar a textos de apelo sexual para que, enfim, pudesse vender muitos livros.

Era, de certa forma, um blefe. Se a temática é inegavelmente atraente para o grande público, a forma empregada por Hilda não demonstra uma autora que se rendia a uma estética facilmente digerível em troca de impressionantes números de venda. Além disso, a literatura pornô da escritora se mostrou, em muitos momentos, extremamente provocativa e incômoda.

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Em “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, Hilda apresenta uma garotinha de oito anos que vende seu corpo agenciada por seus pais proxenetas. Encarando supostamente a perspectiva da garota influenciada pelos pedófilos que a cercam, mostra uma criança que, entre um abuso e outro, nutre seus próprios desejos sexuais. Veja um trecho do início da narrativa:

“Agora eu quero falar do moço que veio aqui e que mami me disse agora que não é tão moço, e então eu me deitei na minha caminha que é muito bonita, toda cor-de-rosa. E mami só pôde comprar essa caminha depois que eu comecei a fazer isso que eu vou contar. Eu deitei com a minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu para que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto quando passam a mão na minha coxinha”.

Nos últimos meses, a partir da celeuma em torno da exposição Queermuseu, cancelada pelo Santander Cultural após protestos reacionários, o Brasil entrou em parafuso com manifestações surreais sobre a arte, seus limites e quem deve ter acesso às representações. Pois bem, se o debate é mesmo sério – e se há algum debate, não apenas vozes que gritam -, entendermos “O Caderno Rosa de Lori Lamby” (uma ficção, vale lembrar) é fundamental.

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Lori Lamby está ao lado de outras crianças erotizadas por escritores monumentais, faz par com Lolita, cria de Vladimir Nabokov, e Fonchito, oriundo da cabeça de Mario Vargas Llosa. Claro que é perturbador ler um livro no qual uma menininha de oito anos é explorada e também revela certo apetite sexual, mas muita gente precisa lidar melhor com perturbações, encará-las, não soterrá-las. Perturbar é um dos papéis da arte, e Hilda sabia muito bem disso.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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