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Caminho das trevas? Brasil vê produção de livros religiosos aumentar enquanto venda de científicos diminui

Rodrigo Casarin

17/05/2017 12h00

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros acaba de divulgar os números referentes a 2016 da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, feita em parceria com a Câmara Brasileira do Livro. Tal qual já havia acontecido em 2015, os dados apurados pela Fipe são preocupantes. O crescimento nominal da área foi de 0,74%, o que, se levarmos em conta a variação do IPCA no período, significa uma retração real de 5,2%. Em dois anos, a indústria do livro acumula um encolhimento superior a 17% e no ano passado quem mais sentiu a crise econômica pela qual o país passa foi o subsetor de livros científicos, técnicos e profissionais, que teve uma diminuição real de 15,8%, resultado de uma queda nas vendas de 4,5 milhões de exemplares.

Enquanto isso, o subsetor das editoras religiosas também teve uma retração. No entanto, olhando para a religião como área temática, que leva em conta títulos do tipo editados por qualquer editora, não apenas aquelas casas que se definem como religiosas (sim, a coisa é um pouco confusa mesmo), a cena muda. Se milhões de livros científicos, técnicos e profissionais deixaram de ser vendidos em 2016, os que de alguma forma tratam de religião se mostraram ainda mais presentes no mercado: em 2015 foram produzidos 87.672.975 livros do tipo, já em 2016 esse número saltou para 88.810.635.

Os livros de religião estão em segundo lugar na relação de obras por área temática, representando 20,79% da produção – esse número em 2015 era de 19,62%. Quem permanece na liderança são os didáticos que, entretanto, viram seus dados diminuir: representavam 49,10% do setor em 2015, agora estão com 48,48%, o que, na prática significa quase 20 milhões de livros dedicados ao ensino a menos.

Ainda que algumas outras áreas temáticas importantes tenham apresentado leve crescimento, como literatura adulta e infantil – enquanto a juvenil encolheu -, é bom ficarmos atentos. No ano passado, havia comentado aqui no blog que a ascensão dos livros religiosos já tinha sido constatada; também lembrei que o Brasil, além de ter dados pífios relativos à leitura, ainda tem uma população que, quando lê, consome majoritariamente a “Bíblia”. Não bastasse, é notório que a religião vem ganhando espaço em diversos setores da sociedade – principalmente em nossa política, o que é o mais preocupante. Ou seja, o que acontece no mercado editorial é só reflexo de um movimento mais amplo.

O problema não está nos livros religiosos em si, sejam eles os sagrados ou não, mas na maneira que muitos interpretam esses livros e alastram essas interpretações por aí. Houve uma época em que o saber vinha muito mais da religião do que da ciência e outras áreas mais confiáveis e supostamente menos dogmáticas do conhecimento. Pessoas eram ameaçadas e até queimadas por demonstrarem que os escritos “divinos” e o modo de encará-los poderiam estar – e quase sempre estavam – errados. Não por acaso, tal época ficou conhecida com Idade das Trevas.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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