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Quem é o historiador que tomou cachaça e cantou ponto de umbanda dentro da igreja em Paraty?

Rodrigo Casarin

30/07/2017 13h23

Fotos: Walter Craveiro.

O historiador Luiz Antonio Simas protagonizou um dos grandes momentos da Flip deste ano. Na mesa que dividiu com a pesquisadora Beatriz Resende, assumiu ter tomado uma cachacinha na sacristia e cantou um ponto de umbanda em cima do palco. Tudo isso dentro da Igreja da Matriz de Paraty, que neste ano recebe as principais atrações da Festa. Quem conhece Simas, no entanto, estava mais surpreso com algo que parecia banal: ele estava de calça.

Simas é autor de “O Vidente Míope”, escrito em parceria com Cássio Loredano, “Samba de Enredo: História e Arte”, que assina com Alberto Mussa, “Pedrinhas Miudinhas: Ensaios sobre Ruas, Aldeias e Terreiros”, “Almanaque Brasilidades” e “Dicionário da História Social do Samba”, que tem Nei Lopes como coautor, vencedor do Jabuti de 2016. Os títulos dos livros já dão uma ótima ideia do universo ao qual Simas dedica seu olhar. Sua obra mais recente, “Coisas Nossas”, lançada há pouco pela José Olympio, é uma reunião de crônicas que abordam a cultura das ruas e subúrbios do Rio de Janeiro.

Antes da mesa na Flip, bati um papo com Simas em um dos bares de Paraty. Falamos principalmente sobre carnaval, e o historiador se mostra bastante preocupado com o momento vivido pela festa. “O carnaval hoje está entre a disciplina e o dinheiro”, diz.

Quando fala de dinheiro, claro, refere-se às notícias e discussões sobre o corte da verba que a prefeitura do Rio de Janeiro dedicava às escolas de samba. Sobre a disciplina, vê a festa como mais uma das manifestações impactadas pela maneira que o espaço público é tratado hoje. “Há um embate na maneira de encarar a rua: vê-la como um ponto de passagem ou como um ponto de encontro. Há três instâncias relacionadas à rua: a moral, a pública e a do mercado, que tenta lidar com a cultura de rua pela lógica comercial”.

Simas aponta as próprias escolas de samba como as principais responsáveis por este momento. “Houve um deslocamento do carnaval da esfera da cultura para a da indústria do entretenimento e do turismo. As escolas perderam o laço com a população do Rio de Janeiro, hoje as quadras são caras e não têm a relevância que tinham há algum tempo. O interesse pelas escolas de samba virou algo de nicho. Se acabassem com o carnaval do sambódromo, a maior parte da população não daria a menor pelota”.

O historiador acredita que o carnaval em si irá se reinventar, mas que os desfiles na Sapucaí, ao menos enquanto manifestações culturais, podem mesmo estar com os dias contados. “Houve uma exacerbação do aspecto visual, os desfiles ficaram mais caros e isso virou uma armadilha da qual as escolas não conseguem escapar. Antes as escolas desfilavam porque existiam, hoje elas existem porque desfilam, tudo virou um mero entretenimento. As escolas já perderam o envolvimento que tinham com a comunidade, então, quando o mercado deixar de ter interesse, esse carnaval já era”.

E como se sente vendo tudo isso? “Acho trágico para a história da cultura do Rio e do Brasil, mas o que mais me choca é que isso não aconteceu por questões externas, foi uma implosão do carnaval”.

Viajei a Paraty a convite da EDP Brasil.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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