Blog Página Cinco

Livro mostra que Renato Russo adoraria jantar com Jesus Cristo e Da Vinci

Rodrigo Casarin

24/10/2017 09h24

Janis Joplin, Marilyn Monroe, Gram Parsons, Brian Wilson, Isadora Duncan, Arthur Rimbaud, Fernando Pessoa, Jesus Cristo, Leonardo Da Vinci e Oscar Wilde. Pela ordem, seriam essas 10 pessoas famosas que Renato Russo adoraria convidar para um jantar. Se pudesse acrescentar outros dois nomes à relação, o líder da Legião Urbana ainda gostaria bater um prato com Sid Vicious e Jim Morrison.

Renato era um apaixonado por listas, apostava nelas tanto para brincar nos tempos de ócio quanto para organizar seus afazeres diários e projetar metas profissionais e intelectuais. Agora, diversas relações que deixou registradas em seus cadernos foram reunidas em “O Livro das Listas – Referências Musicais, Culturais e Sentimentais”, organizado por Sofia Mariutti e Tarso de Melo e há pouco lançado pela Companhia das Letras.

“Suas listas são especialmente interessantes porque mostram seu modo de trabalho e porque muitas vezes se convertiam em material de criação. Uma relação de novos artistas italianos se desdobraria em um álbum de músicas em italiano, por exemplo; listas de ideias para músicas se tornavam músicas; setlists e possíveis artistas convidados para shows e álbuns eram o embrião para shows e álbuns”, registram os organizadores na introdução da obra.

Depois do desrespeitoso “Só Por Hoje e Para Sempre”, livro com trechos de diários que Renato escreveu enquanto esteve internado em clínicas de reabilitação, e do capenga e desnecessário “The 42nd St. Band”, a publicação de “O Livro das Listas” é finalmente um acerto da Companhia e dos responsáveis pelo material deixado pelo músico que morreu em 1996. Por meio dessas anotações, fãs e curiosos podem se aproximar do ídolo sem que a intimidade do cantor seja exposta de maneira grosseira.

MÚSICA E POLÍTICA: COMO RENATO RUSSO E CAZUZA EXPLICAM O BRASIL RECENTE

A lista de dez pessoas que Renato gostaria de convidar para o jantar, com três músicos, três escritores, uma atriz, uma bailarina, um pintor e inventor e um revolucionário que muitos apontam como salvador e profeta dá uma boa ideia da miscelânea cultural que fazia a cabeça do artista. Dessa forma, surgem relações como “Minha parada de sucessos eternos”, “Filmes que você lembra e o que os fez especiais (você assistiria de novo cada um deles)”, “Os filmes mais bobinhos já vistos” e “Pessoas que admiro (da minha geração)” – aqui, aliás, há uma surpreendente menção a Renato Gaúcho, ex-jogador com passagem marcante pelo Fluminense, time para o qual o músico dizia torcer, ainda que não acompanhasse muito futebol, e hoje técnico do Grêmio.

Listas como as músicas preferidas de Renato na semana mostram certa obsessão e a ciência de que essas relações são quase sempre efêmeras. No 10 de outubro de 1981, por exemplo, “Your Song”, de Elton John, era sua canção preferida. Já no dia 18 do mesmo mês, quem encabeçava a relação era “Waiting on a Friend”, do Rolling Stones. Um pouco depois, no dia 25, quem liderava a classificação era “Life During Wartime”, do Talking Heads.

Entrada da exposição sobre Renato.

Sexo e literatura

Se compostor gostaria de convidar Rimbaud, Fernando Pessoa e Oscar Wilde para um jantar, ao listar seus prosadores prediletos ele lembra de alguns outros escritores: Hermann Hesse, Bernard Shaw, Edgar Alan Poe, Aldous Huxley e Carlos Drummond de Andrade. É sabido que a literatura serviu de base e inspiração para inúmeras letras de Renato. Na sua obra, há desde referências explícitas, como “A Montanha Mágica” (título de uma música do disco “V” e de um romance de Thomas Mann), até elementos mais sutis, como o desfecho com toque shakespeariano de “Faroeste Caboclo”.

E a literatura ocupa uma parte considerável das páginas de “O Livro das Listas”. Ao elencar os melhores livros que tinha lido, Renato começa por “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger, segue com “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, e ainda passa por títulos como “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, “… E o Vento Levou”, de Margaret Mitchell, “Ética”, de Espinosa” e “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino.

É interessante cruzar essa lista com os livros que estão na exposição sobre o cantor que o Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo exibe até final de janeiro do ano que vem. Lá também há títulos gigantescos da literatura, como “Ulysses”, de James Joyce, e “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, mas há ainda volumes de autores mais populares, como Agatha Christie, Bukowski, Tolkien e Stephen King.

POR QUE RENATO RUSSO ADORAVA “TOMAR” TODDYNHO EM HOTÉIS?

Dentre outras peças interessantes, chama a atenção um exemplar com imagens de “1000 Nudes”. Tanto livro quanto exposição mostram que o sexo e o erotismo eram assuntos pelos quais Renato tinha evidente interesse. No MIS estão expostos, por exemplo, uma coleção de revistas eróticas homossexuais e muitos títulos que tratam desses temas de maneira histórica e/ou explícita, como “Erotica Universalis”, de Gilles Néret. Em “O Livro das Listas”, Tarso e Sofia escreveram sobre isso, mostrando como esse “material de bastidor” refletia nas posições públicas do artista:

“O tema da homossexualidade foi ganhando atenção crescente de Renato Russo durante a segunda metade dos anos 1980 e ainda mais nos últimos anos de sua vida. Cada vez mais consciente de sua posição como figura pública, Renato discutiu o respeito à orientação sexual em muitas entrevistas e até mesmo dedicou um disco a essa causa, ‘The Stonewall Celebration Concert’ (1994), fruto de muita pesquisa – não só de músicas para o repertório, mas sobre as várias e complexas faces desse debate, como revelam as diversas anotações em seus diários sobre estudos, pesquisas e obras de referência a respeito dessa temática. Mas Renato ainda foi além de ‘ler sobre’ e declarou em 1990: ‘As melhores coisas que eu li, ultimamente, são todas de autores gays’”.

Voltando à lista de pessoas para se convidar para um jantar, sem dúvidas que Renato Russo poderia ser nome tão interessante quanto boa parte daqueles que ele mesmo citou.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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