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Masabumi Hosono: o japonês que envergonhou seu país por ter sobrevivido ao naufrágio do Titanic

Rodrigo Casarin

14/06/2017 09h29

“Espaço para mais dois”, gritou um dos oficiais que ajudavam passageiros a se arrumarem em botes salva-vidas enquanto o Titanic afundava.

Masabumi Hosono, o único japonês na embarcação que partiu da Inglaterra e que teria os Estados Unidos como meta, aproveitou um dos espaços vagos e tratou de garantir sua sobrevivência.

Viajante da segunda classe, Masabumi tinha sido mandado para as partes inferiores do navio pelos tripulantes, que deveriam fazer o possível para salvar aqueles que viajavam nas classes mais caras. Mas Masabumi não morreria daquela maneira indigna, tratado como um ser menor. Queria ao menos estar nos conveses superiores, se não seu fim “desgraçaria o povo japonês”, como relatou mais tarde. Em meio ao caos, a questão de honra que possibilitou que achasse uma brecha e pulasse em um dos botes.

Naufrágio dramatizado.

Naquele momento, no entanto, desonrou uma das regras básicas de um naufrágio: mulheres e crianças primeiro. A perspectiva de nunca mais ver sua esposa e seus filhos e o exemplo de outros homens que já tomavam as seguras e raras embarcações enquanto moças e pequenos esperavam por uma oportunidade fez com que Masabumi não desperdiçasse sua última chance – percebera que o desejo de viver era maior do que tudo.

Ao chegar no Japão, pagou o preço pela escolha: por conta de toda a situação, sua sobrevivência foi considerada uma desgraça nacional. Perdeu o emprego que tinha no sistema ferroviário, foi criticado por jornais e passou a ser tratado como um exemplo de desonra em materiais escolares. O compatriota que sobreviveu enquanto tantos morriam, que tomou um lugar que poderia ser dado a uma mulher ou uma criança, passava longe de representar os virtuosos valores da cultura japonesa.

Masabumi morreu em 1939, aos 68 anos – tinha 41 quando pulou no bote salva-vidas -, e somente na década de 90, após a tragédia virar filme, que tanto o governo japonês quanto a população local passaram a olhar para sua história de sobrevivência com olhos mais amigáveis.

Tragédia em tempo real

Ainda que de maneira mais abreviada, conheci a história de Hosono graças ao livro “Titanic Minuto a Minuto”, de Jonathan Mayo, lançado aqui no Brasil pela Vestígio. Como o nome entrega, a obra detalha cronologicamente o que acontecia no famoso navio enquanto ele navegava, quando começou a naufragar e após o desastre já ser algo inevitável. Em 14 de abril de 1912, às 23h40 no horário local da embarcação, por exemplo, “mais de 46 mil toneladas de metal e madeira colidem com 500 mil toneladas de gelo” – nesse momento o transatlântico encontrava o iceberg que mudaria pra sempre o seu destino.

Para reconstruir o que se passava no navio, Mayo se apoiou em uma infinidade de documentos como depoimentos dos inquéritos instaurados para apurar como a tragédia aconteceu, entrevistas de sobreviventes, livros e relatórios de bordo. Dessa forma que entrega ao leitor passagens curiosas e dramáticas, como essas:

6h30 do dia 14: “Alguns passageiros da segunda classe estão despertando com o canto dos galos, como tem ocorrido em todas as manhãs da viagem. Quatro espécimes estão sendo importados para os Estados Unidos por um passageiro da primeira classe e são mantidos perto dos canis. Cada animal a bordo tem seu próprio bilhete”.

2H17 do dia 15: “A terceira chaminé começa a tombar para a frente, e, num turbilhão de respingos, cai no mar perto de Jack Thayer, esmagando inúmeras pessoas no que restou do convés e também na água. Ele é tragado pela água mais uma vez enquanto a enorme chaminé afunda. A popa do Titanic volta para a água e sua quarta chaminé tomba para trás. O vigia George Symons, que assiste a tudo do bote salva-vidas 1, pensa que um milagre talvez faça a seção traseira continuar flutuando”.

Quando Hosono, por sua vez, entrou no bote salva-vidas que o levaria a um lugar seguro, mas também o transformaria em motivo de vergonha para sua nação, o relógio marcava 1h43.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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