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Após ser estuprado aos 6 anos, cair nas drogas e tentar se matar, James Rhodes foi salvo pela música

Rodrigo Casarin

18/05/2017 08h25

Aos seis anos o inglês James Rhodes foi estuprado pela primeira vez. O responsável pelo abuso foi seu professor de boxe, que costumava convidar o garotinho de aparência frágil para lhe ajudar a recolher e guardar as coisas no final das aulas. A violência se repetiu muitas vezes ao longo de anos. Não adiantava o acuado James, que levaria décadas para assumir abertamente o que acontecera, dizer a seus pais e mestres que não queria mais praticar o esporte. Quando uma professora tentou interceder por ele e foi conversar com a diretora da escola, ouviu como resposta algo como “ele deve ser mais durão”. James viria a saber disso muito tempo depois.

“Eu passei, literalmente da noite para o dia, de um menino alegre, dançante, rodopiante, risonho, que curtia a segurança e a aventura de uma nova escola, para um autômato isolado, preso em seu próprio corpo, insensível a tudo. Foi algo repentino e chocante, como andar todo feliz da vida por um caminho ensolarado e de repente alguém abrir um alçapão e você cair num lago gelado. Quer saber como se faz para arrancar tudo o que há de criança de dentro de uma criança? Basta estuprá-la. Estupre-a repetidas vezes. Bata nela. Segure-a e empurra coisa dentro dela”, registra James.

Ao mudar de escola, via no sexo uma maneira de conquistar as coisas. Escondia-se no banheiro com crianças e adultos que lhe abusavam em troca de algum doce. Antes dos dez anos, já tinha sido violentado por muita gente. Claro que isso resultou em diversos problemas psicológicos e emocionais ao longo de sua juventude e fase adulta. Sentia-se inseguro para tudo e, por mais que boas oportunidades surgissem, acabava sempre se fechando em seu próprio mundo, amedrontado. Durante muito tempo acreditou que drogas como o álcool e a heroína lhe serviam de apoio.

O primeiro casamento e o primeiro filho, que vieram de maneira um tanto improváveis pela sua trajetória, até poderiam ter servido para a transformação definitiva de James, para uma mudança radical em sua vida, mas não foi o que ocorreu. A impressão é que cada vez que coisas boas lhe aconteciam – pessoalmente ou profissionalmente –, maior seria o tombo que levaria. Assim que suas condições psicológicas degringolaram a ponto de ser internado em clínicas psiquiátricas.

Tentativa de suicídio e a música

Como as drogas já não lhe bastavam, passou a apostar na automutilação para ficar em um agradável estado de torpor, alheio a tudo ao seu redor. Depois de se cortar inúmeras vezes com lâminas, James chegara ao ponto de querer findar sua trágica existência. Na mais dramática das tentativas de suicídio, enforcou-se com um cabo de televisão e só não morreu porque um enfermeiro lhe socorreu antes que sufocasse.

O que finalmente salvou James – ao menos por enquanto – foi a música. Na infância ele estudara piano e ainda pequeno se apaixonou pelas notas clássicas. Bach, Schubert, Beethoven, Ravel, Mozart e Rachmaninoff, por exemplo, mostraram-se decisivos em fases importantes de sua vida. Então, em momentos relativamente mais tranquilos dentro da conturbada trajetória de James, algumas pessoas lhe estenderam a mão e deram oportunidades para que ele pudesse se dedicar à arte que sempre amou e que deixou reprimida durante muito tempo dentro de si.

“Eis que me encontro debaixo das cobertas. Fone de ouvido bem apertado. Meia-noite. Escuro, silêncio total. E eu apertei o play e ouvi uma peça de Bach que ainda não tinha ouvido. E isso me levou a um lugar de tamanha magnificência, entrega, esperança, beleza e espaço infinito, que foi como tocar a face de Deus. Juro que tive algumas vezes uma espécie de epifania”, recorda sobre um dos momentos pós-crise.

Depois de algumas idas e vindas, já com trinta e tantos anos, após um improvável encontro na fila de um café, pôde gravar seu primeiro álbum como pianista – sim, tudo na vida de James aconteceu assim, de repente. E não acabou aí. A mesma pessoa que foi diretamente responsável por fazer com que triunfasse na carreira de músico também lhe deu dois livros decisivos para que contornasse seus muitos problemas emocionais: “Despertando o Tigre” e “De Volta Para Casa”. Ironicamente, duas obras de autoajuda, algo que o próprio James reconhece ser um tanto irônico para alguém de gosto estético – ao menos dentro da música – tão apurado.

Autobiografia brutal

James Rhodes repassa toda essa sua trajetória em “Instrumental – Memórias de Música, Medicação e Loucura”, autobiografia que acaba de ser lançada no Brasil pela Rádio Londres (que deveria ter tido um pouco mais de cuidado com a edição e revisão) e de onde foram retiradas as citações desta matéria. Nas últimas páginas, depois de falar sobre “Despertando o Tigre” e “De Volta Para Casa”, a narrativa assume um tom de autoajuda. Não é nada que atrapalhe a maneira que a história é contada até ali, contudo.

James registra e interpreta a sua própria vida de maneira brutal, sem autopiedade alguma, sem complacência consigo – em alguns momentos, quando recorda dos estupros, fala de um modo que pode causar embrulhos até nos estômagos mais resistentes. Mesmo sendo um gênero que passa longe de estar entre os meus preferidos (normalmente autobiografias são autobajuladoras demais), li “Instrumental” em uma tacada só, como se fosse mesmo um magnífico concerto, e a recomendo fortemente, está entre os livros mais impactantes do ano.

Hoje, aos 42 anos, James permanece vivo, mas não sabe por quanto tempo. “Não tenho a menor ideia se vou sobreviver aos próximos cinco ou seis anos. Já estive em situações em que me sentia sólido, confiável, bom e forte, e foi tudo pro espaço. Infelizmente, estou sempre a apenas duas semanas ruins de uma ala psiquiátrica de segurança máxima”.

Em todo caso, ativo, tenta “desgourmetizar” a música clássica para que ela alcance um público muito maior do que a meia dúzia de gatos pingados que tenta mantê-la como algo elitista. Além de gravar álbuns e fazer concertos nos quais busca dar uma roupagem popular para tal arte, ainda que sem descaracterizá-la, também apresenta programas de televisão sobre os músicos e as grandes composições que foram decisivas para que salvasse sua própria vida.

Veja um vídeo de James Rhodes tocando Beethoven:

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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