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Em busca de refúgio, garota deixa a Síria e passa por 12 países usando uma cadeira de rodas

Rodrigo Casarin

08/06/2017 09h36

“A parte mais difícil da jornada foi quando nos deparamos com a fronteira fechada na Hungria, daí em diante foi uma caminhada ao desconhecido, pois tivemos que tomar uma rota pouco comum, o que acabou resultando em nossa detenção na Eslovênia. Não sabíamos o que aconteceria conosco, se seríamos liberados ou não. Aquilo foi difícil e estressante, e me fez perceber o quanto a liberdade é preciosa e porque os sírios lutam por ela”.

É o que diz, em entrevista ao blog, a refugiada síria Nujeen Mustafa. Como outros 5 milhões de conterrâneos, a garota, hoje com 17 anos, também precisou deixar seu país natal para tentar sobreviver à guerra. No entanto, sua trajetória traz uma particularidade que deixa toda a saga ainda mais dramática: Nujeen nasceu com paralisia cerebral e, por isso, tem os movimentos das pernas extremamente limitados. Impossibilitada de caminhar, a jovem precisou atravessar a fronteira de 12 países em cima de uma cadeira de rodas.

Filha de Yaba e Ayee, Nujeen tem outros 8 irmãos, todos mais velhos, e, dentro de suas limitações, levava uma vida normal em Alepo. Dona do controle da televisão da sala, adorava assistir novelas, séries, tênis (é fã de Roger Federer) e futebol (torce para o Barcelona e, na Copa de 2010, por conta de Messi, estendeu a bandeira da Argentina na varanda de sua casa). Todo esse seu mundo começou a mudar em 2012, após a Primavera Árabe. A ideia de revolução que dominou diversos países do Oriente Médio chegou, então, à Síria: boa parte da população queria derrubar o ditador Bashar al-Assad, o que deu início à batalha civil complexa, com diversos atores com interesses diferentes, que perdura até hoje.

Mas a macro-história dessa Síria está em todos os lugares, foquemos na história de Nujeen. Após ver a violência crescer e se aproximar do lar, onde já se transformara em algo comum ouvir bombas explodindo, a família Mustafa buscou por uma situação melhor em algumas cidades sírias, até que, em 2015, os pais da garota resolveram enviá-la para fora do país junto com uma de suas irmãs. A ideia era que fossem até o oeste da Turquia de avião e de lá seguissem por mar e terra até a Alemanha, onde outro irmão de Nujeen vivia há anos. Pai e mãe ficariam para ganhar dinheiro e bancar a viagem dos rebentos, depois iriam ao encontro deles no país europeu. Quando saiu de casa, Nujeen levou consigo poucos pertences que cabiam em uma mochila, um andador que poderia ser útil em situações específicas e sua cadeira de rodas.

De cadeira de rodas em um bote

Na Turquia começou a parte tensa da viagem: as empreitadas por mar e terra, quase sempre feitas em veículos clandestinos que passavam por rotas criadas por intermediários para levar refugiados de um país a outro. Não foram poucas as vezes que traficantes de seres humanos enganaram Nujeen e seu grupo. Se compravam vaga em um barco novo com motor zerado para atravessar um trecho por água, por exemplo, recebiam, na verdade, um bote remendado com um propulsor que ameaçava falhar a qualquer momento. Em outras oportunidades, esperavam em determinados lugares por alguém que nunca aparecia.

Se a situação já era difícil para pessoas sem problemas físicos, para Nujeen a realidade era ainda pior. Chegou a presenciar gente dizendo que ela não deveria ser autorizada a entrar em botes e, depois, que deveria ser arremessada com sua cadeira à água, assim aliviariam o peso da embarcação e diminuiriam as chances de um naufrágio – de toda forma, parecia bastante improvável que uma garota naquela situação sobrevivesse aos duros dias que passavam. Mas também havia os que ajudavam, claro, como homens que se dispuseram a carregá-la com cadeira e tudo para que superasse um campo repleto de pedregulhos.

A situação da moça se reverteu completamente quando o grupo precisou de alguém que se comunicasse com oficiais europeus e agentes de ajuda humanitária: por conta do tempo que vivia em casa em frente à televisão quando morava na Síria, Nujeen era a única ali que aprendera a falar um pouco de inglês.

“Essa maluquice tem que acabar, um dia eu voltarei para casa”

Toda essas dificuldades enfrentadas pela garota estão registradas em “Nujeen”, livro autobiográfico que a síria assina em conjunto com a jornalista Christina Lamb. A obra foi publicada recentemente no Brasil pela Universo dos Livros e oferece ao leitor uma boa oportunidade para entender como são os dias de pessoas que precisam sair pelo mundo em busca de refúgio.

Com perdas e encontros ao longo do caminho, Nujeen passou pela Grécia, Macedônia, Sérvia, Croácia, Eslovênia, Áustria… E mesmo a tensa situação na fronteira com a Hungria já é algo um tanto distante da realidade que vive hoje. Após rodar 5.782 quilômetros (que consumiram 5.045 euros ao longo do trajeto), Nujeen e sua irmã conseguiram alcançar o grande objetivo e chegar à Alemanha, onde moram atualmente.

“Vivo nos arredores da cidade de Colônia com duas irmãs, quatro sobrinhas e um irmão. Minha vida hoje é típica de uma garota adolescente: eu acordo todos os dias e vou para escola, onde estudo por oito horas. As diferenças de estilo de vida e cultura realmente foram um desafio no começo, mas estou me adaptando”, conta a garota.

Nujeen diz não ser fácil a vida no país europeu, contudo. “Somos visitantes na Alemanha. Nossa região do mundo não possui uma boa reputação, mas acho importante as pessoas saberem que não escolhemos vir à Europa, nós fomos forçados a deixar nosso país. Estamos cientes de que a vasta maioria das pessoas não conhece nossa cultura, língua, gastronomia… Não queremos que as pessoas nos vejam como um problema, estamos tentando ser bons representantes e embaixadores de nosso país e cultura. Eu gostaria de provar que os refugiados não são apenas um problema, mas indivíduos que poderiam dar grandes contribuições à sociedade europeia, e que, ao receber os refugiados, a Alemanha não está cometendo um erro”.

Voltando ao livro, logo no começo Nujeen faz uma pergunta: “Você sabia que, atualmente, uma a cada 113 pessoas no mundo fugiu de seu lar ou foi obrigada a abandoná-lo?”. E é assim que ela se sente: fugidia e obrigada a abandonar seu lar, para onde um dia deseja voltar. “A situação na Síria é difícil e não parece estar melhorando, mas eu nunca perco as esperanças porque nada dura para sempre. Essa maluquice tem que acabar, um dia eu voltarei para casa”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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