Blog Página Cinco

Emicida: “O Batman é um personagem caído, um playboy, tipo o filho do Eike Batista”

Rodrigo Casarin

10/08/2017 22h49

O rapper Emicida arrancou risos e aplausos da plateia que acompanhou sua mesa na noite de hoje na Flipelô, em Salvador, tudo por conta da maneira que ele tratou um dos principais ícones dos quadrinhos. “O Batman é um personagem caído. Não tem um poder, fica batendo nuns caras que estão com a vida tudo fodida, é um playboy. É tipo o filho do Eike Batista”.

Emicida participou da conversa “A rua é nóiz – Poesia e protesto” (com “nóiz” grafado assim mesmo) ao lado de João Jorge Rodrigues, escritor, advogado e presidente do Olodum, e mediada por Larissa Luz. Falou de Batman ao lembrar da primeira vez que leu um gibi, justamente de tal herói, e gostou mais do vilão do que do homem-morcego.

Os quadrinhos foram parte essencial de sua formação. Se identificou com Homem-aranha, alguém que também precisava pagar aluguel e vivia sem dinheiro, mas foi Will Eisner que fez de vez a sua cabeça. “Fui lendo muito quadrinhos, até que pirei quando conheci o Will Eisner e vi que ele retratava pessoas normais, tipo os imigrantes que estavam formando Nova Iorque”.

Logo associou o olhar de Eisner ao que Mano Brown e os Racionais faziam ao transformar a vida no Capão Redondo e outros bairros periféricos de São Paulo em música. “Ali comecei a entender que a poesia poderia ser uma coisa mais nossa. Essa mistura de coisas fez com que eu encontrasse minha voz na escrita”. Isso foi ao encontro da “descoberta” de que, à sua maneira, também poderia fazer poesia. “Passei muito tempo da minha vida achando que a literatura não me pertencia, que poeta precisava estar morto, até que conheci o trabalho de gente como Sergio Vaz [um dos idealizadores da Cooperifa]”.

No papo, Emicida também mencionou suas principais referências literárias. “’Capitães da Areia’ [de Jorge Amado, o homenageado desta primeira edição da Flipelô] talvez tenha sido o primeiro livro que li e me senti dentro da história. Foi tipo um soco. Li e pensei: mano, dá pra ter uns bagulhos nossos também”. Ainda citou Mario Quintana, Eduardo Galeano, Pablo Neruda, Lima Barreto (“foi bacana vê-lo homenageado lá em Paraty”, disse referindo-se à última edição da Flip) e Milton Santos (“que até tenho tatuado aqui, ele ajudou a quebrar essa coisa cristalina da academia, ele não olhava você de cima, olhava de igual”).

“Pelo amor à poesia, virei um carnavalesco”

Por sua vez, João Jorge lembrou de livros que lhe empurravam na infância para falar do processo de descoberta da cultura negra e de seus representantes. Não queria ler “Rapunzel” ou “Ivanhoe” e questionava por que nas ruas de Salvador havia tantas placas se referindo a portugueses, mas nenhuma a personalidades negras. Foi procurando por escritores negros que, diz, descobriu o carnaval. “O carnaval é uma literatura, é um livro, aí me interessei pela literatura africana de língua portuguesa”, de nomes como José Caveirinha e Agostinho Neto.

Com uma história profundamente ligada à cultura, principalmente à música e às letras negras, João vê na arte um meio de luta. “Podemos fazer do carnaval a veia poética mais profunda do movimento negro. Pela literatura, pelo amor à poesia, virei um carnavalesco”. Depois que conquistou seu espaço, aliás, expurgou aqueles livros que lhe incomodavam quando pequeno. “Estava longe da coleção ‘O Mundo da Criança’, tinha me libertado daquela praga”.

Divertida, a conversa focou muito na formação de cada um até se tornarem o que são hoje, com histórias recheadas de contradições (João, um comunista, marxista e ateu que enveredou pelas religiões de matriz africana) e acasos (por não conseguir se inscrever para um curso de quadrinhos que Emicida acabou fazendo o breve curso de rap onde percebeu que poderia sem músico). Além disso, também foram tratadas questões sobre racismo e a representatividade nos dias de hoje, a importância de os negros brigarem por espaço, ocupá-lo e conquistar o protagonismo do qual por tanto tempo ficaram apartados.

Viajei a Salvador a convite da organização da Flipelô.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Página Cinco
Topo