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HQs eróticas de Manara miram a opressão da Igreja e do Estado, diz biógrafo

Rodrigo Casarin

08/09/2017 10h28

"A religião oprime e esconde a violência sexual, o estupro, a pedofilia, a humilhação e a dominação da mulher, porque todas as religiões demonizam a beleza e a sensualidade feminina, há um ódio dissimulado contra as mulheres, um medo terrível do seu poder de sedução e dominação. Ela precisa ser freada, oprimida, castrada, agredida, violentada, apedrejada, assassinada. Esse é o pensamento reinante. Manara ataca isso o tempo todo".

É o que diz o jornalista Gonçalo Junior ao falar do trabalho do quadrinista italiano Milo Manara. Gonçalo acaba de lançar "Subversão Pelo Prazer" (Editora Noir), no qual mistura elementos biográficos, jornalísticos e análises das obras e da carreira do artista que admira desde 1986, quando o italiano começou a ser publicado no país. No livro, o autor lamenta o fato de Manara ser visto e muitas vezes reduzido pelos brasileiros simplesmente a um ícone da pornografia ou da sacanagem. "Acho que é preguiça de se esforçar um pouco mais para tentar perceber quais são os seus objetivos como artista que usa o erotismo como atrativo para explorar outros temas relevantes", comenta na entrevista abaixo.

Manara nasceu em 1945 e com uma carreira de mais de meio século se tornou um dos principais quadrinistas da história. São muitos seus trabalhos que merecem destaque, como "O Clic", "Verão Índio", "Câmara Indiscreta", "El Gaucho", "Revolução", "Bórgia" e "Caravaggio". Dentre os artistas com quem já assinou HQs estão nomes do quilate de Alejandro Jodorowsky e Neil Gaiman.

"Manara tem um papel importante na reflexão da presença asfixiante da Igreja Católica e de todas as religiões na vida das pessoas", analisa Gonçalo. "É, também, um libertário em relação às mulheres, embora muitas o acusem exatamente do contrário. Há inúmeros trabalho em que o poder opressor do Estado aparece como foco", continua. "Nos seus quadrinhos, Manara inverte os papéis na maioria das vezes e os homens se tornam objetos. E quando não o são e maltratam o sexo posto, acabam punidos. São elas as donas da situação, vivem o sexo livre, têm prazer, são transgressoras. Isso é muito cristalino em seus quadrinhos", completa.

Por sua vez, Gonçalo também tem um vasto currículo no meio editorial. Dentre outros, é autor de "A Guerra dos Gibis", "Enciclopédia dos Monstros", "Alceu Penna e as Garotas do Brasil", "Maria Erótica" e "Quem Samba tem Alegria". No papo a seguir, o autor também comenta como o sexo em geral é encarado nas artes. "É preciso que mudemos o modo como vemos o sexo, de forma geral, nas artes. Tudo é tratado como libertinagem, sacanagem… quando temos um aspecto rico e interessante para observar sobre o comportamento humano. No fundo, a hipocrisia reina quando se fala nisso".

Para se debruçar sobre a produção de alguém é preciso que tenhamos uma relação bastante próxima com essa obra e/ou artista. O que Manara e seus quadrinhos representam para você?

Acompanho Manara desde a adolescência, na década de 1980, quando a Martins Fontes começou a lançar suas obras no Brasil – "O Clic" e "O Perfume do Invisível" –, a partir de 1986. Depois, foi a revista alternativa Porrada! Claro, é inevitável você ficar deslumbrado no primeiro momento com os desenhos dele, com a beleza de suas mulheres, a sensualidade delas e todo o contexto das tramas. Com o tempo, começa-se a notar que há bem mais que isso ali. E ele se tornou um enigma para mim, pois as análises e resenhas que lia na imprensa o tratavam como mera pornografia. Sempre discordei disso. Nos anos de 1990, graças à editora portuguesa Meribérica, continuei a acompanhar seus quadrinhos. Até escrever, em 2003, o livro "Tentação à Italiana", em que analiso o conjunto das obras de Crepax, Manara e Serpieri, nessa ordem, além de um adendo com outros artistas menos badalados compatriotas desse trio. Agora, aprofundo-me mais em sua obra, ao misturar biografia com análise de todos os seus álbuns. E não são poucos.

Manara já foi acusado de "objetificar as mulheres". O que você pensa disso?

