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Com personagens bobinhos, novo romance de John Green é ingênuo demais

Rodrigo Casarin

27/10/2017 10h35

A clostridium difficile, chamada também de C. diff, é uma bactéria que pode atacar a parte central do intestino grosso, provocando diarreia, dor de barriga e febre. Em casos extremos, cirurgias são necessárias para sanar o problema; em casos mais extremos ainda, pode matar. Como diversas outras bactérias, a C. diff é contraída via contato com superfícies infectadas ou pela troca de secreções com uma pessoa que já a porta. Aza Holmes, uma garota de 16 anos, tem um medo perturbador de adquirir a C. diff.

Aza é a protagonista de "Tartarugas Até Lá Embaixo", livro de John Green que acaba de sair no Brasil pela Intrínseca. Consagrado graças ao romance "A Culpa é das Estrelas", que virou um sucesso também no cinema, o escritor norte-americano é conhecido por colocar personagens que sofrem de problemas de saúde em suas narrativas. Dessa vez, o que temos é uma adolescente que, ainda na escola, precisa tentar lidar com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido como TOC, doença mental que aflige quase 5 milhões de brasileiros – e também o próprio autor.

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Junto de sua melhor amiga, Aza resolve investigar o desaparecimento de um bilionário que apostava na corrupção junto ao governo para ganhar licitações públicas e tocar obras superfaturadas – não, a narrativa não se passa no Brasil, mas em Indianápolis, capital da Indiana, no meio dos Estados Unidos. Logo que começa a apuração para descobrir onde o endinheirado foi parar, a protagonista reencontra Davis, filho do sumido e um antigo colega de escola. Quem conhece minimamente o estilo de Green, saca logo de cara que ali haverá um romance – e aviso, daqui pra frente o texto trará spoilers.

"Prazer, tuatara".

História tola e ingênua

Davis é órfão de mãe – Aza, por sua vez, é órfã de pai – e leva uma vida de extremo luxo e conforto graças ao dinheiro sujo conquistado pelo empresário desaparecido. Digo empresário porque, para o garoto, o homem está longe de desempenhar o papel de pai. Em um extremo caricatural, o homem inclusive ordena que, quando morrer, toda a sua imensa fortuna seja doada para uma tuatara, réptil cuja aparência lembra uma iguana, não para seus rebentos (Davis tem um irmão mais novo).

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O garoto, então, passa a encarar o dinheiro como uma maldição, desconfia que as pessoas só se aproximam dele por causa da grana e, em uma cena de verossimilhança questionável, pega um pacote de comida do armário, tira 100 mil dólares de dentro dele e entrega a bolada a Aza. Aquilo era um teste: se ela aceitasse a bufunfa e ainda assim voltasse a lhe procurar, saberia que a menina estava interessada em algo além das verdinhas.

A cena dá uma ideia da ingenuidade que dita o tom de "Tartarugas Até Lá Embaixo". Os personagens da obra são bobinhos, construídos seguindo uma mesma cartilha e sem grandes sutilezas: todos representam o esteriótipo de alguém com determinado problema, mas também possuem alguma virtude exacerbada e profundo conhecimento em algo. Davis, por exemplo, que já é um chato normalmente, torna-se ainda mais insuportável quando desembesta a confabular sobre astronomia. Já Aza exige páginas e páginas para falar das paranoias que possui com as bactérias, seu corpo e a própria existência.

"Eu estou no refeitório e começo a pensar que tem um monte de organismos morando dentro de mim e comendo a minha comida por mim, e que eu meio que sou esses organismos, de certa forma… Então eu sou um ser humano tanto quanto sou esse aglomerado nojento de bactérias, e na verdade não tem nada que possa me deixar totalmente limpa, sabe? Porque a sujeira está impregnada no meu corpo inteiro. Não consigo encontrar em mim nenhuma parte, nem a mais profunda, que seja pura, ou intacta, a parte onde supostamente está minha alma. O que significa que as chances de eu ter uma alma são as mesmas que as de uma bactéria", diz Aza para sua analista.

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A preocupação da garota com os microrganismos que vivem dentro dela fazem com que entre em parafuso quando beija Davis. Em sua cabeça, o contato com a língua do menino poderia ser a porta de entrada para uma infinidade de problemas. Em crise, chega a fazer bochecho e a tomar álcool em gel para tentar matar qualquer bactéria. No entanto, já no final da obra, aceita o convite de sua amiga para visitar uma exposição de arte que se passa no esgoto da cidade. Como assim alguém que sequer beija o garoto que pensa amar por ter medo de bactérias se enfia em galerias repletas de fezes, urina, ratos e baratas sem demonstrar nenhuma repulsa?

Essa grande inconsistência é um dos problemas de "Tartarugas até lá Embaixo". Trata-se de um livro absolutamente ruim? Claro que não. Alguns momentos têm lá sua graça e acho digno o autor tratar de um assunto como o TOC junto aos jovens, mas é uma história bem tola e ingênua. De um escritor tão lido e adorado – Green já vendeu mais de 4,5 milhões de exemplares no Brasil e seu novo livro sai por aqui com tiragem de 200 mil unidades –, deveríamos esperar muito mais.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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