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Professor Pasquale: “O Brasil não mudou porra nenhuma” desde Capitães da Areia

Rodrigo Casarin

11/08/2017 19h21

A mesa da qual Pasquale Cipro Neto, o Professor Pasquale, provavelmente o educador de língua portuguesa mais conhecido do país, participou há pouco na Flipelô, em Salvador, se transformou em uma declaração de amor do mestre à Bahia. O ponto alto da conversa, mediada pelo compositor e secretário estadual de cultura Jorge Portugal, deu-se quando Pasquale comparou “Capitães da Areia”, um dos maiores clássicos do baiano Jorge Amado, publicado em 1937, ao país que temos hoje:

“O Brasil não mudou porra nenhuma, a coisa continua feia, o preconceito, a estupidez…”, disse o Professor, mostrando que, mesmo para quem tem um vasto repertório linguístico, é mesmo difícil falar de nossa realidade sem apelar aos palavrões. “Lá se vão 80 anos e não acontece nada, as coisas não mudam. Temos uma sociedade que continua sendo absolutamente encastelada”, completou Pasquale, que ainda citou como exemplo dessa sociedade estanque e bárbara o caso do jovem que teve sua testa tatuada após roubar uma bicicleta.

“Capitães da Areia”, importante dizer, retrata garotos pobres de Salvador que vivem na rua e praticam atos ilícitos para sobreviver ou se divertir, mas também precisam lidar com seus sonhos, inquietudes, desejos e frustrações. Para Pasquale, Amado teve o mérito de escancarar uma realidade que era um tanto enviesada ou até mesmo ocultada. “Ele mostrou o que é o Brasil”.

Lembrando dos tempos de universidade, o Professor também falou de como o escritor baiano demorou para ser reconhecido pela crítica literária acadêmica. “O Jorge enfrentou inclusive o preconceito literário. Fui aluno da USP e nunca ninguém me falou dele lá, ele não fazia parte do currículo, o que é um absurdo. E às vezes eu ouvia gente falar coisas como ‘o Jorge Amado tem muito palavrão’. Tive que escutar essa e outras bobagens”.

Pasquale empanturrado de acarajé

No papo, Pasquale também recordou de uma aventura de adolescente. Aos 17 anos, apaixonado pela arte de músicos como Caetano Veloso – a quem definiu como “uma coisa absurda” -, Gilberto Gil e Dorival Caymmi, saiu de São Paulo para conhecer Salvador. Sem dinheiro, faria o trajeto de carona. A viagem com desconhecidos pela estrada fluiu bem até Jequié, onde ficou difícil achar quem topasse lhe levar adiante. “Ali tinha uma gente estranha, com facão na estrada”. Achou melhor gastar seu pouco dinheiro para pegar um ônibus até a capital baiana.

Chegando no destino, viu, enfim, como é a terra de muito de seus ídolos. Descobriu também o tempero da comida local. “Comi tanto acarajé, mas tanto, mas tanto, mas tanto, que no último dia fiquei passado. Voltei pra São Paulo do mesmo jeito e sem comer mais nada, tudo me enjoava. Mas passou, sempre que venho agora como um acarajé”.

Protesto

Em certo momento da conversa, um espectador se queixou com Jorge Portugal sobre o fato do show de abertura da Flipelô, com Maria Bethânia na Igreja de São Francisco, ter sido feito para um público reduzido, não em um espaço onde todos que tivessem interesse pudessem acompanhar a apresentação. “A Bethânia que pediu, e ela é rainha. Sou apenas um súdito”, retrucou o secretário de cultura.

Viajei a Salvador a convite da organização da Flipelô.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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