Em parte, a chamada crítica especializada tem culpa nisso, por fazer leituras rápidas, rasteiras e superficiais de seus trabalhos. Em um dos lançamentos do meu livro, apareceu uma garota que me disse à queima-roupa que "odiava" Manara, mas, para falar disso com mais convicção, gostaria de conhecê-lo melhor. Daí ter ido lá comprar um exemplar. Isso foi surpreendente e gratificante. Espero tê-la feito mudar de ideia. Nos seus quadrinhos, Manara inverte os papéis na maioria das vezes e os homens se tornam objetos. E quando não o são e maltratam o sexo posto, acabam punidos. São elas as donas da situação, vivem o sexo livre, têm prazer, são transgressoras. Isso é muito cristalino em seus quadrinhos. Não precisa uma leitura delirante ou exagerada, "profunda", para se dizer isso. Enfim, o preconceito contra o erotismo leva a essa visão distorcida. É preciso separar erotismo da pornografia. Manara não é pornógrafo ou pornográfico.

Você comenta que há certa decepção pelo fato de Manara ser visto como um dos reis da pornografia e da sacanagem pelos brasileiros. Por que isso é exatamente um problema?

Acho que é preguiça de se esforçar um pouco mais para tentar perceber quais são os seus objetivos como artista que usa o erotismo como atrativo para explorar outros temas relevantes, como a opressão de quem detém o poder. Ou preconceito mesmo. O elemento religioso, em si, já seria um tema rico e intenso para ser tratado por esses críticos, que difundem uma visão distorcida dos quadrinhos de Manara. Mas nem isso conseguem perceber. Ou não querem. É complicado comentar sem ofender o ego de quem escreve sobre quadrinhos. Isso acontece em relação a outros artistas, como Crepax e Serpieri, criador da voluptuosa "Druuna". É preciso que mudemos o modo como vemos o sexo, de forma geral, nas artes. Tudo é tratado como libertinagem, sacanagem… quando temos um aspecto rico e interessante para observar sobre o comportamento humano. No fundo, a hipocrisia reina quando se fala nisso.

Acha que diminuem a arte dele por conta disso?

Sem dúvida. E ele paga um preço muito alto. Acredito que, no segmento do erotismo, Manara continua a ser o artista mais censurado do mundo. Seus quadrinhos continuam banidos em dezenas de países onde o elemento religioso é poderoso na vida das pessoas ou existem regimes autoritários. O sexo é libertador, lembremos sempre disso. E quem é mais pecador do que quem controla o poder quando o assunto é sexo? A religião oprime e esconde a violência sexual, o estupro, a pedofilia, a humilhação e a dominação da mulher, porque todas as religiões demonizam a beleza e a sensualidade feminina, há um ódio dissimulado contra as mulheres, um medo terrível do seu poder de sedução e dominação. Ela precisa ser freada, oprimida, castrada, agredida, violentada, apedrejada, assassinada. Esse é o pensamento reinante. Manara ataca isso o tempo todo. E isso pode não ser destacado por mera conveniência. De novo, esbarramos na hipocrisia que torna as civilizações viáveis, possíveis.

Particularmente, quais são seus trabalhos preferidos do Manara? Por quê?

Gosto muito dos dois álbuns que ele fez com Hugo Pratt, "Verão Índio" e "El Gaucho", em que o elemento histórico dá intensidade aos propósitos provocativos de Manara contra o poder e a força da religião como agentes opressores, massacrantes. Adoro o primeiro volume de "O Clic", pelo pioneirismo transgressor e que considero essencialmente feminista, pois os personagens homens estão completamente perdidos diante da sedução feminina, da força avassaladora de uma mulher que, até então, era recatada e cheia de pudores. Mas o preferido de todos para mim é "Rever as Estrelas", uma obra poética e madura em que Manara homenageia seus mestres que se foram – Fellini e Pratt, principalmente. É uma reverência à amizade, à velhice (e uma crítica ao preconceito contra os idosos) e uma celebração ao prazer e à vida. Absolutamente monumental. Bastava ele ter feito esse álbum para ser imortalizado. Exagero? Leia.

Qual a importância do trabalho do Manara nos dias de hoje?

Manara continua atualíssimo, transgressor, inquieto, provocador. Mantém-se divertido e, ao mesmo tempo, subversivo total, mesmo aos 72 anos de idade. Aliás, nunca esteve tão ousado, o que é raro, pois as pessoas costumam se acomodar e a se fixar em certa zona de conforto ou se tornar menos ousada à medida que o tempo passa. Ele amadureceu como artista, ampliou seu leque de críticas, sem abrir mão do erotismo. Manara tem um papel importante na reflexão da presença asfixiante da Igreja Católica e de todas as religiões na vida das pessoas. A gente nota isso em várias obras, como "Verão Índio", "Borgia" e "Caravaggio", só para citar as que destacam mais o aspecto religioso. É, também, um libertário em relação às mulheres, embora muitas o acusem exatamente do contrário. Há inúmeros trabalho em que o poder opressor do Estado aparece como foco.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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